Sobre a tática Black Bloc nos movimentos populares do Rio de Janeiro

Sobre a tática Black Bloc nos movimentos populares do Rio de Janeiro

Março 28, 2017 - 21:26
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Por Gabriel Bragança

1. TÁTICA E ESTRATÉGIA

 

Os critérios pelos quais avaliamos a eficiência de uma tática são muitos. O mais imediato é a relação meio fim, ou seja, esta tática é o meio mais adequado para se atingir os objetivos traçados? Trata-se do melhor caminho que leva aonde eu quero chegar? Neste sentido é indispensável um plano onde vamos definir qual vai ser o caminho a se seguir. A partir daqui podemos definir metas e critérios de avaliação para que possamos reorientar nossos rumos em caso de insucessos. Quanto mais vago estiver em nossa mente esse objetivo que buscamos mais nebuloso será o planejamento de como chegar lá.

Neste sentido, além dos objetivos gerais, posto num programa que constitui uma carta de intenções, mas que expõe apenas a finalidade última do percurso, é preciso também conceber objetivos específicos que, quando alcançados, nos levem a novos objetivos específicos cada vez mais abrangentes, num encadeamento estratégico que oriente cada decisão particular. Para se chegar à um mesmo lugar, posso traçar diversas rotas, posso escolher seguir pelo litoral ou pelo interior, por exemplo, e é somente a partir desta decisão que escolherei o meio de transporte mais adequado, seja trem, ônibus ou avião. Vemos, então, como o programa deve vir antes da estratégia e a definição geral desta define cada momento da tática e que a estratégia constitui um planejamento que deve mover cadeias de causalidades, isto é, ações e reações, que nos levam a um passo adiante rumo ao objetivo.

Cada conquista implica em um novo objetivo. Não basta, entretanto, avançar, é preciso saber para onde se esta indo, mensurar os recursos para que o próximo passo seja possível. Neste xadrez é preciso antever as jogadas do adversário e pensar movimentos à frente. Se andamos alguns kms na direção errada ou se a gasolina acaba mesmo que estejamos no caminho correto de nada adiantaria o progresso. Se uma ação não nos leva a um estágio superior da luta ou, ao menos, não impede que recuemos, ela deve ser reavaliada em sua execução ou como meio que visa uma finalidade.

As jornadas de junho de 2013 alcançaram seu objetivo específico, a redução da passagem, mas como não havia horizonte estratégico bem desenhado, isto é, como não se tinha em mente qual seria o próximo passo, qual seria o novo objetivo especifico – a maioria das pessoas nem acreditava na vitória –, como as formas de intervenção não preparavam para um novo estágio organizativo, o recuo foi inevitável. A tática da revolta popular (denominada assim pelo blog Passa palavra) mostrou seus limites devido a transformação dos meios em finalidades e pela ausência de perspectivas. Daí a avaliação errada dos leninistas de que o que teria faltado seria direção revolucionária. O que faltou, de fato, foram organizações sociais capazes de se desenvolver através desta tática entendida como meio para o seu desenvolvimento.

 

2. TÁTICA BB, ERRO OU ACERTO?

Posto isso podemos colocar a tática BB no seu lugar. Assim, poderemos responder com toda certeza que ela vem falhado fragorosamente e a explicação já está dada. Falha porque não vem sendo executada como um elo de uma cadeia, nem inserida num plano estratégico que permita avaliar o caminho seguido. Faz-se apologia ao movimento, sem saber para onde caminha.

Diz-se que a ação serve de propaganda, mas propaganda de que? Não de um programa nem de uma estratégia, mas da própria ação. Ação pela ação e assim se consome energia demais dentro de uma circularidade que não nos leva a lugar nenhum. A própria adesão aos atos segue esse critério (ou ausência dele). Por isso vê-se uma predominância de militantes independentes anti-organizacionais* neste meio marcado pela crescente rotatividade. São mesmo raros os espaços de interlocução, portanto de avaliação ou formação. Elas se dão quase exclusivamente no interior das organizações, portanto exclui a maioria dos militantes. As falhas na execução do enfrentamento são avaliadas e corrigidas individualmente ou no interior de grupos afetivos e por isso raramente questiona-se a tática em si e seu papel no desenvolvimento da luta de classes. Sua realização no final de cada ato já está dada visto que pouco se enxerga além disso.

Apesar do que pode parecer, entretanto, o que foi dito não se trata de uma condenação. Todas essas falhas são corrigíveis. O enfrentamento dos manifestantes com o aparato repressivo do Estado é ao mesmo tempo indispensável e inevitável. Justamente por isso ele deve ser organizado e reduzido ao seu papel, à autodefesa coletiva. Isso implica na superação da tática da revolta popular, por uma estratégia na qual as manifestações sejam usadas como meio para estimular, formar e integrar assembleias, populares, conselhos operários, conselhos populares e espaços autogeridos de forma geral, de modo que cada vitória represente um salto organizativo para o movimento em seu conjunto e não leve a um novo recuo.

Colocar a participação nos atos a serviço da construção do poder popular implica ainda na sujeição das ações combativas a este plano diretor. Devemos nos perguntar; “como a participação deste ato contribui para esta forma de organização e poder?”, “como minha ação combativa contribui para tal objetivo?”. Isto nos permitirá ainda criar canais permanentes de formação dos novos militantes, trabalho de base e de comunicação onde o próprio movimento diretamente avalia os erros e acertos de sua conduta e execução em um processo de autocrítica permanente. Sem fóruns onde independentes e militantes organizados se reúnam nada disso é possível e, por isso, as organizações do campo libertário tem sua parcela de responsabilidade neste cenário.

3. A RESPONSABILIDADE DOS MILITANTES ORGANIZADOS

A resposta das organizações do campo independente a este cenário muitas vezes contribui – diretamente ou não – com este quadro. Ao enxergar as debilidades apontadas o militante organizado frequentemente se retira de certos espaços ao invés de disputá-lo. Disto decorre um duplo recuo; em primeiro lugar uma perda da capacidade organizativa de gerir certas ações que requerem mais experiência.

As ações da tática BB são recorrentemente marcadas pela irresponsabilidade e pela repetição de erros muito bem conhecidos. Ao mesmo tempo, ocorre um progressivo afastamento dos novos militantes do movimento em seus períodos de refluxo. Em segundo lugar certas organizações políticas assumem tarefas que cabem aos movimentos sociais, enfraquecendo sua autonomia e agindo de modo a dificultar a formação dos conselhos e assembleias populares. Tal postura chega mesmo a afastar os independentes do movimento quando este envolvimento precisa necessariamente ser mediado por forças que sustentam programas que discorda. O contrário também ocorre. Cada vez mais os movimentos sociais assumem funções próprias das organizações políticas dando origem a figuras híbridas que buscam suprir a carência dos militantes que tem nas ações radicalizadas o primeiro contato com a luta de classes. Aqui as tarefas públicas e as clandestinas se confundem chegando a oferecer riscos para segurança. Surgem espaços voltados quase exclusivamente para tática, incapazes de servir-se dela para construção do poder popular. Nos dois casos a autogestão e a autonomia do movimento social são feridas, bloqueando avanços qualitativos.

 

* Muitos confundem ser organizado com pertencer a partidos políticos, enquanto na verdade existem grupos independentes organizados. Para existir uma tática com um objetivo real tem que haver uma organização.

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