"Índio não é gente"
?O inimigo do gênero humano que sempre se opõe às boas obras para que pereçam, inventou um método até agora inaudito para impedir que a Palavra de Deus fosse pregada às gentes a fim de que se salvem e excitou alguns de seus satélites, que desejando saciar sua cobiça, se atrevem a afirmar que os Índios ocidentais e meridionais e outras gentes que nestes tempos chegaram ao nosso conhecimento ? com o pretexto de que ignoram a fé católica ? devem ser dirigidos a nossa obediência como se fossem animais e os reduzem à servidão urgindo-os com tantas aflições como as que usam com as bestas
... e fazendo uso da Autoridade Apostólica determinamos e declaramos pelas presentes letras que tais índios, e todas as gentes que no futuro chegarem ao conhecimento dos cristãos, ainda que vivam fora da fé cristã, podem usar, possuir e gozar livre e licitamente de sua liberdade e do domínio de suas propriedades, que não devem ser reduzidos à servidão e que tudo que se tivesse feito de outro modo é nulo e sem valor."
Papa Paulo III, Bula Sublimis Deus, 1537
Fui testemunha de uma cena absurda em Pacaraima, cidadezinha de clima surpreendentemente frio na fronteira de Roraima com a Venezuela: um motorista do táxi deu marcha a ré descuidadamente e quase atropelou um grupo de índios que passava atrás do seu carro. Embora os índios não tivessem culpa de nada e sim o motorista, que quase os atropelou, a reação dele foi inacreditável: ?Rapaz, índio não é gente. Índio tem é que ficar na maloca?, disse várias vezes aos berros, fazendo questão de que os índios ouvissem, o que fizeram sem esboçar qualquer reação, como que se estivessem habituados a esse tipo de insulto. Essa é a situação em Roraima e na maior parte do norte do Brasil: os índios são sempre os culpados, mesmo quando são as vítimas. A economia vai mal? Desemprego e violência em alta? Nada a ver com os políticos ?gafanhotos?, que desviaram centenas de milhões de reais dos cofres do Estado. A culpa é sempre dos índios.
Como na antiga fábula do lobo e do cordeiro, os índios de Roraima já foram acusados de tudo, sem terem culpa de nada: de associação com o narcotráfico, com o contrabando, com as Farc e com a CIA. Só não foram acusados ainda de terroristas, como outro povo em agonia parecida, os palestinos, mas não percam por esperar.
Os nossos palestinos sempre foram o bode expiatório favorito para as mazelas de Roraima. Mas agora, tiveram o atrevimento de se organizar em defesa das terras que ocupam há milhares de anos - a área de Raposa/ Serra do Sol, para indignação das elites acostumadas a desmandar neste país sem serem questionadas. Só que nenhum inimigo da homologação da área indígena contesta que os índios sempre foram os legítimos ocupantes daquelas terras. Para barrar a homologação, sua estratégia é desqualificar não o direito em si, mas seus titulares, tentando apresentar os índios como não merecedores de suas próprias terras: por serem poucos índios para muita terra (omitindo que a concentração de terras nas mãos dos latifundiários é infinitamente maior); por incapazes e incompententes para explorá-la economicamente; por tais terras constituírem uma ameaça à segurança nacional, como se os índios constituíssem um corpo estranho dentro da nação brasileira. Logo eles, chamados de ?os mais brasileiros dos brasileiros? pelo Marechal Rondon, uma pessoa cuja folha de serviços prestados ao país é maior do que a de qualquer outro brasileiro, antes ou depois dele. Onde já vimos esse discurso antes? Contra os judeus na Alemanha dos anos 30, contra os palestinos hoje, contra os índios há 500 anos; RACISMO é a munição para os adversários da homologação de Raposa/Serra do Sol. Racismo escancarado por parte dos poderosos deste país, como o deputado Jair Bolsonaro, que num intervalo de suas agressões contra mulheres chamou os índios de ?fedorentos e não educados?.
Uma facada nas costas do povo brasileiro
Não são apenas os argumentos racistas que fazem com que as articulações contra a homologação de terras indígenas sejam de uma torpeza extraordinária. Por trás do discurso pseudo-nacionalista e de defesa da soberania nacional se esconde um crime de traição contra o povo brasileiro. O que pouca gente sabe, e os inimigos dos índios tratam de omitir, é que as terras indígenas são BENS DA UNIÃO, pela Constituição de 88 ? ou seja, NOSSAS (art. 20, XI). Os índios detêm apenas a POSSE dessas terras. O objetivo dos inimigos da homologação é a privatização, ou melhor, a doação das terras indígenas, em prejuízo não só desses, mas de todo o povo brasileiro.
A Constituição Federal também assegurou aos indígenas participação nos resultados da exploração dos recursos minerais em suas áreas, a ser regulamentada por legislação complementar que até hoje não foi aprovada. A área de Raposa/Serra do Sol é comprovadamente rica em metais preciosos, minerais estratégicos e, possivelmente, a maior fonte de discórdias e conflitos da atualidade ? petróleo. É por isso que o lobby contrário à homologação é capaz de comprar tudo o que esteja à venda.
