Uma carta petroleira

Uma carta petroleira

Abril 28, 2020 - 15:06
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A mais recente greve petroleira, realizada em fevereiro, ainda é recente, mas a luta mais direta dos trabalhadores do sistema Petrobras (e do povo trabalhador em geral em torno da mais estratégica empresa do país) continua urgente e indispensável. Além dos agressivos ataques que já vinha fazendo a uma grande parcela da categoria petroleira, notadamente retirando direitos importantes, fechando muitos postos de trabalho e preparando demissão em massa (a demissão de quase 400 empregados e a dispensa dos serviços de cerca de 600 terceirizados na Fábrica de Fertilizantes do Paraná-PR e as demissões a conta-gotas de empregados pelo país afora são uma sinistra prévia), tudo isso perpassado por uma violência psicológica muito pesada sobre grande parte dos trabalhadores, inclusive com uma política de acirramento deliberado do cada um por si da "meritocracia", e além dos também muito ferozes ataques ao povo trabalhador brasileiro, fazendo na Petrobras uma política de decalque da Vale privatizada (muitos executivos da Petrobras hoje vieram da Vale, que tem sido autora de gigantescos desastres sócio-ambientais no Brasil, como em Mariana e em Brumadinho, e que tem espionado mais diretamente trabalhadores, ovimentos sociais e jornalistas que não fazem o jogo de The Corporation), a hierarquia privatista está se aproveitando da pandemia do coronavírus pra acelerar ainda mais os ataques.

A parte desses ataques que é contra uma grande parcela da categoria petroleira tem como fio condutor aumentar o abismo já especialmente anti-democrático entre quem faz parte da hierarquia (e seu círculo próximo) e quem não faz. Enquanto a hierarquia, especialmente a alta hierarquia, está podendo atuar de casa durante a pandemia, preparando mais um aumento da sua já obscena remuneração, uma parcela ainda grande dos trabalhadores do chão de fábrica está sendo obrigada a trabalhar dentro da empresa. Uma pequena parcela trabalhar dentro das instalações da empresa seria realmente necessário, pra manter as atividades essenciais, como o fornecimento de combustíveis pros veículos fundamentais no esforço social frente à pandemia, de gás de cozinha, de energia elétrica (nas regiões em que as hidrelétricas não estiverem sendo suficientes) e álcool gel (inclusive, como proposto pelo Esquerda Diário, recolocando em funcionamento, de forma adaptada, a Fafen-PR). E muitos petroleiros estão dispostos até a redobrar os esforços nesse sentido. Entretanto, o que a hierarquia está impondo é continuar a produzir tendo como parâmetro não as necessidades do povo, mas a busca (da maximização) de lucros pros grandes acionistas privados e do reforço do profundamento da submissão do Brasil ao projeto geopolítico estadunidense e, de modo mais amplo, atlantista. Com a linha adotada, a hierarquia da empresa conseguiu que pelo menos quase 300 trabalhadores já tenham sido contaminados pelo coronavírus (muitos outros provavelmente vão ser contaminados, ainda mais que o pico da pandemia ainda não foi atingido no nosso país e que há subnotificação dos casos) e que alguns já tenham morrido. A hierarquia também se porta como Pôncio Pilatos diante da demissão já de centenas de terceirizados. Os empregados que fazem parte de grupos de risco em relação ao coronavírus e que trabalham em turno ininterrupto de revezamento e que, sobretudo a partir de um esforço sindical, estão, durante a pandemia, trabalhando de casa, foram penalizados pela hierarquia, que cortou os adicionais de turno, que significam até metade da sua remuneração, e está ameaçando desimplantar (isto é, tirar do turno) a maioria dessas pessoas. Ou seja, coloca mais uma pressão sobre esses empregados: embora muitos empregados tenham feito questão, pra proteger a saúde (sua e dos familiares, e até, indiretamente, do conjunto da sociedade), de não ir nas instalações da empresa, já tem gente "escondendo" que faz parte de grupo de risco porque não quer ter um corte tão significativo na remuneração e porque não quer ser desimplantado (ou até, mais à frente, demitido), assim como já tem gente que não está em grupo de risco e trabalha mesmo com febre, tanto pelos mesmos motivos quanto porque alguns setores da empresa demoram (em parte de propósito e em parte por desleixo) a liberar quem está nessa situação. Outro problema é que a hierarquia, com o objetivo de não pagar hora extra, tem pressionado os empregados a fazerem a passagem do turno em no máximo 10 minutos, o que representa um risco a mais, na medida em que é justamente nesse momento que os que estão saindo explicam aos que estão chegando o que foi feito, o que precisa ser feito e em que situação estão os equipamentos e os processos. Além disso, até o momento, a hierarquia não disponibilizou de forma suficiente equipamentos de proteção individual (EPIs). Na área administrativa, a maioria dos empregados foi colocada em teletrabalho. Mas a hierarquia não organizou a questão da ergonomia e fez os potenciais custos extras com energia elétrica e até mesmo com equipamentos informáticos, por exemplo, recaírem nos próprios trabalhadores. Fixou a jornada em 6 horas (jogando no banco de horas duas horas por dia, que terão que ser compensadas quando acabar o teletrabalho), com corte de 25% da remuneração e sem adaptar a quantidade de trabalho pra situação concreta em que as creches e escolas estão fechadas e as crianças precisam, portanto, de uma atenção redobrada em casa durante o expediente (tanto pra brincar e simplesmente receber carinho quanto pra acompanhamento nos estudos, já que uma parte das escolas manteve, em maior ou menor grau, atividades a distância).

