Abertura

Mais de 500 pessoas de 235 empresas recuperadas por trabalhadores e 20 centrais sindicais, participaram do Primeiro Encontro Latino-Americano de Empresas Recuperadas pelos Trabalhadores, em Caracas, de 27 a 29 de Outubro. Entre as delegações, 28 trabalhadores das Fábricas Ocupadas do Brasil.

Esta foi a primeira vez que trabalhadores de fábricas ocupadas de diferentes países se reuniram para discutir os problemas que enfrentam, compartilhar experiências e tirar conclusões políticas de sua luta. Uma reunião como esta só podia acontecer na Venezuela revolucionária, onde contou com o apoio do governo Bolivariano de Chávez.

No ato de abertura, no Teatro Teresa Carreño, com 1000 pessoas, o presidente Chávez explicou como o capitalismo fecha empresas e como estas “devem ser recuperadas pelos trabalhadores”.
As ocupações de empresas que estão acontecendo no continente são partes da luta pela autêntica soberania e o fim da dominação dos EUA, afirmou Chávez. Ao mesmo tempo, deixou claro que “o povo e os operários dos EUA também têm um papel a jogar nesta batalha”.

Mais duas estatizações
na Venezuela

Chávez propôs a criação de uma rede de empresas recuperadas pelos trabalhadores, para que possam colaborar e trocar experiências. Ele anunciou a expropriação de mais duas empresas, Sideroca e o Centro Açucareiro Cumanacoa e que outras futuras vão ocorrer. Isto foi aclamado pelos 3000 presentes que gritavam: “assim, assim, assim é que se governa”.

O presidente acrescentou que a idéia não era expropriar as empresas para os trabalhadores “ficarem ricos da noite para o dia”. Mas sim para a produção beneficiar as comunidades em seu conjunto.

Como disse Serge Goulart: “este é um presidente que se põe ao lado dos trabalhadores, não só em palavras e em discursos, e sim com feitos concretos como estas duas expropriações”.

Debates sobre a
ocupação de empresas

Depois da abertura, o evento se dividiu em diferentes reuniões. Uma de dirigentes e organizações sindicais, outra de operários das empresas ocupadas e uma de parlamentares e representantes de governos.

Os companheiros do grupo Cipla-Interfibra-Flaskô-Profiplast-Flakepet, colocaram a questão da estatização sob controle dos trabalhadores. Serge Goulart, coordenador do Conselho Unificado das Fábricas, insistia: “Estamos contra a idéia de uma cooperativa”. Na realidade isso significaria converter os trabalhadores em capitalistas, debilitar a classe operária. E, ao competir num mercado capitalista, só poderão triunfar prejudicando outras empresas. Estamos a favor da estatização, mas estatização sob controle dos trabalhadores para impedir o surgimento de uma nova burocracia.”Acrescentou que esta luta só podia ser vista como parte da luta geral pela “nacionalização dos bancos e das multinacionais para planificar a economia em benefício do povo”. “Se não pode haver socialismo em um só país, muito menos pode haver socialismo em uma só fábrica!” disse.

Orlando Chirino, coordenador nacional da UNT, explicou o contexto em destas ocupações de empresas: “É um sintoma da degeneração do capitalismo, que leva a um processo de desregulamentação, flexibilização e a um aumento da exploração dos trabalhadores”. O processo de ocupação de empresas não está isento de contradições ou dificuldades. Para Orlando, a tarefa dos sindicatos é dar a este movimento espontâneo de ocupação de empresas para defender o emprego “uma expressão consciente, com o objetivo final da socialização dos meios de produção”.

Acordos de cooperação

Em reuniões, os representantes de diferentes empresas recuperadas chegaram a acordos de cooperação mútua, transferência de tecnologia, etc. Entre os acordos firmados está um entre a Venezuela e o grupo de empresas sob controle dos trabalhadores Cipla-Interfibra-Flasko-Profiplast-Flakepet do Brasil. De um lado, a petroquímica estatal Pequiven venderá matéria-prima à Cipla a preços especiais, e por outro lado a PDVSA comprará produtos das empresas brasileiras ocupadas.

A importância deste acordo está no apoio direto que o governo venezuelano está dando às empresas ocupadas e sob controle operário, ameaçadas em várias ocasiões com a prisão de seus dirigentes por parte da justiça do Brasil. Isto servirá de exemplo para trabalhadores na Venezuela e em toda América Latina, na hora de ocupar empresas.

Internacionalismo
e anti-imperialismo

O Encontro teve caráter internacionalista. A presença da delegação da COB (Bolívia) trouxe um sopro das tradições revolucionárias dos mineiros e operários bolivianos. Jaime Solares, secretário executivo da COB, sublinhou: “o socialismo não está morto, segue vivo”.

