Sobre a espiritualidade neoliberal

Sobre a espiritualidade neoliberal

Julho 11, 2020 - 10:58
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Já faz algum tempo que penso em escrever sobre esse tema, mas venho adiando por diversas razões. Agora, aproveito a deixa do dia internacional da yoga, que foi recentemente, em 21/06, quando diversas pessoas, simpatizantes ou praticantes de yoga, compartilharam em suas redes fotos de si mesmos fazendo asanas (posturas de yoga) e usando a hashtag #internationalyogaday (dia internacional da yoga).

As buscas por autoconhecimento e por práticas meditativas não vêm de hoje, mas, como nada está separado da história, nossa realidade contemporânea ressignifica muito do que, outrora, era diferente. Sequer preciso lembrar que, no Brasil de hoje, o Cristo revolucionário e amoroso que dava a outra face para bater, se tornou símbolo de pessoas que fazem arminha com a mão e defendem a tortura. O foco desse texto é outro: é sobre a retórica “gratiluz”, que nega a realidade concreta em nome de uma suposta iluminação. Afinal, de onde vem e a quem serve esse tipo de pensamento?

Sobre a “positividade tóxica”

Não gosto muito de usar esses termos que falam de uma “toxicidade”. Em geral, acho que mascaram outra coisa, um termo mais incisivo, mais radical, mais contundente. Nesse caso, eu não chamaria de “positividade tóxica”, mas de “espiritualidade acrítica”, ou, até, “espiritualidade neoliberal”.

Quando se fala nessa tal “positividade tóxica“, se refere, principalmente, à perspectiva de que não devemos falar de coisas negativas, que, se falarmos de coisas boas, do amor, da felicidade, trazemos isso para nossas vidas. Longe de querer afirmar ou negar o poder das palavras, essa crença, levada ao extremo – talvez não tão extremo, por ser tão comum hoje em dia -, leva a posturas como espaços espiritualistas que dizem que “aqui não se discute política”, ou, pior ainda, “vamos falar de coisa boa”. Isto é, uma negação cotidiana da realidade concreta, sempre que essa realidade não cumpre a demanda de ser “coisa boa”. Acontece que a realidade está aí, e parar de falar dela não vai mudá-la. Afinal, esses grupos buscam alguma mudança?

Não se trata, aqui, de criticar uma positividade social, mas sim de não negar a realidade em detrimento de uma fala monotônica, em uníssono de “gratidão”, sabe-se lá pelo quê. Como diria o bom e velho Raulzito (Raul Seixas, pra quem não tá acostumado com esse apelido carinhoso),

Ei, bicho, onde é que vai com essa flor no cabelo?
Com esse sorriso de paz e desespero?
Olhe pro lado e você vai entender

Nós também vivemos “num clima brabo, cheio de violência”, Raulzito. Também me irrito com essa gente fazendo sinal de “paz e clemência”. De fato, essas pessoas precisam olhar pro lado, pra entender, mesmo. O mundo não gira em torno de seus umbigos. Estar feliz com sua vivência, ser grato por suas conquistas não deveriam ser um impedimento para que essas pessoas se compadecessem com aqueles e aquelas que estão sofrendo. Aliás, deveria ser o contrário, não? As pessoas mais espiritualizadas não deveriam amar o próximo? Não deveriam querer que a vida fosse melhor para todos e todas? Ou só a quem pode pagar coachs e cursos caros de autoconhecimento?

Para quem é vendida essa espiritualidade?

 

Tem falas que são certeiras. Os caminhos espiritualistas que vão em busca de uma ancestralidade são louváveis, mas a que custo? – aqui com duplo sentido: custo simbólico e financeiro. Em primeiro lugar, quem pode pagar para acessar esses conhecimentos ancestrais? A busca por esses conhecimentos, em si, não só não é negativa, como, ao meu ver, deveria ser bastante valorizada, porém quando o resultado é que apenas uma pequena parcela da população é capaz de acessar esses conhecimentos, visto seus altíssimos valores de cursos, terapias e afins, qual mensagem está implícita nessa prática?