 

O sarcasmo da hierarquia privatista

Isso é apenas um breve resumo do que a hierarquia chama sarcasticamente de plano de resiliência. É importante prestarmos bem atenção nesse fio de Ariádne pra não nos perdermos no labirinto no qual a tecnocracia quer nos prender pra sermos devorados pelo Minotauro da privatização desnacionalizante e especialmente (re)colonizadora. Um fio de Ariádne que nos leva ao passado e a outra parte desse plano que perverte a palavra resiliência. Há alguns anos, quando a Dilma ainda era presidente do país e inaugurou a atual fase geral da privatização chamada eufemisticamente de venda de ativos (muito acelerada desde então - e a retirada da Dilma está diretamente relacionada com a vontade dos Estados Unidos de pisar muito no acelerador privatista), a hierarquia da Petrobras colocou a palavra resiliência no centro do tema de uma Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho (Sipat). Na época, mesmo uma grande parte dos petroleiros críticos ao privatismo bateu palmas pra esse tema, que emoldurava também pequenos encontros de conversas entre empregados organizadas (e mediadas) pela empresa. O desejo de se "salvar" do terrorismo psicológico exercido pelo privatismo e o desejo de fugir do compromisso de lutar concretamente contra o privatismo e a tecnocracia mais direta eram tão grandes que essas pessoas se recusavam a ouvir verdadeiramente qualquer análise crítica à lógica de falsa resiliência. Desesperadas em busca de conforto, não se importavam que esse "conforto" fosse apenas a capa de um profundo desconforto. E assim a tecnocracia foi dando passos larguíssimos, ao mesmo tempo com neon e na ponta dos pés, encontrando uma resistência muito aquém do necessário e conseguindo convencer muita gente que aceitar o rolo compressor da privatização era ser resiliente. Dito de outra forma, assim a tecnocracia privatista foi avançando, com a sua blitzkrieg ensurdecedora, convencendo muita gente que tinha que dar a outra face mas nunca combater os vendilhões do templo. O Minotauro se fortaleceu muito. E os trabalhadores, como coletivo, continuam no labirinto. Muitos querem derrotar o Minotauro, mas ainda não são tantos os que tecem na prática o fio de Ariádne principal, que é dar as mãos uns aos outros e agir.

A resiliência envenenada que a hierarquia privatista vende(u) é pra entorpecer as pessoas a ponto de acharem que o Gandhi representava uma não-violência ingênua, coleguinha da opressão colonial. Pobre Gandhi, que sabia muito bem que a resiliência não pode ter como par a resignação, que se pautava pela luta concreta contra o imperialismo. E a resiliência que a hierarquia continua a servir vem agora em tom ainda mais sarcástico e ameaçador: "não vai ser resiliente, não? Então, vou passar por cima de você. Ah, mas se for resiliente, mas não fizer parte da gangue ou não for (mesmo sem saber) um súdito mais diretamente útil pra pilhagem, vou te pisotear da mesma forma. KKK.".