A disputa entre defensores e opositores da homologação é completamente desigual. De um lado, a minoria mais marginalizada e injustiçada não só do Brasil, mas de todo o continente; do outro, uma elite arrogante e corrupta, dona de recursos abundantes, compradora de consciências, patrocinadora de campanhas políticas e senhora absoluta dos rumos da política estadual, e mais ainda, com um peso desproporcional em assuntos nacionais.
A principal plataforma da bancada de Roraima no Congresso (que vivem às turras entre eles, mas fazem coro quando o assunto é questão indígena) é a não homologação de Raposa em área contínua ? e especialmente no Senado, o voto dos congresistas roraimenses é capaz de ser o fiel da balança em votações mais delicadas. Graças às distorções do nosso sistema federativo, um voto para o Senado de um eleitor de Roraima vale 132 vezes o de um eleitor de São Paulo. Uma senhora com quem eu conversava no lotação de Pacaraima a Boa Vista, me disse uma frase impressionante, bem reveladora de como funciona a política não só em Roraima, mas em todo o Brasil: ?Bom mesmo era o deputado Moisés Lipnik. Ele dava fogão para quem votasse nele?. É por essas e outras que em Boa Vista, as ruas são asfaltadas e as calçadas, de barro, e se transformam em pântanos após os freqüentes temporais.
O depufede
O mais novo aliado do milionário lobby contrário à homologação é o deputado Lindberg Farias, ex-PC do B, ex-PSTU, atualmente no PT. Quando estourou o escândalo dos gafanhotos, as lideranças políticas de Roraima ficaram completamente desmoralizadas, dando uma oportunidade de ouro para que o Governo finalmente homologasse a área de Raposa.
As elites de Roraima resolveram dar uma última cartada, realizando atos de sabotagem, como o bloqueio de estradas e aeroportos, e o governo federal voltou atrás, dando tempo para que o escândalo fosse esquecido e os políticos voltassem a se articular no Congresso. Lindberg e o senador Delcídio Amaral, também do PT, foram os relatores de uma proposta que excluía da homologação quase 50% do território original, inclusive a cidade-armação-fantasma de Uiramutã, além de retalhar as áreas remanescentes. Isso exorbitando as funções do Congresso, violentando a Constituição e num atropelo flagrante do princípio da separação dos poderes, pois usurparam uma atribuição exclusiva do Executivo Federal. Esses petistas nacionalistas foram aplaudidos de pé por uma ultra-direita saudosa dos anos de chumbo e da servidão completa aos Estados Unidos
Lindberg Farias agora é candidato à prefeitura de Nova Iguaçu, importante colégio eleitoral da Baixada Fluminense ? com o apoio do PFL e do PSDB (!), e com direito ao caríssimo Nizan Guanaes (ex-José Serra) como marqueteiro. Seus adversários afirmam que ele nem conhece a cidade, e que sua candidatura é mero trampolim para o governo do estado em 2006. Seja como for, o certo é que as fábricas de fogões estão festejando suas vendas em Nova Iguaçu.
Ribamar Bessa assim se refere ao petista:
?Lindberg, ex-presidente da UNE (1992/93), surfista que montou na onda do movimento dos ?caras-pintadas? para se eleger deputado federal, na realidade não passa de um cara-pálida, que quer mostrar serviço aos que tem grana e poder. Enquadra-se naquela categoria criada pelo saudoso Stanislaw Ponte Preta, que chamava de ?depufede? os deputados federais oportunistas, que usam o mandato em benefício próprio e não da população que os elegeu.
O depufede Lindberg, ex-cara-pintada, quer ser prefeito de Nova Iguaçu, aqui no Rio de Janeiro. Para isso, mancha a história da UNE, aliando-se com o que existe de mais podre na sociedade brasileira. Vai pagar caro por esse relatório contra os índios. Prometo aos meus amigos Makuxi e Wapixana ? Terêncio, Euclides, Clóvis, Waldir, Valdemar e tantos outros ? que infernizarei a vida desse depufede, panfletando lá onde ele vai pedir voto, para mostrar sua cara despintada, que revelou a cara-de-pau de um carapálida oportunista. Como diria o finado Teodoro Botinelly, pau nele, companheiros.?
Pode contar com a gente
Contra a justiça, calúnias
A canalhice dos inimigos dos índios chega ao ponto de inventarem um ?hoax?, desmascarado pelo site especializado em "pulhas virtuais" Quatro Cantos, que é uma compilação de todas as mentiras que as elites de Roraima usam para encobrir sua falta de argumentos e suas sinistras intenções. O estelionatário que forjou essa versão eletrônica de fraudes como os Protocolos dos Sábios de Sião ou o Plano Cohen não prova nenhuma de suas absurdas acusações com fotos ou documentos, apenas a sua ?palavra?, que é a palavra de um fantasma, já que a própria pessoa cujo nome foi indevidamente usado como autor do email desmentiu de público a autoria, e inclusive afirmou que jamais pôs os pés em Roraima. No entanto, isso não foi capaz de impedir o prosseguimento da fraude, que agora circula anônima.
