Tecnocracia X Democracia

Tecnocracia X Democracia

Novembro 29, 2017 - 13:19
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(Por: Antony Devalle*)

Na terça 3 de outubro, a Petrobras completou 64 anos. Na véspera, parte da hierarquia da empresa, inclusive seu presidente, Pedro Pullen Parente (PPP), estava na New York Stock Exchange (NYSE), mais conhecida entre nós como a Bolsa de Nova Iorque, no que the corporation chamou de Petrobras Day. Nesse evento, o Pedro Parente tocou o sino de abertura do pregão (https://livestream.com/NYSE/petrobras/videos/163662686). Símbolo da privatização que se aprofunda a cada dia, de modo muito veloz. Pullen e os diretores Solange Guedes (Exploração e Produção), Ivan Monteiro (Financeiro e de Relacionamento com Investidores), Jorge Celestino (Refino e Gás Natural), Hugo Repsold (Assuntos Corporativos) e Nelson Silva (Estratégia e Organização) batiam palmas e sorriam nessa hora, com a bandeira usamericana ao fundo, ao lado da marca da Petrobras. Uma imagem do sarcasmo com o qual a hierarquia comemora mais um ano de destruição do projeto pelo qual a Petrobrás foi criada. Um projeto em que a Petrobrás (o acento fazia parte desse projeto) era o principal símbolo da busca de uma independência econômica do Brasil, fundamental pruma independência política do país. Um projeto que se expressou na campanha O petróleo é nosso, do final dos anos 1940 e início dos anos 1950. Ainda que insuficiente e com suas contradições (e não resolver isso enfraqueceu o projeto ao longo dos anos), a vitória dessa campanha foi muito importante e pode ser resumida no que estava em jogo: O petróleo é nosso X O petróleo é Esso. No aniversário de 64 anos da Petrobras, a hierarquia da empresa bate palmas pra Exxon (nome atual da Esso) e aprofunda ainda mais a transformação da Petrobras em PetroBrax. "PetroBrExxon!", gargalha a hierarquia, de mãos dadas com Wall Street. No neologismo gargalhado, o Br é, ironizemos, de British(ell). O aprofundamento aceleradíssimo da privatização, tanto em termos da venda de partes da empresa quanto em termos da sua lógica de funcionamento, que já estava a 200 km/h no governo da Dilma (com a Graça Foster e depois com o Bendine na presidência da empresa), está como um trem-bala no governo do conspirador-fantoche Temer (com o Bendine e depois com o Parente no cargo oficialmente máximo da Petrobras). Como num poema concreto, o retrocesso teve seus passos: Petrobrás - Petrobras - PetroBrax (cada dia mais concreto, mesmo camuflado) - PetroBrExxon... Um "detalhe" é que o Petrobras, sem acento, foi habilmente manejado pra anestesiar parte considerável dos setores que se apresentam como nacionalistas e mesmo de setores que se apresentam como de esquerda, facilitando o caminho ainda mais diretamente privatista e desnacionalizante.

No Petrobras Day, que foi, na prática, um Dia Anti-Petrobrás, no sentido abordado no primeiro parágrafo, o Pedro Pullen Parente, presidente Parceria Público-Privada (da socialização dos prejuízos e da privatização dos lucros) ou presidente Privatiza (os resquícios d)o que é (ou deveria ser) Público, continuou seu roudi xou de liquidação da ex-Petrobrás. Já estivera em São Paulo, a capital do capital no Brasil, e em Londres, a capital histórica do capitalismo e do imperialismo capitalista, a aristocracia da burguesia. Em Nova Iorque, capital roliudiana do capitalismo, o Pullen fecha um ciclo, parte de um ciclo bem mais amplo, no qual tem fatias da Petrobras pros colonizadores (investidores) externos e internos que quiserem, como na partilha da China do final do século XIX, sendo que agora a China abocanha várias fatias. Depois de Nova Iorque, o presidente da Petrobras foi, mais uma vez, pra Londres, terra de uma parte dos seus ancestrais. Aliás, o estilo adotado pelo Pullen em público é bastante inglês, no sentido daquele típico imperialista inglês do século XIX, notadamente da Era Vitoriana, que, além de arauto do liberalismo, busca parecer bem civilizado, como um jogador de críquete, com seu uniforme impecavelmente branco, com sua fala tecnicamente responsável, em que cada sílaba é toda engomadinha, combinando bem com planilhas de negócios. Aquele típico civilizado que acha selvagem ser chamado de canalha mas que toma tranqüilamente seu chá das 5 depois de ter ordenado massacres sanguinolentos. Aquele típico patrão de cartola que impõe regras totalmente injustas mas que, quando um trabalhador demitido reclama, diz, com toda a calma técnica, "são as regras; fomos imparciais".

No Brasil, enquanto o Pullen perguntava em Nova Iorque quem dava menos pela Petrobras, os demais lordes da privatização tecnocrática continuam fazendo sua parte no projeto de aprofundamento aceleradíssimo da (re)colonização do país. Parte desse projeto está no fechamento cada vez mais completo do cerco aos trabalhadores petroleiros críticos na prática. E parte desse cerco se fechando é a aproximação cada vez maior da demissão como algo corriqueiro pros empregados próprios da Petrobras, como parte, inclusive, do aprofundamento aceleradíssimo da privatização da lógica de funcionamento da empresa. As demissões sempre aconteceram na empresa, mas não havia uma política de corte de custos via corte de pessoal nem uma política (notemos bem: uma política) de busca de demissão corriqueira potencialmente em massa. Isso é grave porque acentua muito uma tendência das pessoas fazerem o que o patrão e seus representantes querem, em vez de exercer seu ofício pensando no melhor pro povo e mesmo pra empresa. Essa política de demissão corriqueira de próprios vem vestida de meritocracia. Uma das roupas da tecnocracia. Um dos seus disfarces. O uniforme impecavelmente branco, engomado, do "civilizado" nas relações trabalhistas ou, dito de modo mais didático, nas relações entre o capital e o trabalho, entre o capitalista (e seus gerentes) e os trabalhadores. A roupa com a qual o patrão impõe regras totalmente injustas mas que, quando um trabalhador demitido reclama, diz, com toda a calma técnica, "são as regras; fomos imparciais". A meritocracia, como outra face da mesma moeda da tecnocracia, é a camisa-de-força privatista que vai dificultar os movimentos dos trabalhadores.

O aprofundamento aceleradíssimo da privatização, com sua dupla tecnocracia-meritocracia, inimiga do debate, corrói rapidamente os resquícios de lógica potencialmente pública e o potencial de democracia na Petrobras e em torno dela. Nossa luta, portanto, é ao mesmo tempo contra a privatização e a favor da democratização. Porque não haverá democracia com a privatização, mas não privatizar está longe de garantir a democracia. Como parte da nossa contribuição pra luta por uma Petrobrás no mínimo pública e democrática, preparamos uma eleição virtual pra presidente da empresa. É uma nova versão da que fizemos presencialmente numa manifestação que realizamos na porta do Edise (sede da empresa) durante a greve de 2015. É um pequeno presente que oferecemos àquelas e àqueles que sonharam e lutaram por uma Petrobrás como ferramenta especial de uma independência econômica (e política) do povo trabalhador brasileiro e àqueles e àquelas que, como nós, continuam com esse sonho e nessa luta.

Eis o linque pra eleição: https://docs.google.com/…/1FAIpQLSciuo-agBLmKRoSQ8…/viewform .

*Antony Devalle é militante da tendência político-social Organização Popular (OP) e do grupo de base petroleiro Inimigos do Rei.

   

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