Voltando ao discurso da gratidão, só pode ter acesso a essa prática, ser grato a esse conhecimento e o que ele pode trazer à vida, quem pode pagar esses valores? Não se pode falar em política, mas, pelo visto, pode-se praticá-la, afinal essa situação onde apenas quem tem dinheiro suficiente pode acessar determinados bens (materiais ou não), tem um nome: capitalismo. E, quando esses bens são caros, ainda dá pra chamarmos com outro nome: elitismo.

E quando se fala que mudamos a realidade a partir de nossos pensamentos, o que falar da pobreza? Aliás, já pararam pra reparar que tipo de gente fala esse tipo de coisa? Pois então, devemos crer que todos os pobres e miseráveis do mundo não passam de pessoas com “crenças limitantes”?

Ultimamente, inclusive, tem sido divulgado em redes sociais grupos que falam de “21 dias de abundância”, onde pessoas te convidam – e tive o desprazer de ser convidado também – a participar de um grupo, seguindo atividades diárias por 21 dias. Segundo o recado que recebi, “participar dessa prática vai também lhe dar suporte para identificar seus bloqueios, medos e crenças limitantes na área das finanças e outras formas de abundância”. Pronto, basta fazer 21 dias de exercícios que, voilà, seus problemas acabaram. Desnecessário dizer que não participei dessa prática, que, segundo disseram, é baseada em Deepak Chopra – aquele mesmo do misticismo quântico -, mas conheço quem tenha participado por um tempo. Eis que no 5º dia de prática, sua obrigação do dia – porque a cada dia os participantes têm que seguir as orientações, ou são retirados do grupo – é, pasmem, criar seu próprio grupo, se tornar responsável por divulgar uma prática de 21 dias, só tendo completado 4 e sem saber como serão os próximos. Se isso não é uma seita, não sei o que é.

De qualquer forma, além de certas práticas não serem acessíveis a todos e todas, a mensagem desse tipo de discurso sobre “crenças limitantes” – não consigo não colocar entre aspas – é bem claro: se você não “venceu na vida”, se ainda não alcançou seus objetivos (sobretudo financeiros), essa responsabilidade é somente sua, e de ninguém mais. Sejam bem-vindos e bem-vindas ao mundo da meritocracia econômico-espiritual.

A espiritualidade neoliberal

Não é à toa esse discurso individualizante dessa espiritualidade new age. Como disse anteriormente, nada está separado da história. Numa sociedade com práticas neoliberais, onde as pessoas percebem a sociedade “como um conjunto de relações de associação entre pessoas dotadas de direitos sagrados”[1], as práticas cotidianas tendem ao individualismo. As correntes espiritualistas não estão fora da sociedade, portanto tendem a adotar a mesma postura que aparece em outros âmbitos.

Esse individualismo acrítico também não começou agora, mas o neoliberalismo vai cada vez mais se entranhando na sociedade, inclusive em movimentos sociais (mas isso é conversa pra outro dia) e, claro, na estrutura político-partidária. Acho difícil conseguir separar a fala das pessoas “gratiluz” da fala, ou melhor, do chilique (como ela mesma chamou) de Regina Duarte, que, assim como seu presidente, se calou perante à morte de figuras importantes para o cenário artístico nacional e falou que os jornalistas da CNN (e, com eles, os críticos ao governo), estão “desenterrando mortos” e “carregando um cemitério nas costas”. Isso em meio à maior crise sanitária da história recente, que, no momento da escrita desse texto, já deixou mais de 50000 mortos, só no Brasil. Na mesma entrevista, ela minimiza a ditadura, falando, ao se lembrar desse período revoltante da história brasileira, que devemos “olhar pra frente”, sem ficar “cobrando coisas que aconteceram”, relembrando, alegre, a famigerada música, que diz “pra frente, Brasil, salve a seleção”. Se, afinal, a antiga secretária da cultura, ao lembrar de um período onde diversas pessoas foram torturadas, “desaparecidas” e assassinadas, diz que “na humanidade, não para de morrer” e que “sempre houve tortura”, e que se sente leve e viva, se uma pessoa que está dentro da política institucional é capaz de falar tamanhas barbaridades, não é de se espantar que pessoas fora dessa política macro tenham discursos semelhantes.