Entre as mentiras ridículas para qualquer pessoa que conhece o Estado, a de que os índios de Roraima falam inglês ou francês, mas não português; que os americanos podem entrar à vontade nas áreas indígenas, mas não os brasileiros; de que há bandeiras dos EUA e européias hasteadas na entrada das áreas, mas não brasileiras. O hoax encerra com uma pergunta cretina: ?porquê (sic) os americanos querem tanto proteger os índios ?? ? os americanos nunca foram nem são protetores, mas sim exterminadores de índios, inclusive os próprios índios de Roraima como os Waimiri-Atroari, e multinacionais norte-americanas estarão entre as principais beneficiárias da eventual não homologação de Raposa em área contínua. Não ocorreu a esse idiota mau-caráter fazer a verdadeira pergunta pertinente: por que o Brasil não protege seus próprios índios?
Os traidores da pátria acusam os próprios traídos de traírem a pátria, e de representaram uma ameaça à soberania nacional, tachando as áreas indígenas de cabeças-de-ponte de uma futura invasão estrangeira. Como a Venezuela e a Guiana, que fazem fronteira com Roraima, são candidatos improváveis a um ataque ao Brasil, os aliados dos índios variam de acordo com o público alvo da campanha difamatória: se forem racistas de direita, são os guerrilheiros colombianos; se forem racistas de ?esquerda?, são os Estados Unidos. E assim tentam destruir a primeira tentativa na história do Brasil, senão das Américas, de reconhecer a uma comunidade indígena o direito de habitar suas próprias terras em sua integridade.
Uma elite corrupta e arrogante cobiçando as terras da minoria mais marginalizada e perseguida das Américas, vítima do maior genocídio da história da humanidade, e para isso se fazendo de vítimas, e das vítimas os vilões. Pode haver maior covardia? Pode haver maior injustiça?
Uma tribuna nos altares
A mentira preferida dos inimigos dos índios diz respeito à atuação de ?ONGs internacionais? em Raposa/Serra do Sol, embora não consigam apontar o nome de uma só delas. A verdade é que em Roraima atuam umas poucas ONGs nacionais, uma ou outra internacional, todas sofrendo com uma crônica falta de recursos. Mas uma "ONG" poderosa com sede na Itália é a grande defensora da causa indígena, em Roraima e no Brasil: a Igreja católica. É o único aliado peso-pesado dos índios de Roraima, e sem ela posso afirmar com segurança que sua causa já estaria perdida. Um aliado fiel e constante e que já pagou muito caro por sua defesa apaixonada dos direitos dos indígenas, inclusive com vidas humanas. E a Igreja Católica não esquece os seus mártires, como o padre João Calleri.
Nos anos 60, as terras dos índios Waimiri-Atroari eram cobiçadas por poderosos interesses nacionais e multinacionais por conta de suas enormes riquezas ? exatamente como ocorre hoje com Raposa/Serra do Sol. A MEVA, Missão Evangélica da Amazônia, financiada pela família Rockefeller, buscava converter e atrair os Waimiri-Atroari para fora de suas terras, por meio de ardis, mas também à força se necessário. Valiam-se de uma estratégia que vem sendo reutilizada com sucesso, mais de trinta anos depois: jogar irmão contra irmão, índio contra índio, comprando os que se vendiam para atacar os que não se vendiam. O padre Calleri, sabedor do plano monstruoso, se oferece para liderar uma missão suicida de contato com os índios. Foi massacrado com requintes de crueldade juntamente com toda sua expedição, e seus corpos barbaramente mutilados pelos sicários do Coronel Claude Lewitt, segundo relata o livro ?Massacre?, das Edições Loyola.
Curiosamente, quando falam em ?ONGs internacionais?, nenhum dos inimigos dos índios lembra a MEVA. Mas a Igreja Católica sabe melhor do que ninguém que os assassinos envelhecidos do padre Calleri, juntamente com uma nova geração de assassinos, estão à espreita, rondando as terras de Raposa/Serra do Sol.
Enfim, se tivesse que resumir a questão de Raposa/Serra do Sol em quatro palavras, seriam: racismo, cobiça, traição e justiça. RACISTA é o tom dos argumentos contrários à homologação; COBIÇA é o que move os inimigos dos índios; TRAIÇÃO, pois em nome do nacionalismo tentam praticar um duplo esbulho: contra os índios e contra o restante do povo brasileiro. E finalmente, porque a homologação na íntegra da área de Raposa/Serra do Sol é pura e simplesmente uma questão da mais estrita JUSTIÇA.
Montanha de Cristal
Já falei um pouco sobre o ?povo? e sobre a ?guerra?, agora vou falar um pouco sobre a ?terra?, sobre a maior cidade da região, Boa Vista, sobre Santa Elena de Uairén e sobre a montanha sagrada dos índios da Grande Savana ? o monte Roraima.
