“O papel social da escola”

Constantemente ouvimos cientistas sociais, jornalistas, professores, profissionais liberais, parentes e amigos próximos, pessoas públicas, artistas, políticos, etc, dizerem que a escola é a base do desenvolvimento de um país. Ressalvadas as devidas soluções mirabolantes que cada um propõe sobre o tema, essa é uma daquelas raras unanimidades que não se constituem, na referência ao dramaturgo Nelson Rodrigues, como necessariamente “burra”.

Pelo contrário. Uma sociedade que valoriza a escola, seja ela básica, fundamental, profissionalizante, ou de graduação, englobando-a no amplo conceito de “educação”, e que traduz essa priorização em clamor social por políticas públicas eficientes nesta área, estará fadada ao sucesso, em um futuro não muito distante.

A educação, enquanto área de atuação do Poder Público, engloba desde incentivos culturais, até a construção de bibliotecas e áreas de manifestação artística públicas, perpassando, necessária e prioritariamente, pela escola.

Acontece que, num país onde as políticas públicas se perdem num mar de corrupção e ingerência, às vezes é necessário juntá-las em empreendimentos e iniciativas conjuntas e unificadas. Esse era o entendimento do pedagogo e cientista social Darci Ribeiro, ao imaginar enormes centros de produção docente e discente, que uniriam lazer, esportes, cultura e formação escolar.

De outro modo não pode ser pensada a escola, senão como um grande centro onde se encontram, fora das salas de aula, alunos, pais e professores, para, de forma prazerosa e proativa, cuidar pela excelência da relação professor-aluno que ocorre dentro das salas de aula.

Hoje no Brasil, já se vêm iniciativas nesse sentido. Primeiro, o programa Amigos da Escola, lançado pelo então ministro da Educação, Paulo Renato de Souza, durante o Governo Fernando Henrique Cardoso. Esse programa consistia em estimular os pais dos alunos a construírem conjuntamente com o Estado o ambiente escolar em que seus filhos estudariam. Além de ser uma forma de dar uma contrapartida ao Estado pela educação gratuita de seus filhos, era também, subjetivamente, uma forma de dar mais dignidade a esses pais, fazendo-os sentirem-se parte de algo importante. E simultaneamente, estimulava ainda mais os alunos a retribuírem com empenho e boas notas o esforço de seus pais.

Além dessa iniciativa, verifica-se também em algumas cidades do interior do país, a promoção de cursos de supletivo e alfabetização para pais de alunos, durante o período da noite, após saírem do turno de trabalho. Demonstrou-se após essa medida a obtenção de melhores resultados dos alunos do período diurno (os filhos desses trabalhadores), uma vez que, vendo o esforço de seus pais e a valorização por eles atribuída à educação, se sentiam estimulados a seguir pelo mesmo caminho. Ao invés de ter os professores como modelo a seguir, os alunos tinham os próprios pais.

Esse conceito no caso concreto, em muito se assemelha ao que pregava, em abstrato, o pedagogo pernambucano Paulo Freire, ao cobrar a indissociação do ensino da realidade social do alunado.

Mas indo além desses exemplos citados, cabe lembrar uma cena da novela “Mulheres Apaixonadas”, exibida pela Rede Globo pelos ides de 2003, e escrita pelo autor Manoel Carlos. Em um determinado diálogo com a personagem da atriz Suzana Vieira, uma outra personagem lhe indagava: “porque a sua escola parece um clube?”, no que a personagem principal, dona de uma escola respondia: “porque se fora das salas de aula os alunos não tiverem prazer em estarem no ambiente escolar, todo o esforço feito dentro da sala de aula será em vão”.

Essa é a idéia que devemos adotar quando falamos de políticas públicas para a educação. Trazer para o ambiente escolar o lazer, o convívio familiar, os esportes, as artes, a cultura, a conscientização sobre meio ambiente e cidadania, e até mesmo, em alguns centros urbanos menos desenvolvidos, o acesso à justiça e a serviços públicos essenciais, é uma forma de fazer a criança se inserir dentro de um contexto que coloque a educação como única via de acesso ao desenvolvimento humano e social, do indivíduo e da comunidade.

Hoje, no Brasil, temos um ensino fundamental e médio que se atém fortemente a disciplinas e temas baseados no “decoreba”, na mera assimilação de conhecimento, sem a correlação com a utilidade prática desse conhecimento. E no ensino superior, vemos uma politização exacerbada, quando deveríamos estar formando profissionais. Com a redefinição do papel da escola na nossa sociedade, e a transformação dessa escola em um ambiente de interação e expressão social, teríamos uma inversão desses papéis, com a correção do vício que nos acomete atualmente. O ensino básico será um período de desenvolvimento do cidadão, da transformação da criança e do adolescente num adulto consciente. E desse ensino básico, se fará um filtro, para que no ensino superior estejam somente aqueles naturalmente aptos para a pesquisa e para a formação profissional especializada.

Mas como financiar todas essas idéias? Essa é uma questão que, apesar de bastante complexa quanto aos meios, pode ser facilmente resumida quanto ao conceito geral: dar aos municípios a autonomia financeira necessária para que, uma vez mobilizada a sociedade civil para a cobrança de mais gastos com educação, a Prefeitura da cidade disponha dos recursos necessários.

Como dizem por aí, a escola é a base do desenvolvimento de um país. O que estamos esperando então para nos tornarmos desenvolvidos?

Victor Castro Fernandes de Sousa, 31 de março de 2006, Salvador-BA.