A atual linha da resiliência, em cujo contexto mais geral a hierarquia privatista está impondo uma avaliação de desempenho dos empregados na qual aplica a chamada curva forçada (de antemão, define que uma parte, mesmo com bom desempenho mesmo nos critérios bastante enviesados utilizados pelo privatismo, vai ser colocada numa fatia de "baixo" desempenho) e na qual vai rotular empregados, em síntese, como alinhados ou até especialmente entusiasmados com o que a cúpula quer ou como resistentes (os resistentes serão colocados na fila da demissão), está desagradando muitos petroleiros. O descontentamento se expressou com criatividade em montagens de imagens (com legendas) que circularam por zaps da categoria, como uma mostrando o contraste entre o Messi e o Castello Branco (presidente da Petrobras): enquanto o argentino gênio do futebol tomou a iniciativa de, durante a pandemia, baixar em 70% o seu salário e fazer doações pra ajudar o Barcelona e pra que todos os trabalhadores da base da pirâmide do clube continuem recebendo integralmente, o White Castle não apenas não cortou um centavo sequer do que recebe na Petrobras mas também, como já ressaltado, blindou o conjunto da hierarquia e preparou um aumento. Por mais que o Messi seja riquíssimo e que esse dinheiro, além de não ser a sua única fonte de renda, não lhe fará falta, a iniciativa vai num sentido oposto à do White Castle, ainda mais que, enquanto o Messi foi e continua sendo uma peça central pra (re)erguer o Barcelona a um patamar de um dos clubes mais admirados do mundo, conquistando muitos troféus, batendo diversos recordes e encantando com futebol-arte, o White Castle recebe uma fortuna pra destruir o sistema Petrobras (e, assim, o Brasil), prejudicando muito, no mínimo por décadas, o povo brasileiro.

 

A geopolítica escancara que a privatização prejudica o povo brasileiro

Além da pandemia, a queda acentuada da cotação do barril de petróleo está sendo utilizada pela hierarquia privatista pra "justificar" o pacote anti-trabalhadores que sarcasticamete chama de resiliência (que pode ser acessado aqui e aqui). Essa queda (a cotação desceu do patamar de 55 dólares em fevereiro pra 45 dólares no dia 6 de março, e está na casa dos dos 20 a 25 dólares atualmente) se deve a alguns fatores: a crise econômica mundial, que, em parte, deriva da não-resolução mais a fundo da crise de 2008 (muito porque a excessiva financeirização da economia, sem o suficiente lastro material, transformando parte do dinheiro, em grande medida, numa ficção, foi mantida), que já está se instalando há alguns anos e que já vinha trazendo uma desaceleração econômica mundial; a pandemia do coronavírus, que está impulsionando de forma exponencial essa crise, acelerando muito o seu desenrolar, e que é uma crise imensa dentro da crise (existe o risco de que se torne uma depressão econômica, inclusive maior do que a Grande Depressão que teve como marco a quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929); e a disputa entre a Arábia Saudita e a Rússia em torno da geopolítica do petróleo (e, de modo mais amplo, da geopolítica em geral, por meio da geopolítica do petróleo). Essa disputa se expressou mais diretamente na reunião de 6 de março da Organização dos Países Exportadores de Petróleo + (Opep +), que engloba a Opep e alguns outros grandes produtores de petróleo capitaneados pela Rússia. Nessa reunião, a Rússia recusou a proposta saudita da Opep + realizar mais um corte na produção de petróleo, pra tentar manter a cotação do barril em torno de 60 dólares. O alvo da Rússia são os Estados Unidos. Num primeiro plano, a Rússia mira na indústria de óleo (e de gás) não-convencional estadunidense. Com essa indústria, os EUA se tornaram o maior produtor de petróleo do mundo e adotaram uma política (que, num período, contou com uma participação muito direta da Arábia Saudita) de super-oferta de petróleo, combinada com uma política de dumping junto a países europeus, com vistas a prejudicar países como a Venezuela e o Irã, que dependem muito da renda obtida com o petróleo e não se alinham com os EUA, o Brasil, que colocou no pré-sal grandes esperanças de desenvolvimento e, enquanto o Celso Amorim esteve como ministro das relações exteriores (com o Lula), esboçou não ficar completamente refém dos Istêitis, e a Rússia, que tem no petróleo uma fatia importante da sua renda, utiliza o ouro negro como um poderoso instrumento geopolítico e é um dos principais adversários geopolíticos históricos do atlantismo (e, a partir da Rússia, atingir também a China, enfraquecendo a parte russa da aliança sino-russa). Os europeus são os principais clientes do petróleo (e do gás) da Rússia, inclusive pela proximidade geográfica. O dumping feito pelos EUA, com o seu óleo não-convencional, junto ao mercado europeu, as sanções aplicadas pelos EUA contra a Rússia, que vêm sendo aumentadas, atingindo mais diretamente a petroleira Rosneft, as sanções dos EUA especificamente em relação ao gasoduto da Gazprom Nord Stream 2 e os esforços de Washington pra fomentar governos avessos aos russos no leste europeu são alguns dos fatores que levaram Moscou a agir sobre a cotação do barril de petróleo. Considerando a demanda menor por conta da crise econômica e do seu aprofundamento devido à pandemia, considerando que as empresas de óleo (e gás) não-convencional estadunidenses têm bastante dificuldade pra se manter com o barril de petróleo a menos de 60 dólares, considerando que se preparou ao longo de vários anos (acumulando mais de 150 bilhões de dólares de reservas cambiais, além de outras moedas, e um dos maiores estoques de ouro do mundo, diversificando bastante a sua economia, reforçando muito as suas forças armadas e estreitando a aliança com a China) e considerando que a Arábia Saudita depende muito mais das receitas com o petróleo do que ela, a Rússia agiu, por meio do seu enviado pra reunião da Opep +, o seu ministro da energia, Alexander Novak. Há riscos, como a diminuição da receita russa e o enfraquecimento da Venezuela e do Irã, mas a Rússia está apostando em pelo menos dificultar significativamente a indústria de óleo (e gás) não-convencional estadunidense (e a geopolítica usamericana). E, com isso, a Rússia também busca dar mais alguns importantes passos pra erodir o sistema do dólar. Os EUA já mostraram ao longo do tempo que têm uma grande capacidade de reverter situações adversas, mas a estratégia geopolítica eurasiática assombra o Tio Sam. E se torna pesadelo quando vislumbra, ainda que bem longe no horizonte, uma aliança Berlim-Moscou-Pequim, algo que pelo menos desde o século XIX a Inglaterra e a França e, a partir do século XX, também e, sobretudo, os Estados Unidos buscaram a todo o custo evitar (as sanções contra o Nord Stream 2 estão estreitamente ligadas a isso).

