Detalhe - Uma reclamação ao Ministério Público do Trabalho foi feita pelos advogados que acompanharam a ação, pois dois adolescentes de 16 anos trabalhavam para a transportadora contratada pela Prefeitura para o despejo.

Descompasso com a realidade

Todas as 32 famílias que estavam no prédio eram inquilinas, sendo que algumas estavam na mesma casa há mais de 20 anos. Mesmo assim, os grandes jornais de circulação nacional fizeram de suas "matérias jornalísticas" extensão do /press release/ da Prefeitura de São Paulo, alegando que os que ali estavam invadiram o prédio em dezembro. "Em parte, os responsáveis pelo despejo atribuíram o tratamento indigno que deram ao fato de os moradores serem invasores. Ao desprover os moradores de qualquer garantia de posse e de quaisquer outros direitos, buscou-se legitimar a maneira reprovável com que os moradores foram tratados pelo Poder Público e por seus agentes", avalia Sabrina.

Continua a advogada, "o que se repete é a forma com que essas informações são transmitidas pelos jornais e pela televisão, em total descompasso com a realidade".

Zeis até quando?

A retirada das famílias foi um passo importante para o objetivo da prefeitura, que é a demolição dos edifícios Mercúrio e São Vito. Em seus lugares, está prevista a construção de uma praça e um estacionamento subterrâneo.

Os movimentos agora lutam para que a determinação do Plano Diretor seja respeitada. A área ocupada pelo São Vito é uma Zeis (Zona Especial de Interesse Social) e deve ser destinada à habitação popular. Assim, se o São Vito for derrubado o local apenas poderá ser utilizado para outra construção que sirva como moradia popular.

A prefeitura investe em todos os lados para derrubar os prédios. Na Câmara Municipal de São Paulo, a base política de Kassab, que é a maioria, tenta reformular o Plano Diretor, o que significa que as regiões da cidade que são garantidas à moradia popular podem perder seu caráter de Zeis. E isso pode ocorrer, durante os próximos meses, com a área em que está o São Vito.

Histórico:

O São Vito está desocupado desde 2004 (624 apartamentos), quando a prefeitura tirou os moradores para reforma, garantindo a volta das pessoas após as obras. Mas as obras não aconteceram e os moradores não puderam voltar para suas casas. O Mercúrio possui 144 apartamentos, sendo que 32 famílias resistiram até a data do despejo.

A prefeitura conseguiu na Justiça a imissão na posse de todos os apartamentos do Mercúrio, o que deu a ela o direito de retirar todos os moradores. O prazo inicial para a saída das pessoas foi 15 de dezembro, mas naquele momento faltavam a imissão na posse de quatro apartamentos. Depois, por pressão de movimentos e dos moradores, o prazo passou para 10 de janeiro. As negociações continuaram até 10 de fevereiro, quando a prefeitura decidiu pelo despejo.

Histórico da Luta Jurídica:

Organizações e movimentos sociais comprometidos com o Direito à moradia estão lutando juridicamente para garantir os direitos dos moradores e proprietários do Edifício Mercúrio. De acordo com Benedito Barbosa, coordenador da Central dos Movimentos Populares (CMP), foram levantadas pelo menos três frentes de ação.

Uma ação civil pública foi proposta, explica o coordenador, pela Defensoria Pública, Fórum Centro Vivo, Centro Gaspar Garcia e União dos Movimentos de Moradia (UMM) para que as famílias tenham o atendimento habitacional efetivo por parte da prefeitura.

Há também uma representação no Ministério Público para que sejam apuradas as denúncias de uso irregular dos recursos de atendimento às famílias. "Houve tratamento desigual no processo de retirada destas famílias. Algumas pessoas receberam atendimento e dinheiro, enquanto que outras até agora não conseguiram nada. Além disso, há denúncias de que pessoas que não moravam no prédio receberam recursos", explica Barbosa. Uma terceira ação foi a abertura de um inquérito policial para investigação dos casos.

O coordenador informa ainda que a comissão de moradores do edifício protocolou ofício na Secretaria Municipal de Habitação para que todo o processo de desapropriação seja apurado e uma resolução será protocolada no Conselho Municipal de Habitação, com o objetivo de que todas as famílias sejam atendidas em habitação de interesse social.

Invasão policial:

A moradora do Mercúrio Claudiane Gomes denuncia que a vida das pessoas que moravam no edifício transformou-se em um inferno desde que a prefeitura decidiu esvaziar o prédio, em dezembro. "Mais de uma vez acordamos com policiais dentro do prédio, aterrorizando todo mundo. Eles faziam ameaças, batiam nas portas dos apartamentos para que a gente deixasse o prédio", relata. Desde dezembro, os porteiros do prédio são funcionários a serviço do Estado. "Estamos sem paz, mas vamos até o fim neste processo", afirma Claudiane.

Não bastasse a presença dos policiais, assistentes sociais também visitavam o prédio para pressionar os moradores. O Conselho Regional de Serviço Social de São Paulo (Cress-SP) divulgou carta pública de repúdio a ação dos profissionais.

A Carta ressalta que a busca de uma sociedade justa, de acordo com a Constituição, só é possível de ser alcançada com o respeito às trajetórias dos atores sociais. "Diante dos conflitos que vêm tomando vulto no centro da capital de São Paulo, em especial em relação aos moradores dos edifícios São Vito e Mercúrio, é fundamental o esforço para que as negociações sejam feitas com o máximo de diálogo, considerando a desigualdade de forças entre o poder público e os moradores. A nossa Constituição Federal afirma a busca de uma sociedade justa, que somente é alcançável com racionalidade e respeito às trajetórias dos atores sociais, cabendo ao poder público atuar de modo a equilibrar a diferença entre tais forças, na perspectiva do alcance dos direitos dos mais vulneráveis".

Em outro trecho, a carta lembra que São Paulo tem todas as condições de tratar os conflitos sociais com respeito aos Direitos Humanos. "Reiteramos nosso entendimento de que São Paulo tem um papel fundamental por ser a metrópole mais rica da América Latina, tendo todas as condições de tratar os conflitos sociais com habilidade e respeito aos Direitos Humanos. Basta observarmos a história para entendermos que as chamadas favelas foram criadas pela expulsão gradativa da população, ficando as áreas nobres restritas a quem detém o poder econômico. A revitalização do centro somente faz jus ao nome quando de fato a vida é respeitada. A vida é valor humano inviolável e sua proteção exige a efetivação dos direitos fundamentais previstos na nossa Carta Magna".

São Vito:

O mesmo tratamento foi dado pela prefeitura às pessoas que moravam no São Vito. A ex-moradora do prédio, Maria de Fátima Silva Santos, proprietária de um dos apartamentos do edifício disse que quando saiu do prédio recebeu da prefeitura uma "carta demanda", que garantiria sua volta ao prédio depois da reforma, que não aconteceu. "Tenho escritura e registro de imóveis mas de nada me adianta. A reforma não foi feita e não há negociação com a prefeitura. Chegaram me oferecer R$ 10 mil, acabei aceitando, mas nem este valor eles me pagam".

Maria de Fátima recebeu uma ajuda de R$ 300 por 30 meses. Depois a prefeitura acabou com o benefício e agora, por iniciativa do Ministério Pública, a prefeitura voltou com o pagamento. "Não faço nada com este dinheiro", afirma Maria de Fátima.

Outro drama que vive é que, por ter uma escritura em seu nome, não consegue se inscrever em nenhum programa de habitação popular. "Dizem que já sou proprietária, mas na verdade não tenho nada".

Autora: Renata Bessi