O totalitarismo liberal é o principal inimigo da democracia

O totalitarismo liberal é o principal inimigo da democracia

Novembro 23, 2018 - 05:48
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Texto publicado originalmente no dia 28/10/2018, no dia do segundo turno das eleições presidenciais por Antony Devalle no grupo de Facebook do grupo Inimigos do Rei

 

No ano passado, o segundo turno da eleição presidencial francesa foi entre o Emmanuel Macron e a Marine Le Pen, repetindo, em grande medida, o cenário do segundo turno da eleição pra presidente da França de 2002, quando o pai dela e fundador da Frente Nacional (FN), Jean-Marie Le Pen, enfrentou o Jacques Chirac, da Reunião pela República (RPR). Tanto em 2002 quanto em 2017, os Le Pen perderam, sobretudo porque foi organizada, em ambas as ocasiões, o que se autodenominou uma frente republicana (na França, a palavra república tem até mais força do que a palavra democracia, o que não impede que muitos franceses se comportem no dia-a-dia como se fossem monarcas) contra a FN. A avassaladora vitória do Chirac, com mais de 80% dos votos (não contando os nulos), foi sobretudo resultado do voto contra Le Pen. A vitória do Macron, que havia criado pouco tempo antes o seu próprio "movimento"-partido Em Marcha (com as suas iniciais), também foi com grande vantagem (mais de 60% dos votos ditos válidos) e também se deveu, em grande medida, ao voto contra Le Pen. Em ambos os casos, o voto anti-Le Pen teve um componente básico, muito propagandeado, que foi votar contra o racismo, a xenofobia e o autoritarismo.

Mas há diferenças entre os dois momentos. O Chirac, embora de direita, mantinha, ainda que só na retórica, algum resquício da política gaulliste (do Charles De Gaulle, um dos principais organizadores da resistência francesa contra a invasão nazista, em 1940, e presidente do país após a Segunda Guerra Mundial), e o Jean-Marie Le Pen, com frases como "os campos de extermínio foram um detalhe da história", era muito facilmente visto como de extrema-direita. A Marine Le Pen, ainda que mantendo partes consideráveis do programa do pai, notadamente em relação aos imigrantes (e aos franceses filhos e netos de imigrantes de ex-colônias francesas, principalmente na África do Norte arabizada e de vários países da África negra), suavizou o discurso e, assim, a ênfase no incentivo à economia nacional ganhou mais destaque. O Macron se apresentou como de centro (e a mídia mais diretamente mercantil o apresentou assim e como moderno, como o novo), mas, tendo sido sócio do banco Rothschild, era o principal representante do liberalismo econômico na eleição. A suavização do discurso por parte da Marine Le Pen e, principalmente, a identificação do Macron com o liberalismo, pelo que ele foi o queridinho da mídia cão-de-guarda do capital, são os principais elementos pra explicar porque, por um lado, a diferença de votos, apesar de imensa, foi menor do que entre o Chirac e o Jean-Marie Le Pen, e, por outro lado, porque o Macron, de qualquer forma, venceu com muita vantagem. Não nos enganemos: mais do que a rejeição ao símbolo Le Pen, quem triunfou foi o liberalismo.