A Rússia provavelmente vai acompanhar de perto o cenário pra calibrar sua tática em relação à cotação do petróleo conforme o momento e, mais à frente, vai provavelmente coordenar, com a Arábia Saudita, inclusive, medidas pra que a cotação volte a um patamar que equilibre ganhos robustos e difíceis obstáculos pros EUA. No dia 12 de março, a Rússia aceitou participar de um acordo pra cortar 10% da produção mundial de petróleo. A Petrobras decidiu, nesse contexto, cortar 200 mil barris. Mas o faz numa lógica privatista. Em vez de, por exemplo, cortar esses 200 mil barris divididos em vários campos de petróleo de produção especialmente expressiva, como os do pré-sal, resolveu aproveitar pra hibernar mais 62 plataformas de campos de águas rasas nas bacias de Campos, Sergipe, Rio Grande do Norte e Ceará. A hierarquia diz que não vai demitir os trabalhadores desses ativos, mas todo o histórico de 2014 pra cá infelizmente indica o contrário. Continua também a black friday cotidiana em águas profundas, como mostra, entre outras, a continuação da venda da participação no campo de Papa-Terra. E a hierarquia vem chantageando em torno do seu pacote de "resiliência", ameaçando que, se os sindicatos (e o conjunto dos trabalhadores mais combativos) não "deixarem" a hierarquia aplicá-lo, será obrigada a demitir. Em vez de acabar com o abismo entre a menor e a maior remuneração na empresa, diminuindo drasticamente o que a hierarquia recebe, a tecnocracia privatista corta do empregado do chão de fábrica e do chão de escritório. Dar pelo menos uma trégua na privatização? Nada disso. Em vez de cancelar a venda das refinarias (e as malhas de dutos ligadas a essas refinarias), a hierarquia a reafirma, apenas adiando o cronograma. A queda do preço do barril escancara ainda mais o problema que representa pra Petrobras e pro Brasil a venda das refinarias. A empresa de energia ser integrada é fundamental diante das oscilações da cotação da matéria-prima. Quando o petróleo está barato, o ganho com o refino compensa a perda com a exploração e produção.