Existem mais de 100 tepuis na região do Escudo das Guianas, boa parte deles ainda inexplorada. Esses tepuis eram o leito de um antigo oceano, que existiu muito antes que houvesse vida na Terra, tanto que não há fósseis aprisionados em suas rochas. Na verdade, as rochas dos tepuis datam da época da formação da crosta terrestre. São testemunhas da alvorada do planeta.
O monte Roraima e os demais tepuis talvez sejam o local mais extraordinário não só do Brasil mas do mundo inteiro, embora não estejam entre as montanhas mais altas. Os Andes, o Himalaia, as cataratas do Iguaçu, as savanas da África, a Antártida, tudo isso já foi extensamente divulgado através da televisão e tais paisagens nos são familiares, mesmo que nunca as tenhamos visitado. Quanto ao Roraima, não me recordo de nenhum programa, seja na TV brasileira, seja na TV a cabo, que tenha mostrado suas belezas. Isso ajuda a envolvê-lo numa aura de mistério, de diferente, de inédito
Segundo uma lenda pemon registrada pela primeira vez no início do século XX pelo antropólogo alemão Theodor Koch-Grunberg (um romântico e sonhador incorrigível, apaixonado pelo povo pemon e sua terra, e que ali morreu de malária em 1924), o Roraima é o talo de uma imensa árvore que foi cortada por Makunaíma, o herói debochado e sem caráter e ancestral mítico de todos os povos caribes. Visto em um mapa, pode ser toscamente comparada a um triângulo, sendo que em seu vértice norte os lados formam um ângulo agudo, em forma de cunha. É a chamada ?proa? do Roraima, que devido à distância só pode ser atingida nas expedições mais longas, de 8 dias pelo menos. As encostas do monte são paredões verticais, formando abismos de altura extraordinária, com exceção de uma seção do lado sul, onde há a rampa de acesso ao monte. Esse lado sul tem uns 10 quilômetros de comprimento. A bissetriz que vai do lado sul até a proa tem aproximadamente 20 quilômetros. Mais ou menos na metade da bissetriz se encontra o "ponto tríplice", representado por um marco, onde as fronteiras do Brasil, Venezuela e Guiana se encontram.
O primeiro relato escrito do Roraima foi feito pelo favorito da rainha Elizabeth I, sir Walter Raleigh (Millor Guatarral nas crônicas espanholas). Em 1595 esse aventureiro seqüestrou o velho conquistador espanhol Antonio de Berrio para que servisse de guia em uma expedição à procura do Eldorado, e juntos exploraram o rio Orinoco (que Raleigh modestamente batizou de Raleana) até a foz do Caroni.
Eram dois sonhadores. Berrio era um veterano das guerras na Itália e em Flandres e ex-governador das Alpujarras, que consumiu sua saúde, sua fortuna e seus melhores anos numa busca obsessiva ao Eldorado pelas savanas da Venezuela. Planejava mais uma expedição ao Eldorado quando seu povoado de San José de Oruña, na ilha de Trinidad, é incendiado por Raleigh e ele se vê forçado a realizar seu próprio sonho em benefício de seus inimigos mortais, os ingleses.
Raleigh era o perfeito cavalheiro da corte elizabetana: militar, poeta, navegador, explorador, pirata, humanista. Havia incorrido no ciúme e desfavor de sua protetora, a rainha, e pretendia recuperar a estima de sua Majestade descobrindo as riquezas do Eldorado e fazendo assim da Inglaterra a maior potência mundial. Mas também tinha a idéia de que nesse futuro império inglês na América do Sul, os indígenas fossem tratados humanamente, diferenciando assim os ingleses das atrocidades cometidas pelos colonizadores espanhóis.
Raleigh nunca chegou perto do Eldorado, que cada aldeia que visitava dizia estar ?logo ali?, e também a aldeia seguinte, e assim por diante, até um ponto em que não pôde mais prosseguir. Voltou à Inglaterra de mãos vazias, fornecendo farta munição para seus inimigos e para os satiristas da corte. Para se defender, escreveu o livro ?Descobrimento do Grande, Rico e Belo Império da Guiana?, que imediatamente foi traduzido para o alemão e holandês e se tornou o best-seller da época, fazendo de Raleigh uma celebridade internacional. No livro, Raleigh mistura descrições fantasiosas com precisas observações etnológicas e geográficas. Numa passagem discorre sobre a tribo dos Ewaipanoma, sem cabeça, com olhos nos ombros e a boca no peito; também descreve como um de seus escravos foi devorado por um ?lagarto? (está escrito assim no original) enquanto se banhava. Mas quando se refere ao monte Roraima, sua descrição é perfeita:
?Fui informado da Montanha de Cristal, até a qual, para dizer a verdade, devido à distância e à estação do ano não pude marchar, nem continuar por mais tempo durante a jornada. Nós a vimos à distância, e parecia uma torre branca de igreja com uma altura extraordinária. Caía dela um poderoso rio que não tocava parte alguma do flanco da montanha, mas corria por sobre o topo dela, e caía até o chão com um barulho e clamor tão terríveis, como se mil grandes sinos batessem uns contra os outros. Eu acho que não há no mundo uma cachoeira tão estranha, nem tão maravilhosa de ver. Berrio me disse que havia diamantes e outras pedras preciosas sobre ela, e que elas brilhavam bem de longe; mas o que tinha nela eu não sei, nem ele nem nenhum de seus homens ascendeu ao topo de dita montanha, os povos vizinhos sendo seus inimigos, como o eram e o caminho a ela tão impassável?.
