FASCISMO, TELEVISÃO, REPRESSÃO SEXUAL

Há uma frase famosa, de um escritor famoso, que diz que tudo na história se dá duas vezes: uma vez como tragédia, outra como comédia.
Queria eu acreditar que a volta do fascismo, nas mãos de Joerg Haider, na Áustria, e Berlusconi, na Itália, fosse comédia. Só é comédia mesmo para o povo brasileiro, que de tão acostumado a ver corruptos notórios eternizando-se no poder, pensou que isto era exclusividade nossa.

Não se trata aqui, porém, de corruptos ou honestos, mas de fascistas. Fascistas que pensávamos pertencer ao passado e hoje voltam a se fazer presentes. De quem é a culpa disto? Vejamos.

Nos inícios dos anos 30, anos posteriores à crise do capitalismo de 29, o fascismo tomou fôlego e cresceu como nunca antes um partido havia o feito. Isto é um indício do rolo em que estamos. A ascensão do fascismo outrora se deu conjuntamente com uma crise capitalista. Não há porque
pensar que não estamos a caminho de uma crise destas. Mas... a contrario senso, não são as crises capitalistas o fogo que a esquerda precisa para fazer uma revolução? Exatamente. E porque o povo não toma o rumo revolucionário, ao invés de cair num ultraconservadorismo à la Adolf Hitler? É muito fácil responder: o povo prefere Hitler ao
socialismo. O povo teme a revolta.

O conservadorismo do povo tem causas muito distantes de onde procura um marxista vulgar. Não é no grande Marx, autor da frase citada, que vai se achar a resposta. Mas em Freud. O burguesão Freud criou uma ciência que abstraiu grande parte do comportamento humano à repressão sexual.

Não foi grande trabalho para o genial Wilhelm Reich, em 1933, unir o marxismo à psicanálise e ver que a causa do conservadorismo do povo não está diretamente ligado às bases materiais produtivas.

Vejamos sua teoria em resumo. Os instintos básicos do homem se dividem em duas categorias: necessidades alimentares e necessidades sexuais. Os dois instintos têm conseqüências diferentes ao serem obstruídos no homem. A fome, ao alojar-se, leva à revolta. Mas e a repressão sexual? É exatamente o contrário: leva à resignação.

A família é o instrumento para ser efetivada a repressão sexual que a sociedade tanto precisa para manter a ordem. Reprimindo a sexualidade, a criança aprende os princípios da autoridade, e da religião, que acabam por acompanhá-la, dependendo das circunstâncias, até o fim da vida. A energia sexual, reprimida, lança-se toda para o interior inconsciente do homem, trazendo-o a culpa, o pecado, e, por
conseguinte, a submissão.

Numa situação de crise econômica, desemprego, e violência, vê-se as massas sob desespero. A figura de um líder, que prometa moralidade, punhos firmes, expulsão de raças inferiores, com toda a masculinidade que se exija de um pai, tem efeito fulminante nas massas. As massas reprimidas precisam de pai. Ponto.

Com o controle da mídia, os fascistas podem ainda mais: eles anulam a voz da oposição; esta passa a ser mal vista, pois todo o impulso das massas foi canalizada em adoração ao líder (ou líderes), e nada pode questioná-lo.

É graças a isto que surgiu e ressurge o fascismo. As formas de repressão sexual se dão hoje muito mais sutis, porém, com trabalho intenso da mídia. Não é o mais o sexo pecado, pois a TV não pode negar a liberdade sexual provinda dos anos 60. É tudo uma questão de sutileza. De que formas se pode reprimir a sexualidade nos dias de hoje?

1) O culto ao corpo perfeito. Há pessoas que entram em depressão por não o ter. Como se o orgasmo de dois gordos fosse diferente de o de dois top-models.

2) Retorno de valores superados: casamento, proibição do aborto, virgindade.

3) Retorno à submissão da mulher ("mulher objeto", "cachorra" em contraponto à dona de casa honrada e escrava). Não passa em discussão a presença da mulher livre e dona de seu sexo.

Há muitos outros exemplos não citados.
(Este texto foi publicado no Jornal DCE-UFSC de junho de 2001)