 

O Brasil precisa de uma Petrobrás pública e democrática

Ainda que com várias diferenças, o cenário mundial atual guarda semelhanças com o da Crise de 1929. O liberalismo econômico irradiando sua arrogância de cima do Empire State Building mas em crise aguda, sem conseguir resolver os problemas mínimos dos povos, criou um Frankenstein chamado nazi-fascismo, que só foi derrotado numa guerra mundial na qual a União Soviética foi decisiva. Nos Estados Unidos, precisou do keynesianismo do New Deal pra ter alguma chance de superar a Grande Depressão. No Brasil, na periferia do sistema capitalista mundial, o Getúlio Vargas implementou uma política com a qual buscou (e, em parte, conseguiu) posicionar o país de forma a obter benefício das rivalidades internacionais, especialmente entre os Estados Unidos e a Alemanha, pra industrializar e desenvolver o Brasil. Manteve um projeto nacionalista de construção do Brasil, utilizando o Estado como indutor na economia. A Petrobrás, a partir, inclusive, do seu antecessor Conselho Nacional do Petróleo (CNP), embora criada em 1953, no segundo governo do Vargas, já depois da Segunda Guerra Mundial e já durante a Guerra Fria, tem parte de suas raízes nesse projeto colocado em prática nos anos 1930. O Brasil só conseguiu algum grau de autonomia naquele período, mesmo se situando no campo dos Estados Unidos, especialmente a partir de 1942, porque adotou uma política nacionalista com o Estado como planejador e indutor da economia. E porque não aceitou um alinhamento automático com os EUA. Na nova depressão que se avizinha, na qual, muito provavelmente, os patrões vão buscar concentrar ainda mais em suas mãos a riqueza em nível mundial e que isso vai ocorrer (inclusive, já está ocorrendo), aumentando ainda mais a desigualdade sócio-econômica, num cenário de gigantesca disputa geopolítica pela hegemonia mundial, o Brasil precisa, no mínimo, do que o Vargas fez (de preferência, indo além, principalmente com a luta popular pra superar o capitalismo). Pra que isso seja possível, é muito importante que a Petrobras pelo menos não seja ainda mais privatizada do que já vem sendo (até pra ser menos difícil conseguirmos uma Petrobrás pelo menos pública e democrática, que passa, entre outras questões, por desprivatizar o muito da empresa que já foi privatizado e desnacionalizado).

Atualmente, esse mínimo depende da luta dos trabalhadores petroleiros, em aliança com outros setores do povo. Uma das ferramentas mais importantes dessa luta é a greve, pra qual é importante a autonomia coletiva dos trabalhadores. Nesse contexto, vale a pena (re)lermos o Telegrama ao grevista, que está a seguir:

 

Telegrama ao grevista

Companheiro grevista,

Este telegrama é um abraço. Uma caixinha de música, que você pode ouvir nos momentos em que a angústia estiver te enforcando. Um poema em prosa escrito com a nossa alma petroleira. Uma passagem secreta pra compromissos que você conhece de cor. Uma carta coletiva, que ajudamos a escrever juntos no dia-a-dia. Um ensaio pra que, com as nossas próprias mãos, possamos construir um caminho capaz de impedir a privatização (ainda mais completa) do sistema Petrobras, pra tornar essa jóia da coroa um tesouro nas mãos do povo trabalhador, a serviço das atuais e das futuras gerações. Escrevendo com as nossas próprias mãos, nossa ação-discurso pode evitar a manipulação da luta por mãos que fingem acariciar. Os privatistas escondem a cedilha quando nos chamam de força de trabalho. Pra não irmos pra forca, precisamos mostrar a força dos trabalhadores e isso passa pela greve. É bom poder contar contigo pra isso. Digitando como se estivesse tocando um piano, me despeço dizendo: até o dia-a-dia.

Abraços.

Um grevista

Antony Devalle é trabalhador da Petrobrás e integrante do grupo autônomo de trabalhadores petroleiros Inimigos do Rei. É um dos fundadores e editores do Portal Autônomo de Ciências.

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