A denominação ?Montanha de Cristal? é bem apropriada, como veremos adiante. Desde a publicação do livro de Raleigh, o Roraima se tornou parte integrante do imaginário de poetas, exploradores, aventureiros e visionários.
Além das nuvens
A descrição generalizada que se faz desses dois tepuis gêmeos, Roraima e Kukenan, é compará-los a colossais mesas, ou a fortalezas, com suas paredes verticais de pedra brilhando ao sol ? só que com milhares de metros de altura, com os cumes acima das nuvens. Quando vi pela primeira vez o Roraima e seu irmão gêmeo, o Kukenan que paisagem esplendorosa! Pirei. De imediato fui tomada pelo desejo de explorar a infinidade de mistérios que o Roraima guarda em suas vastidões geladas Um ano mais tarde, pude realizar aquilo que se tornou o meu grande projeto de vida.
Alguns guias de viagem descrevem a subida ao Roraima como sendo fácil para pessoas bem condicionadas fisicamente, mas não é verdade. Embora não sejam necessárias cordas e equipamentos de alpinismo, a escalada é penosa até para pessoas atléticas, além de não ser totalmente isenta de perigo. Depois do que passei acho incrível que não despenque alguém de lá toda semana. Recomendo às pessoas que tenham interesse em conhecer o platô do Roraima, que gastem um pouco mais e façam a viagem de helicóptero. E caso decidam ir a pé, nunca o façam sem um guia (o que aliás é proibido). Se não, provavelmente você vai morrer e seu corpo jamais vai ser encontrado. Meu guia contou que, recentemente, um japonês teve a idéia insana de subir a montanha sozinho e sem avisar ninguém. Depois de vagar perdido por vários dias, foi avistado milagrosamente por um carregador no mais completo pânico e desespero, todo machucado, as roupas rasgadas e congelado.
A única maneira de se atingir o cume é através da Venezuela, pois tanto do lado brasileiro como do lado guianense está cercado por florestas impenetráveis, fora que somente do lado venezuelano há uma espécie de rampa natural, chamada justamente de Rampa, por onde é possível ascender sem apetrechos de alpinismo.
Assim, as expedições partem de Santa Elena, onde há diversas agências especializadas em excursões ao Roraima (há agências de Boa Vista que oferecem a excursão, e também nas grandes cidades brasileiras). De lá se segue de jipe até Paraitepui, e a partir daí o trajeto é a pé, através de vales, morros, florestas, savanas, atravessando rios caudalosos e pontes feitas de um único tronco até chegar ao acampamento base. Uma das partes mais perigosas é a travessia do traiçoeiro rio Kukenan, que nasce no cume do tepui do mesmo nome, depois despenca na savana através da segunda maior queda d?água do mundo, (perde apenas para o salto Ángel, que fica em outro tepui, o Auantepuy), e por fim desemboca no rio Caroni, que por sua vez é um afluente do Orinoco. Geralmente é possível fazer a travessia do rio a pé com muito cuidado (embora freqüentemente o excursionista acabe escorregando e tomando um banho, juntamente com sua mochila), mas o rio costuma encher de repente e sem aviso com correntes violentíssimas, e numa dessas ocasiões quase levou o meu guia, segundo ele me contou.
Geralmente leva-se um dia para fazer o percurso desde Paraitepui até o acampamento do outro lado do Kukenan, a uns 20 quilômetros de distância. De lá, parte-se até o acampamento base, no início da ?rampa?. A partir deste acampamento a vegetação se transforma de savana para uma densa e úmida floresta tropical. O avanço pela rampa é desgastante, consistindo numa sucessão interminável de subidas intercaladas com não poucas descidas igualmente íngremes.
A dificuldade da subida hoje em dia torna ainda mais impressionante a conquista do primeiro europeu a escalar o Roraima, o inglês Everard Im Thurn, no distante ano de 1884, e antes dele os pemon. De volta à Inglaterra, as conferências proferidas por Im Thurn sobre o Roraima impressionaram tanto Arthur Conan Doyle que nelas se baseou para escrever seu clássico ?O Mundo Perdido?.