Raulzito, novamente, é certeiro:

Nunca se vence uma guerra lutando sozinho
Cê sabe que a gente precisa entrar em contato
Com toda essa força contida e que vive guardada
O eco de suas palavras não repercutem em nada

É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro
Evita o aperto de mão de um possível aliado
Convence as paredes do quarto e dorme tranqüilo
Sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo

No campo da espiritualidade neoliberal, cada qual, convencendo as paredes de seu quarto, segue olhando pro seu próprio umbigo grato enquanto ao lado tem tanta gente sofrendo por razões diversas. Esse tipo de pensamento que permite a incoerência cotidiana de “seres de luz” que, buscando o conhecimento dos povos originários, acabam por ser passivos em relação aos ataques a esses mesmos povos que deram origem a esses conhecimentos. É esse tipo de esquizofrenia político-espiritual que permite que um mestre ayahuasqueiro como Luís Felipe Belmonte seja o terceiro na hierarquia da tentativa de novo partido de Bolsonaro , quem, desnecessário dizer, ataca constantemente os povos indígenas e suas práticas.

Essa espiritualidade pode ser acrítica, mas não é apolítica. E não é somente nessa prática que percebemos isso. O já citado dia internacional da yoga foi criado por uma figura completamente política (e fundamentalista hindu): o primeiro ministro da Índia, Narendra Modi. Ele é filiado ao Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), um grupo paramilitar indiano que defende a perpetuação do sistema de castas, na Índia, que nada mais é do que uma explicação hinduista sobre a hereditariedade das desigualdades sociais: cada casta nasce de uma parte do deus criador, Brahma, e tem diferentes profissões, acessos e direitos. É a instituição religiosa da divisão da sociedade em classes, havendo inclusive a existência de uma casta, os dalits, que são ditos “intocáveis”, por terem nascido da poeira sob os pés dessa divindade e que estão fadados a trabalhos ditos “menos dignos”, como trabalhar com lixo e esgoto. Para que criticidade, não é mesmo?

Quando Modi se tornou ministro-chefe do estado de Gujarat, pelo Partido do Povo Indiano (BJP), ligado ao RSS, aconteceu muita violência contra minorias religiosas (lembra a eleição de alguém?). Buscando tornar a yoga uma prática nacional, ele busca legitimar o hinduismo como religião ofical da Índia, quebrando o secularismo indiano e sutilmente tornando aqueles e aquelas que não são adeptos da yoga ou que seguem outra religião como não nacionalistas (mais uma vez, lembra alguém?). Dizem ele e seus aliados, como o vice-presidente Venkaiah Naidu, que “yoga não é atividade política”. Com isso, eles querem esconder o caráter evidentemente político por trás da cosntrução de um nacionalismo fundamentalista hindu, onde a yoga é um pilar fundamental. Não tão diferente dos instrutores e instrutoras de yoga, que dizem que yoga não é político, que liberta. Está aí implícito o apelo por se fechar em sua gratidão e esquecer os problemas sociais que nos cercam. Como se ignorar as mazelas sociais não fosse assumir uma postura política. Desmond Tutu já disse que, “se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”. E, convenhamos, na nossa realidade não precisa de muito esforço para perceber injustiças.

Enquanto muita gente estava compartilhando suas fotos pelo dia internacional da yoga, sem sequer saber como esse dia foi criado, elas estavam dando vizibilidade a esse nacionalismo hindu, que, segundo Aadita Chaudhury, indiana doutoranda em Estudos de Ciência e Tecnologia na Universidade de York, no Canadá, tem muita proximidade com o movimento supremacista branco.

