SS de Guantánamo assume Abu Graib e defende tortura
O general disse que práticas como o uso de capuz, impedir que prisioneiros durmam e obrigá-los a ficar em “posições estressantes” são meios legítimos
Ogeneral Geoffrey Miller, que chefia va o campo de con centração dos EUA em Guantánamo – até então o mais notório exemplo de violação de direitos de presos e tortura no mundo –, foi conduzido às pressas por Bush para o Iraque, para substituir a general Janis Karpinski, em função do escândalo das fotos que mostraram as sevícias e torturas cometidas contra os presos iraquianos na prisão de Abu Graib.
Em entrevista em Bagdá - supostamente para indicar medidas contra o que ocorreu - o general defendeu “as 50 técnicas coercitivas” usadas pelos EUA para “interrogatório”, isto é, a tortura. Como registrou o jornalista Dexter Filkins, do “New York Times”, “o general disse que práticas como o uso de capuz, impedir que prisioneiros durmam e obrigá-los a ficar em “posições estressantes” são meios legítimos para uso em interrogatórios e estão entre as 50 técnicas coercitivas algumas vezes usadas por soldados americanos contra inimigos detidos”. Filkins acrescentou que Miller disse que “há técnicas de interrogatório que aumentam a ansiedade”, ressaltando que “seu uso precisa ser autorizado”. Evidentemente, as “técnicas coercitivas” não se limitam a essas que já admitem. Nem são para “aumentar a ansiedade”: são, como estabelecem os manuais de tortura da CIA, para deses-truturar o indivíduo, estripá-lo e arrancar informações.
“TORTURA É OUTRA COISA”
Por sua vez, o chefe do Pentágono, Donald Rumsfeld, afirmou sobre os crimes documentados em Abu Graib que “tortura, tecnicamente, é outra coisa”. Veja-se bem que as fotos documentavam inclusive dois mortos na tortura e, como afirmou o relatório do general Antonio Taguba, entre os atos cometidos contra os presos havia espancamento, forçamento de prisioneiros a simular atos sexuais entre si ou a se masturbarem, ameaça de eletrocução, ameaça de estupro e a sodomização de um preso com um cabo de vassoura. O que “tecnicamente” precisaria ser feito a mais para “haver tortura”?
Não se tratava, também, de um “ato isolado” de meia dúzia de soldados maníacos, sob a “direção frouxa” de “alguns oficiais”, como o Pentágono tenta encobrir. De Abu Graib as denúncias já se estenderam a mais cinco prisões no Iraque. Nem se trata só do Iraque. O Pentágono admitiu “25 mortos” em interrogatório no Afeganistão e Iraque. Certamente o número de mortos nos “interrogatórios” é muito maior do que eles admitem. Bem antes, já tinha vindo a público o assassinato no interrogatório de um ex-chefe da força aérea do Iraque.
Também não é um “malfeito novo”: há décadas os EUA são responsáveis pela difusão da tortura no mundo, para o que montaram inclusive uma “escola”, a “Escola das Américas”. Como Dan Mitrione, o agente da CIA que foi ao Uruguai ensinar tortura – e que foi executado por patriotas. Documentos da CIA apresentam a tortura como uma “ciência” – sim, leitor, um manual da CIA escrito para o massacre no Chile tem um capítulo intitulado “A tortura como ciência”. Estripa-dores da CIA a usaram contra todas as revoluções populares, como fizeram na Guatemala, no Chile, no Congo, no Irã, na Indonésia, na Argentina, na América Central. Se já faziam isso antes, imagine-se agora, em nome do “combate ao terrorismo”, onde afirmam que vale tudo.
TOQUE PESSOAL
A bem da verdade, o general Miller já havia dado seu toque pessoal à tortura no Iraque. Foi uma comissão vinda de Guantánamo, supervisionada pelo próprio general Miller, que esteve no final de agosto e início de setembro de 2003 no Iraque para, como notou o “Washington Post”, “aconselhar” as operações nas prisões dos EUA lá. Tratava-se de “atualizar” os algozes no Iraque com as “técnicas mais duras” de “interrogatório” desenvolvidas para o “combate ao terrorismo” e de que o campo de concentração de Guantánamo era depositário. A CIA e o Pentágono consideravam que o trabalho de colher informações sobre a Resistência, que se espalhava, estava muito débil.
Entre as recomendações da Comissão Miller, apontou o relatório Taguba, estava a de que os guardas militares deveriam atuar como “ativadores”, isto é, fazer a “preparação” do preso para o “interrogatório”. Como relatou um dos criminosos de guerra, “O pessoal da inteligência vinha e dizia: amaciem o cara para nós, garantam que ele tenha uma péssima noite”. Se a “preparação” era assim, imagine-se o que seriam os “interrogatórios”. Os oficiais afastados de Abu Graib, e que estão se considerando muito injustiçados, dizem que a partir daí – da vinda dessa comissão - o “novo tratamento” imperou. Dizem que não sabiam de nada- aliás, nem queriam. A CIA, a inteligência militar e os mercenários controlavam na prática a prisão. Aliás, porque teriam tirado da reserva uma general da inteligência militar e das forças especiais, se não fosse exatamente para isso? Por sinal, a general, uma megera estúpida que no ano passado declarou que “aqui os presos são mais bem tratados do que em casa, a ponto de que a nossa preocupação é que eles não querem sair”, agora declarou ao Washington Post que o objetivo do Pentágono é “acusar oficiais da reserva para encobrir a inteligência” – ou seja, a CIA – “e aí as coisas ficarem assim”. Mas, diz ela, “as coisas não vão ficar assim”. E, realmente, não vão. Ao final e ao cabo, com a amplitude que a Resistência alcançou no Iraque, toda essa podridão teria de vir à tona. Veio. E acelerou o que era inevitável: a derrocada retumbante dos invasores, inclusive dentro de seu próprio país, os EUA.
ANTONIO PIMENTA