Se discutiu a situação do Haiti. Júlio Turra, da CUT disse que “as tropas brasileiras no Haiti estão a serviço do imperialismo”. A declaração final das centrais sindicais presentes pede “à retirada das tropas de ocupação do Haiti, Iraque e Afeganistão”.
Também se expressou uma oposição firme ao ALCA. Como disse Ricardo Moreira, do PIT-CNT do Uruguai, “a única integração real não é a integração comercial, e sim a integração da classe operária... que é a classe mais revolucionária”. Os sindicalistas argentinos anunciaram uma greve nacional, em 4 de novembro, contra a presença de Bush na Cúpula das Américas em Mar del Plata.

Encerramento e conclusões

No encerramento, após três dias de discussões, participaram 500 trabalhadores, representantes sindicais e uma série de funcionários do governo venezuelano.
Entusiasmados, os presentes gritavam a palavra-de-ordem do movimento de empresas ocupadas da Argentina: “aqui estão, estes são, os operários sem patrão”. Duzentos argentinos estiveram no Encontro.

Foram lidas e aprovadas as conclusões das diferentes reuniões e depois o documento chamado “Compromisso de Caracas”, foi aprovado por aclamação. Os trabalhadores das empresas recuperadas também tinham sua própria declaração que explica a importância do Encontro: “nos encontramos para impulsionar nosso movimento, para defendê-lo, para nos ajudar uns aos outros, e fortalecer a nossa luta contra o inimigo comum dos povos, o capitalismo que leva à guerra e organiza a miséria em todo o planeta”. E defende o direito à ocupação de empresas: “a quebra das empresas é responsabilidade dos capitalistas, dos governos, dos especuladores financeiros e das multinacionais. Cada fábrica fechada é um cemitério de postos de trabalho, assim como é o latifúndio no campo. Por isso, os trabalhadores do campo e da cidade têm o direito de ocupar as fábricas e as terras para defender seu trabalho e a soberania dos nossos países”.

A resolução também explica o caráter e objetivos finais do movimento: “desejamos avançar até o controle total da economia por parte dos trabalhadores para colocá-la a serviço de todo o povo.”
A declaração adverte sobre os perigos que enfrenta o movimento: “nossa resistência não passou despercebida aos patrões, ao grande capital e seus organismos internacionais, que nos perseguem e reprimem.” Foi decidido criar uma rede internacional de empresas ocupadas e dirigidas pelos trabalhadores: “A partir de hoje nos levantaremos como um só corpo se em qualquer país os governos nos reprimirem ou ameaçarem com fechamento das empresas que controlamos”.

A declaração conclui com um chamamento inspirador: “Eles fecham, nós abrimos as fábricas, eles roubam as terras e nós as ocupamos. Eles fazem as guerras e destroem as nações, nós defendemos a paz e a integração soberana dos povos. Eles dividem, nós unimos. Porque somos a classe trabalhadora, porque somos o presente e o futuro da humanidade. Convocamos todos a continuar esta luta, ampliá-la e a nos reunir outra vez no próximo ano para aprofundar a unidade e a luta que levamos junto com toda a classe operária e os povos contra o inimigo comum da humanidade. Venceremos!”

Sem dúvida, o Encontro servirá para impulsionar a luta operária na América Latina e no mundo. Na abertura do evento, Júlio Turra, da CUT, explicou que “quando o governo Chávez declara guerra ao latifúndio, é um alento aos companheiros do MST. Quando expropria os patrões golpistas é um alento à luta dos companheiros do Brasil que há 3 anos exigem do governo Lula a estatização das empresas ocupadas”.

...................................

DELEGAÇÃO BRASIELIRA

- Adilson Mariano, Vereador PT
-Aldenir Soares Ponte, Flaskô
- Antonio Helio Pereira,
Comunicação Fábricas
- Belini Meurer, Suplente de Senador PT
- Carlos Alberto da Silva,
Tecnologia Cipla
- Carlos Alberto Rodrigues,
- Movimentos Populares
- Carlos José Domingos,
Tecnologia Flaskô
- Charles Pires, CUT SC
- Cláudio Mellato, Tecnologia Interfibra
- Carlos Castro, Conselho Cipla
- Débora Nunes, MST-Alagoas
- Domingos Da Rosa, Conselho Interfibra
- Evandro Luiz Pinto, Conselho Interfibra
- Felipe Carvalho, Intelectual Médico
- Francisco Lessa, Advogado Trabalhista
- Gilson De Jesus Gonçalves,
Conselho Profiplast
- Janaína Quitério, Jornalista - Unicamp
- Joaci Da Silva, Conselho Cipla
- Jorge Martins, Conselho Cipla
- José Onírio Martins, Comercial Cipla
- Júlio Turra Filho, Exec. Nac. da CUT
- Luiz Hamilton Moura Ferro,
Advogado Trabalhista
- Osvaldo De França, MSL-Plásticos
- Pedro Alem Santinho, Conselho Flaskô
- Rogério Ramos, Conselho Cipla
- Serge Goulart, Conselho Cipla
- Severino Amaro do Nascimento,
CUT Pernambuco
- Vivian Kreutzfeld Bertoldi, Sulfabril
Sind. Texteis



Outras informações e fotos



 http://www.mintra.gov.ve/encuentro_
latinoamericano/index.html