A parte mais perigosa da escalada é a passagem através da cachoeira merecidamente chamada de ?Cachoeira das Lágrimas?. É preciso passar debaixo de uma queda d?água de centenas de metros de altura, onde se fica literalmente dentro d?água, praticamente afogado no chão, ao lado de um abismo e pisando sobre um despenhadeiro de pedras soltas e escorregadias. Eu vi o que aconteceu com um inglês que estava pouco atrás de mim. Tínhamos nos adiantado em relação ao guia, que ficou dando assistência aos retardatários. De repente, o volume d?água da cachoeira aumentou tremendamente, justamente quando o inglês ia passar. Eu não podia ouvir o que ele dizia por causa do estrondo da cachoeira, mas pude ver ele chorando, gritando e se debatendo, enquanto tentava inutilmente se agarrar às pedras que deslizavam abismo abaixo, sem que eu pudesse fazer nada. Uma cena medonha, ainda que não tivesse achado esse inglês a pessoa mais simpática do mundo. Então ele conseguiu com um esforço sobre-humano se arrastar pelas pedras e finalmente chegar a um lugar seco, em estado de choque. Felizmente ele foi se recompondo aos poucos, mas teve de ser praticamente rebocado pelo nosso guia até o cume. Essa parte da cachoeira ao cume é a mais íngreme de todas, uma escalada quase vertical agarrando-se a sulcos nas rochas, com os montanhistas já bastante debilitados pelo cansaço, pela chuva e umidade constantes, e pelo desânimo.
Quando finalmente chegamos ao topo, estávamos um tanto abatidos, o inglês particularmente traumatizado e desorientado. O cenário parecia o próprio Inferno. Uma névoa espessa cobria tudo; além da chuva gelada, agora tínhamos de enfrentar um vento ainda mais gelado, pois estávamos completamente a descoberto. Tentávamos nos reanimar com goles de rum, enquanto esperávamos minutos intermináveis pelos retardatários do nosso grupo. Quando chegaram, partimos em direção a um dos hotéis, como são chamados sarcasticamente os buracos nas rochas onde é possível um pouco de proteção contra o vento e a chuva gelados. Tudo o que queríamos era nos secar e dormir um pouco ? nosso corpo todo doía, e a umidade congelante penetrava em nossas roupas e até nos nossos ossos. O nosso hotel era um buraco gelado onde habitavam algumas aves, sem medo de humanos. Mas foi uma bênção comer algo quente e poder dormir naquele chão duro e frio.
Esse primeiro contato com o cume do Roraima foi um choque. Realmente, não há nada comparável, nem nos mais delirantes filmes de ficção científica.
Era uma espécie de paisagem lunar em negativo ? o chão preto, rochoso e quase sem vegetação, e o céu branco, por causa da névoa. Um cenário de ópera de Wagner, de filme expressionista, de Hades, de viagem lisérgica, e muito mais. Na verdade, todas essas comparações são incompletas, o Roraima supera de longe qualquer paisagem fantástica já imaginada pelos artistas. As rochas são dos mais estranhos formatos, lembrando esculturas fantásticas de homens, animais e objetos. Uma delas tem uma extraordinária semelhança com um homem de chapéu sentado. Ficava em frente ao nosso hotel, e fiquei desconcertada ao ver aquele homem imóvel, como se estivesse a nos espreitar. A última coisa que se espera encontrar no topo do Roraima é uma pessoa sozinha, e eu pensei que estivesse delirando. Será que se tratava de algum desgarrado de outra expedição? Será que se tratava de algum corpo congelado? Fui em sua direção para entender o que estava acontecendo, e só quando cheguei bem perto percebi que se tratava de uma pedra ? ou seria um gigante petrificado?
Fora os ocasionais visitantes humanos, os únicos mamíferos encontrados no cume são alguns pequenos roedores e uns poucos infelizes quatis, raramente avistados.
No dia seguinte, começamos a explorar de fato a meseta do monte. Não é possível descrever nem metade do que eu vi e senti naquelas alturas. O explorador do Roraima é bombardeado por uma overdose de sensações visuais, olfativas e térmicas, em tal quantidade que é impossível de processar de imediato. Por outro lado o silêncio é sepulcral. Na verdade, estávamos mais preocupados com a volta e em termos de enfrentar novamente a Cachoeira das Lágrimas do que em apreciar a paisagem. Somente quando voltei para casa que aquelas sensações começaram a aflorar em minha mente, como um filme em câmera lenta, e comecei a entender melhor que lugar extraordinário era aquele. Quando aquelas lembranças vêm à tona, uma emoção profunda as acompanha, sensações de paz, de prazer, de realização tomam conta do espírito. Sem dúvida alguma foi o ponto alto, e não apenas literal, de minha existência, tudo o que vier depois será um apêndice. Mas vale a pena viver somente para trazer aquelas lembranças de volta - o que poderei experimentar de comparável? Uma viagem aos anéis de Saturno talvez?
