Construímos a Internet conforme nossa própria imagem



Nesta entrevista,originalmente publicada no jornal francês Le Monde,o espanhol Manuel Castells fala sobre os caminhos da Internet,sobre o lado positivo da cultura hacker e sobre a divisão digital que faz a Web chegar a seu limite.Autor de mais de 20 livros,entre os quais a poderosa trilogia [A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura (1996-2000)],traduzida para diversos idiomas,é membro do comitê de especialistas sobre a Sociedade da Informação da Comissão Européia e do comitê assessor da secretaria-geral das Nações Unidas sobre tecnologia da informação e desenvolvimento global.
Castells é professor da Universitat Oberta de Catalunya,onde exerce o cargo de diretor de pesquisa do Instituto Interdisciplinário de Investigação sobre Internet[IN3] ( http://www.uoc.es/in3/esp ),centro que mobiliza cerca de 20 mil alunos em 15 países, matriculados em cursos oferecidos exclusivamente pela Web.É também professor de Sociologia e de Planejamento Urbano e Regional na Universidade da Califórnia em Berkeley,na Universidade Autônoma de Madrid e na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris.


Le Monde: Em sua trilogia [A Era da Informação: Economia,Sociedade e Cultura (1996-2000)], o sr. dedicou um volume inteiro para mostrar como nossas sociedades se organizam em rede.E uma de suas últimas publicações é uma obra dedicada exclusivamente sobre a Internet(n.t.: [La Galaxia Internet: Reflexiones sobre Internet, Empresa y Sociedad],ainda sem tradução no Brasil).Qual a razão?

Manuel Castells: Fico irritado com as banalidades e as idéias falsas que circulam na Web sobre o tema.Hoje dispomos de elementos suficientes para demonstrar que a Internet não isola e tampouco é um instrumento de poder ou do mundo dos negócios.Pelo contrário,é um espaço descentralizador e cidadão.A Internet é um fenômeno econômico,social e político,mas não é nem uma tecnologia que traz em si a solução global aos problemas da humanidade,nem um sistema que cria desigualdades sociais.


Le Monde: O sr. insiste no [espírito hacker], que marcou os primeiros anos da Web. O que restou dessa cultura?

Manuel Castells: Quando falo em "hackers",refiro-me aos apaixonados por informática que inventam e inovam por prazer,e não aos destruidores (n.t.: crackers) que só prejudicam. Creio que restam muitas coisas da cultura original da Internet.O próprio funcionamento da Web,por exemplo, ainda se dá através de programas de códigos abertos criados por esta comunidade.Dois terços dos servidores do mundo utilizam o sistema Apache, desenvolvido e mantido por uma rede cooperativa de informáticos.Por outro lado,as práticas da Microsoft me parecem contrárias a esta cultura.É uma empresa genial para a comercialização,mas sem inovações.Mas o que me parece mais fundamental é que a "cultura hacker" impregna hoje uma grande parte da sociedade.Difunde-se entre as novas gerações e não só nos campos tecnológicos.As organizações não governamentais (ONGs) são um bom exemplo desse processo.Elas utilizam capacidades de inovação formidáveis para deter a pobreza, vencendo o peso tecnocrático dos governos. Quanto mais uma sociedade é informatizada e dá economia do conhecimento,mais importante é sua capacidade de inovar no interior do sistema,com meios criativos.Essa é a cultura herdada da ética dos hackers.


Le Monde: Como o grande público se apropria da Internet e o que ele,por sua vez,traz para a rede?

Manuel Castells: A pergunta que se deve sempre colocar é a seguinte:uma tecnologia,sim,mas para fazer o quê? Nisso a Internet não difere das outras grandes tecnologias da história.Ela se difunde, portanto, mais depressa nos meios que a utilizam. Mas uma técnica se torna instrumento importante de práticas sociais somente quando a sociedade em seu conjunto tem necessidade dela para avançar. Hoje as pessoas constroem a web à sua imagem.É uma baderna,pois tudo coexiste na Internet: utilizações sociais,expressões políticas,rede de sociabilização pessoal,pesquisa de informações,movimentos associativos,mas também propaganda nazista,pedofilia e pornografia. Isso preocupa os políticos,pois esse espaço não pode ser totalmente controlado.Mal pode ser reprimido. O grande público tem,portanto,papel a exercer em seu desenvolvimento.Aliás,ele não se privou disso.Os internautas realmente produziram os bate-papos,os grupos de notícias,os fóruns... Os leilões online,a arte digital ou o download de música foram inventados, dessa maneira,e depois adotados por empresas.


Le Monde: O Fórum Mundial de Porto Alegre,no Brasil,mostrou as premissas de uma sociedade civil mundial capaz de se mobilizar por grandes causas.A Internet tem um papel maior neste processo?

Manuel Castells: Vejo que se somam os embriões de uma sociedade civil planetária.O papel da rede mundial é essencial,pois permite a existência,em suas identidades locais,de pessoas provenientes de culturas e horizontes diversos.Existe uma sociedade civil que se estrutura melhor em nível mundial do que nacional.Hoje o interesse do público por problemas mundiais como os direitos humanos ou as questões ambientais fez surgir uma série de redes e de intervenções sobre as estruturas e as instituições que determinam a vida das pessoas.O interessante é que a sociedade civil tem por alvo o Estado para tentar obter mudanças em suas condições de vida. Ela não tem ponto de referência em um Estado global. Ela passa, portanto, pelos meios de comunicação que estão à sua disposição.As mídias,mas também a Internet,são muito úteis,pois através delas os atores da sociedade civil criam uma sensibilidade que indiretamente influencia as instituições políticas.É assim que a Internet se transformou hoje em uma esfera política que não era antes.


Le Monde: Apesar da apropriação da Web por uma quantidade crescente de internautas,a questão da divisão digital nunca foi tão importante. Por quê?

Manuel Castells: Todo mundo deveria ter direito a utilizar a Internet e ninguém deveria ser penalizado por questões de geografía ou de dinheiro.Além disso,há outros elementos que fazem com que a divisão digital subsista.Um deles é a velocidade na Internet,e outro é a forma como aqueles que estão no ciberespaço dão forma à Web segundo sua própria imagen.Quanto mais a democratização da Internet demorar,mais a Web se desenvolverá em torno de valores que não são aqueles do conjunto da sociedade.A difusão da Internet sobre o conjunto do planeta exigirá forte ação dos Estados, com ações públicas nacionais e internacionais.As diferenças culturais,financeiras e de infra-estrutura são hoje tais que podemos ter um terço do planeta estruturado ao redor da Internet e dois terços excluídos,com tudo o que isso significa em termos de acesso à informação ou aos recursos empresariais.O desenvolvimento da Web,que era exponencial,encontra nessa realidade o seu limite.



Tradução e adaptação do texto: Karla Vaz
Publicação autorizada: I-Coletiva