Na atual eleição presidencial brasileira, essas duas edições da autodenominada frente republicana francesa contra os Le Pen foram lembradas e uma versão local, anti-Bolsonaro, foi desejada por muitos. O escritor Veríssimo publicou um texto no jornal O Globo (https://oglobo.globo.com/opiniao/um-chirac-rapido-23022347) no qual sintetizou esse desejo da seguinte maneira: "Escolha o mais Chirac dos candidatos e vote nele. O Le Pen nós já temos.". Algo que o Veríssimo não disse é que o Bolsonaro é muito pior que os Le Pen, sobretudo que a Marine Le Pen. A própria Marine quis se distanciar dele (http://br.rfi.fr/…/20181011-marine-le-pen-bolsonaro-diz-coi…). Tem muito de hipocrisia colonialista nesse distanciamento. Afinal, o clã Le Pen defende as torturas que as forças armadas francesas praticaram na Argélia (pra citar apenas um exemplo, de uma longa lista). Associar a sua imagem a um caipira latino-americano visto como inculto é demais pro "refino" francês. Mas por que, então, o Bolsonaro é pior do que os Le Pen? Principalmente, porque, enquanto os Le Pen defendem, ainda que de modo patronal (o que é um grande problema), a economia nacional, por meio do que apresentam como um patriotismo econômico, no qual o fabricado na França, especialmente por empresas francesas, deve ser priorizado, o Bolsonaro pisa no acelerador do ultra-liberalismo, batendo continência pros grandes países capitalistas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Enquanto os Le Pen querem que a França seja menos colonizada (e querem continuar colonizando outros povos), o Bolsonaro quer aprofundar ainda mais a colonização contra o Brasil. As transnacionais francesas, como a petroleira Total, vão continuar se dando bem no Brasil do Bolsonaro, enquanto a economia nacional brasileira vai ser ainda mais esfarelada. É por isso, aliás, que a mídia defensora (e um dos principais agentes) do globalitarismo, tanto na França quanto no Brasil, defendeu o Macron diante da Le Pen e aplaude a coleira ultra-liberal do Bolsonaro.

A francesa Florence Poznansky, que participa do Partido de Esquerda e do movimento (quase partido) França Insubmissa e mora em Belo Horizonte, escreveu um texto (https://europeinsoumise.org/…/160-bolsonaro-pourquoi-une-ab…) no qual explica um pouco também por que, ao contrário do que aconteceu na França quando os Le Pen chegaram no segundo turno, não houve uma frente republicana anti-Bolsonaro no Brasil. Ao texto dela, muito interessante, acrescento, como franco-brasileiro, que uma diferença cultural entre a França e o Brasil é que, em geral, os franceses gostam muito que o seu país seja visto como a propaganda da sua política externa o vende, como a pátria dos direitos humanos e da liberdade. Grande parte dos franceses tem muita dificuldade pra, ao se olhar no espelho, ver como imagem refletida uma mentalidade colonialista que, em maior ou menor grau, perpassa grande parte grande parte do espectro político, da direita à esquerda. Não se importam tanto que a França seja colonialista (embora também seja uma semi-colônia dos Estados Unidos, e isso não incomode uma grande parcela), não se importam tanto de se comportarem como se fossem superiores a muitos outros povos, mas se incomodam que essa imagem apareça no espelho, espelho meu deles. Isso também ajuda a explicar ter havido uma dita frente republicana lá e aqui não.

Nenhum partido francês (repito: nenhum) defendeu nitidamente, na eleição presidencial de 2017, tirar as transnacionais francesas dos países da periferia do sistema capitalista mundial. Nenhum criticou realmente o imperialismo francês, que é exercido, sobretudo, pelas suas transnacionais. Nenhum partido francês criticou a participação francesa na partilha da China que representa o aprofundamento aceleradíssimo da privatização da Petrobras. Nenhum sequer lembrou, ainda que simbolicamente, que, pela forma como a Petrobrás foi criada (com muito mais luta popular, diga-se de passagem, do que as empresas de energia francesas), a retirada do acento (passando de Petrobrás pra Petrobras) é muito mais grave do que se a francófona Nestlé passasse a se chamar Nestle. Nenhum. Isso é mais uma mostra de como é importante descolonizarmos a nossa forma de fazer política, de tecer o nosso povo, de tecer a(o) nossa(o) (a)manhã. Sem deixarmos de buscar aprender com as experiências de outros povos (e a história francesa nos oferece muitas experiências muito importantes), devemos construir o nosso próprio caminho (internacionalista) pra indispensável revolução brasileira. E esse caminho deve enfrentar o liberalismo econômico. No Brasil, como na França, a liberdade é uma farsa se não estiver acompanhada da igualdade e da fraternidade. E o liberalismo econômico, por mais que muitas vezes (e de modo muitas vezes muito eficiente) disfarce, é inimigo da igualdade e da fraternidade. O liberalismo é inimigo da democracia.

 
Antony Devalle é trabalhador da Petrobrás e integrante do grupo autônomo de trabalhadores petroleiros Inimigos do Rei.

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