Inclusive, yoga não é para qualquer um, afinal, quem “vai à Índia percebe de cara que é uma prática da classe média, muitas vezes sexista e elitista, de classe e de casta”, segundo a antropóloga Mariana Faiad Batista Alves, que também lembra as frequentes acusações de assédio sexual contra gurus e instrutores de yoga.

Falando em yoga, não por acaso optei por, durante todo o texto, falar essa palavra como um substantivo feminino. Uma escolha que fiz para contrariar figuras como DeRose, que insiste em pontuar que yoga é um substantivo masculino, porque, em sânscrito, a língua de onde vem a palavra, trata-se de uma palavra masculina. Esse tipo de transposição linguística não passa de besteira, sobretudo quando falamos de uma língua que possui três gêneros (masculino, feminino e neutro), como é o caso do sânscrito. Não passa de um esforço por buscar uma masculinidade nessa prática que, no método desenvolvido por DeRose, é feita para “homens jovens“. Nessa mesma entrevista deprimente, quando perguntado sobre como uma dona de casa poderia fazer suas práticas, DeRose é rápido e enfático em dizer “não, dona de casa, não”. Essa prática não é feita pra essas pessoas. 

Eu mesmo cheguei a praticar yoga com esse método, porque sempre quis fazer yoga, mas, como sempre foi muito caro, acabei conseguindo praticar quando uma escola, que segue esse método, colocou alguns meses de aula no Groupon. Em pouco tempo, já percebi o buraco onde tinha me metido: um ambiente elitista e branco, de classe média; aquela classe média gratiluz. Não vou ter a arrogância de dizer que todos esses espaços são assim, mas acho necessário compartilhar uma situação que pude presenciar: em uma rede social onde eu tinha minha antiga instrutora de yoga – pessoa de quem eu já não gostava na época, mas com quem eu mantinha uma postura pacífica -, ela compartilhou um vídeo sobre um experimento social onde uma pessoa finge passar mal e cair no chão, em público, primeiro “mal vestido” e, em outro momento, vestido de terno. Como era de se esperar, nesse mundo elitista, que só se importa com quem tem dinheiro, as pessoas ajudam aquele que parece ter dinheiro, mas não ajudam quando ele parece ser pobre. A surpresa não está no vídeo, mas no comentário dela, que, marcando outras pessoas do grupo de yoga, fala sobre a “importância de nos vestirmos bem”. Ou seja, a mensagem que esse “ser de luz” tira de um experimento desse, não é que devemos mudar e ajudar a todos e todas, independente de como se vestem e do que aparentam, mas, sim, que temos que “nos vestir bem” para termos mais acesso a tudo, inclusive a ajuda se estivermos passando mal. Mas isso não é política, não é mesmo?

Em suma, deixo claro que minha crítica não é à yoga, seus praticantes, nem à espiritualidade e suas práticas. A crítica é à acriticidade. Ao uso da espiritualidade por fundamentalistas, autoritários, preconceituosos e elitistas em geral. À postura indiferente perante a realidade material. À crença de que basta querermos, que teremos qualquer coisa. À negação das condições materiais de sobrevivência. À meritocracia econômico-espiritual. À positividade tóxica. À negação da luta de classes. À fantasia de que a espiritualidade prescinde de política. Sigam os caminhos espirituais que bem entenderem, façam as práticas que quiserem, mas sejam críticos. E não me venham falar as besteiras de que esses caminhos espirituais não têm ligação com política, ou que os miseráveis só o são porque querem. Tenham o mínimo de coerência e compaixão, “seres de luz”.

Jorge Vitral é físico, mestre em educação e é um dos fundadores editores do Portal Autônomo de Ciências.

[1] DARDOT, P.; LAVAL, C.. A nova razão do mundo. Boitempo editorial, 2017. p. 324.

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