A farsa da guerra às drogas

A farsa da guerra às drogas

Julho 18, 2017 - 11:10
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Quatro pessoas morreram no último mês decorrente de tiroteio em comunidades no Rio de Janeiro. Na Mangueira, mãe e filha desciam para trabalhar quando foram atingidas por disparos. No Pavão-pavãozinho, um homem foi vítima de estilhaços de granada. No Lins, uma criança de 10 anos foi baleada na cabeça. Em todos os casos a Polícia Militar fazia operação na região. 

 
 
Marlene Maria da Conceição, de 76 anos, e sua filha Ana Cristina da Conceição, de 42, andavam pela comunidade da Mangueira na tarde do dia 30, quando foram atingidas por disparos e vieram a óbito. O tiroteio ocorria devido à ação da Polícia Militar na favela desde às 8 horas daquela manhã. Após o ocorrido, os policiais não prestaram socorro, e os vizinhos tentaram ajudar as vítimas, porém sem sucesso. Alguns vídeos divulgados por moradores nas redes sociais mostram o momento em que o corpo de uma das vítimas e levado para fora da comunidade por moradores, que tem inclusive o caveirão do BOPE – Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar – bloqueando o acesso. O vídeo mostra claramente a inércia dos policiais diante do ocorrido. Mais tarde, naquele dia, houve protesto nas ruas próximas à Mangueira, e um ônibus foi incendiado. Houve forte repressão policial. 
 
Fábio Franco de Alcântara, morador do Pavão-pavãozinho, em Copacabana, trabalhava como porteiro em um prédio no mesmo bairro. Na manhã da quarta-feira, dia 28, Fábio andava pela comunidade quando a Polícia Militar começou uma operação. O rapaz se abrigou em um bar junto a outras pessoas, porém foi atingido por estilhaços de uma granada e faleceu. Outras 5 pessoas ficaram feridas e foram encaminhadas ao hospital. A favela do Pavão-pavãozinho possui UPP conjunta com o morro do Cantagalo, em Ipanema. 
 
Mais recentemente, na terça-feira, dia 4, uma criança de 10 anos foi baleada no complexo do Lins, na zona norte do Rio. Segundo moradores, a situação era tranquila na comunidade até que a PM deu início a um tiroteio. Vanessa, de apenas 10 anos, foi atingida na cabeça e não resistiu. Houve protesto na região, reprimido pela polícia. Os moradores clamaram pelo fim da UPP e acusaram os policiais que estavam envolvidos na operação de assassinos. 
 

 
Estes casos, embora de brutalidade marcante, não são raros – ou como a PM gosta de chamar: isolados. - Muito pelo contrário, trata-se de uma política de extermínio fundada com base no ódio racial e de classe. A guerra às drogas, assim denominada pela primeira vez nos EUA durante o  governo Nixon, final do século XX, não é uma política de guerra ao vício e à violência urbana, mas sim um genocídio à população pobre majoritariamente negra. 
 
Ocorre que, para manter o status quo e os privilégios da classe dominante, o Estado necessita criar um mecanismo autoritário de dominação das periferias, e assim é lançada a ideia vendida amplamente pela mídia corporativa de que os traficantes estão nas favelas e as drogas destroem vidas. - Neste pensamento exemplificado, temos dois erros, e iremos analisá-los a seguir. 
 
O primeiro erro, se é que podemos referir-nos desta maneira, é a ideia desonesta vendida pela grande mídia de que os traficantes estão nas favelas. Na tentativa escandalosa de criminalizar a periferia e a pobreza, cria-se este discurso, que ganha força no cinema com filmes como Tropa de Elite, e nas novelas e manchetes dos jornais corporativos. Acontece que, na verdade, o traficante real está engravatado, é branco, tem muito dinheiro e nem chega perto das comunidades. O tráfico presente nas favelas é apenas um varejo, são vendedores de drogas. Porém, nenhuma parte desta droga vendida nos bairros pobres são plantadas lá. Estes entorpecentes cruzam a fronteira, são comprados e vendidos, sendo repassados aos varejistas das comunidades pelos grandes traficantes, aqueles que, como no caso do helicóptero de Gustavo Perrella, ligado à Aécio Neves, apreendido com 445kg de cocaína, são absolvidos. 
 
O segundo erro refere-se ao vício. O vício é de fato algo perigoso e que deve ser combatido. Todavia, algumas questões sobre o vício são descaradamente escondidas ou falaciosas no discurso vendido pela grande mídia. O vício em drogas, assim como outros vícios, em sua maior parte, tem fator social. A pobreza, a desigualdade, a injustiça social, todos são fatores que levam um indivíduo ao vício em entorpecentes (lembrando que há também o vício químico). Esta afirmação nos permite exemplificar as cracolândias. Por que nestes lugares apenas vemos pobres e em sua maior parte negros? Seria porque só os pobres utilizam drogas? Infelizmente este é o estigma que o discurso midiático tenta criar para justificar a ação da Policia Militar nas comunidades, porém nada mais é que uma falácia. Observamos um maior número absoluto de pobres e negros nas cracolândias justamente devido ao caráter social do vicio em entorpecentes. Ricos usam drogas, classe média usa drogas, mas não terminam, geralmente, na rua. O vício é, em grande parte social, tese defendida também pelo psicanalista americano Carl Hart, estudioso do tema.
 
Outro fato que deve ser ressaltado na falaciosa guerra às drogas é a forma como o problema do vício é tratado. Em anos de experiência podemos constatar a ineficácia da segurança pública ao lidar com o tráfico de drogas. Uma certeza que temos é: as pessoas usam drogas. Elas sempre usarão drogas. É impossível vencer os entorpecentes por meio da segurança pública e da repressão violenta. A forma mais eficaz de combater o problema gerado pelos excessos é, sem dúvida, por meio da saúde pública, muito mais capaz de lidar com o vício do que a polícia. 
 
Infelizmente, enquanto este debate caminha a passos curtos e lentos na sociedade brasileira, as maiores vítimas deste discurso genocida da grande mídia e do Estado continuam morrendo nos becos das favelas, que são os negros, as negras, os pobres, as pobres, todos que já sofrem diariamente com a pobreza e são obrigados a encarar, além da precariedade da vida na periferia, a PM, as trocas de tiros, as perdas de entes queridos, todas ocasionadas pela política assassina, o crime organizado e a falsa guerra às drogas. 
 
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MIM tem opinião
sobre repressão de homem branco,
que só vai acabar quando a gente começar a explodir
as instituições estatais,sem matar e sem sangrar esses burgueses canalhas,
violentamente pacifico temos que revidar sem medo de caminhar,
pois só com a arma da mente e
a liberdade na mão podemos livrar esse povo que sofre
repressão do estado, policia e patrão.

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