Plantas carnívoras, plantas de formatos e cores únicas, sapos venenosos pré-históricos que não conseguem saltar nem nadar, pássaros que não têm medo de seres humanos, mas curiosidade (tão raros são os humanos por lá), lagos de água cristalina, altas cachoeiras, rochas de formatos bizarros e fantásticos, rochas contorcidas como os moldes dos corpos de Pompéia. Vales cobertos de cristais de quartzo relampejando ao sol e à lua. Uma névoa que surge e desaparece misteriosamente, capaz de fazer com que o mais experiente dos guias se perca. Labirintos escavados na rocha, onde se poderiam aprisionar mil minotauros, e dos quais nem Teseu poderia escapar. Fendas que ocultam abismos medonhos. Tudo isso no mais completo silêncio, como num filme mudo.
Uma excursão ao Roraima e à Grande Savana são capazes de fazer com que até os suicidas mais desesperados retomem o gosto pela vida.
Um abismo sem fundo.
A história que vou contar é verídica, mas bem podia ser uma parábola. O guia nos levou para conhecer o lado brasileiro, e depois de uma caminhada infinita, chegamos à borda do platô. Eu me deitei para avistar o Brasil lá de cima, mas não dava para avistar o fundo, um quilômetro abaixo. Estava coberto pela névoa. O Brasil era um abismo sem fundo.
Depois do Hades, o Jardim do Éden
Chegou a hora de deixarmos aquele mundo em preto e branco que é o cume do Roraima. Nossa descida foi tranqüila, especialmente porque a Cachoeira das Lágrimas estava com um volume de água muito menor, devido à falta de chuvas naquela manhã, e pudemos atravessá-la sem sustos e quase sem nos molharmos. No mesmo dia forçamos o passo e atravessamos o Kukenan e Tok, para não sermos surpreendidos por uma eventual cheia desses rios traiçoeiros.
A etapa final de nossa excursão, o retorno até Paraitepui, foi uma deliciosa caminhada pela Grande Savana, um lugar não menos especial do que o próprio monte Roraima ? que outro lugar do mundo tem uma cachoeira cuja parede e um rio cujo leito são totalmente feitos de jaspe? Um lugar de eterna primavera, um berço primitivo de relva macia para embalar nossos melhores sonhos em meio ao aroma de mil perfumes de mil espécies de flores diferentes. Para mim, a Grande Savana é e sempre será a representação do Jardim do Éden
Chegamos a Paraitepui e de lá voltamos de jipe para Santa Elena. Mas antes de prosseguir na minha narrativa, não posso deixar de mencionar que nesse monte Roraima-Hades, encontrei a versão moderna e real do mito de Sísifo: são os carregadores pemon dos mantimentos e bagagens dos excursionistas, condenados ao trabalho incrivelmente esgotador de subir e descer a montanha pelo menos uma vez por semana, em troca de uma ninharia. São facilmente identificáveis entre os pemon aqueles que trabalham com os excursionistas do Roraima: sejam eles baixinhos e atarracados, sejam altos e esguios, todos têm uma bolota de músculos na barriga da perna.
Santa Elena é uma animada cidadezinha turística dotada de toda a infra-estrutura para os viajantes, turistas do tipo aventureiro que vêm de diversas partes do mundo para explorar a Grande Savana e o Roraima. Eu já havia simpatizado com ela desde minha primeira visita, e a considero um bom local de veraneio. A maioria dos visitantes no entanto a considera totalmente sem atrativos, apenas uma base para suas excursões.
De lá segui até Pacaraima, a menos de dez quilômetros, onde peguei o táxi lotação para Boa Vista.
De volta a Boa Vista
Em meu retorno a Boa Vista, vi a cidade com novos olhos: não os olhos de emoção da descoberta, mas os olhos críticos da comparação, embora algumas sensações tivessem a mesma emoção da primeira vez: os sorvetes de frutas amazônicas, o azul profundo, azul cobalto, do céu de Boa Vista, que não vi em nenhum outro lugar do mundo, e que era tão intenso que parecia ser possível pegá-lo com a mão; o calor humano e a falta de malícia do povo, tão cordial com forasteiros quanto os brasileiros do sul e os europeus do norte são para com seus melhores amigos. Nesse meu retorno, tive a impressão de que a cidade ia melhorando e saindo de sua letargia pouco a pouco. A aparência geral estava um pouco mais arrumada, com os canteiros bem cuidados. A maior surpresa foi que finalmente abriu uma livraria na cidade, e com cibercafé! (Santa Elena, cidade várias vezes menor, tem dois, um deles comparável aos de melhor nível do Rio e de São Paulo).
Também foi aberta recentemente a primeira lanchonete de fast-food de Boa Vista, de uma cadeia nacional ? e apesar de minha ojeriza por essas redes de comida rápida, considerei a novidade como um dúbio sinal de progresso numa cidade com pouquíssimos restaurantes, e onde até poucos anos atrás a única opção de se comer fora de casa era em botecos do tipo ?risca-faca?, onde o risco de intoxicação intestinal é grande.
Tendo chegado num domingo pela manhã, entrei em desespero por ter de enfrentar o domingo à tarde em Boa Vista, que é uma das experiências mais deprimentes que se pode imaginar. A cidade fica deserta de carros e de pessoas, como se tivesse caído uma bomba de nêutrons. Todo o povo segue para as inúmeras praias fluviais das redondezas, e os ricos vão para seus sítios e fazendas. Apesar de minha repulsa aos shopping centers, igual ou superior à que sinto pelas redes de fast food, não tinha outra alternativa - fui conhecer aquilo que os boavistenses chamam pomposamente de ?shopping center?, na verdade um barracão com meia dúzia de lojinhas, que decepção.
A temperatura naquela tarde era de apenas 30 graus e não os habituais 35, 36 graus, o que significava que minha roupa não ficaria ensopada de suor após cinco minutos de caminhada ao ar livre. Resolvi por isso visitar o Parque Anauá , e dessa vez não me decepcionei. É um agradável parque urbano com projeto paisagístico contemporâneo, e com árvores jovens, ainda de médio porte, já que foi implantando recentemente, nos anos 80. Lá, a natureza me reservou uma esplêndida despedida de minha viagem. Não sou nenhuma entusiasta de pores-do-sol, mas aquele crepúsculo foi demais. O horizonte se tingiu de todos os tons possíveis e imagináveis de azul e de laranja, em meio a enormes e preguiçosas nuvens de algodão. Para completar, uma revoada de milhares de andorinhas sobre o parque.
Tirei algumas fotos que infelizmente dão uma pálida idéia do original. Do parque, segui para a Ayrton Senna, uma espécie de Rambla tropical ? um calçadão no meio de uma larga avenida, usado pelos roraimenses para a prática de esportes e para o footing. Conheço a Rambla original em Barcelona, e sem nenhum ufanismo achei a de Boa Vista com mais animação e colorido. Anoitecia, o povo de Boa Vista começava a retornar e a Ayrton Senna se enchia de jovens e jovens famílias. Fiquei sentada praticando um de meus passatempos preferidos ? observar a paisagem humana à minha volta. Em frente a mim desfilava uma multidão de caboclos de Roraima e do Amazonas, manauenses, muitos nordestinos ? especialmente maranhenses e piauienses, que creio que constituam a maioria da população de Roraima, mas também muitos cearenses. Surpresa ? bastante gente loira de olhos azuis. Eram os colonos do Sul mandados para a Amazônia na época da ditadura militar ? não os próprios, mas talvez já a segunda ou terceira gerações.
Fiz diversas vezes o percurso do calçadão, que é largo e bem iluminado. É cheio de barracas de artesanato, de comidas típicas do Norte e Nordeste, como tacacá, paçoca, tapioca e uma infinidade de outras, de hippies vendendo suas bugigangas, de artistas de rua. Um programa bem melhor do que qualquer ida a shopping center, e oxalá o povo de Boa Vista seja poupado deles! Que o footing pela Ayrton Senna continue a ser o principal e saudável programa dos boavistenses nas noites de domingo. Lá passei minhas últimas horas em Boa Vista. E assim terminou a minha viagem.
Não é coincidência que o Eldorado procurado por Berrio, Raleigh e tantos outros esteja justamente onde se situa o atual estado de Roraima. Tenho convicção de que um dia, Roraima será o estado mais rico e desenvolvido do Brasil. Não estou sonhando ? estou apenas me baseando em seus recursos minerais quase infinitos, sua riquíssima fauna e flora, sua abundância de sol e de água, a beleza inigualável de seu povo e de sua terra, sua posição geográfica privilegiada, seu clima maravilhoso. No futuro Boa Vista será uma metrópole de um milhão de habitantes, e Pacaraima um centro turístico de renome mundial. Mas para isso, seus habitantes terão de se libertar dos gafanhotos e depufedes, e escolher governantes honestos, que façam um planejamento cuidadoso e eficiente das metas do governo, que respeitem o meio ambiente e encarem a diversidade do povo e da cultura como uma vantagem, e não um obstáculo. Infelizmente, isso é uma impossibilidade a curto prazo.
É hora de as luzes se apagarem, de a cortina descer sobre o cenário majestoso do monte Roraima, e de vocês, gentis leitores que acompanharam essa minha banal jornada, também subirem ao palco da Grande Savana, e descobrirem também os seus Eldorados e as suas Montanhas de Cristal, que podem ser alcançados ajudando os verdadeiros donos daquelas terras a recuperarem o que lhes é de direito, e derrotando as podres elites que querem esbulhá-los. E quando a vitória vier, todos nós nos abraçaremos, e gritaremos ?Viva o Brasil? e ?Viva a Justiça?. Pois o objetivo desse texto é fazer dos espectadores também os protagonistas ? essa é uma história cujo final ainda não foi escrito, e são justamente vocês e só vocês que poderão escrevê-lo.
Sim, é preciso que os brasileiros conheçam Roraima para que se inundem de beleza, de sensações inesquecíveis, e de saber sobre seu país, e sobre a espécie humana.

