Num livro famoso do historiador inglês Eric Hobsbawn, o século que terminou é chamado de "o curto século XX" e é definido como o período entre o ciclo de 1914-1917 (da primeira guerra mundial até a revolução russa) e a queda do muro de Berlim (1990). O século é assim o período definido pela força do movimento operário e pela existência de regimes "socialistas". O sociólogo francês Edgar Morin complementou a periodização de Hobsbawn e disse que se o século XX terminou com a queda do muro, o século XXI começou com Seattle.

Mas o que é exatamente que aconteceu em Seattle. E que movimento é esse que produziu esse acontecimento? Não sabemos sequer o nome que podemos lhe dar. Talvez o termo cunhado pela imprensa, "movimento anti-globalização", ou ainda, um mais preciso, "movimento contra a globalização econômica". Podemos também seguir outros caminhos, "movimento de resistência global" ou ainda, "movimento anti-capitalista". Mas, como eu espero deixar claro, nenhum desses ou qualquer outro nome é suficiente para dar conta da sua pluralidade e complexidade. Esse movimento múltiplo, de estruturas soltas, fronteiras sobrepostas e alianças temporárias, não consegue se deixar apreender por definições simples. O que ele permite e eu vou tentar fazer aqui são algumas aproximações. Vou fazê-las a partir de três perguntas: "Quem compõe esse movimento?"; "Quais são suas origens?" e "Qual é a sua orientação ideológica?"

Quem compõe esse movimento?

Se nos atermos, inicialmente, ao evento que inaugura "simbolicamente" o movimento, os protestos contra a Organização Mundial do Comércio, em Seattle, em novembro de 1999, podemos oferecer uma primeira resposta. No segundo semestre do ano de 1999, começou a ficar claro para muitas pessoas que freqüentavam a esquerda americana que algo grande iria acontecer durante a "rodada do milênio" da OMC, a ousada rodada de negociações que prometia impulsionar a liberalização comercial para o novo milênio. Há uma certa leitura parcial e interessada sobre Seattle, que aponta uma ampla e sólida coalizão de ONGs, grupos de ação direta e sindicatos produzindo o malogro da reunião. Essa leitura me parece parcial, porque, de tudo quanto li e do que ouvi de pessoas chaves, o que aconteceu em Seattle foi mais uma organização simultânea de protestos do que uma verdadeira coalizão, no sentido de uma articulação efetiva dessas três "esferas". De fato, muitas ONGs como a Public Citizen e a Global Exchange iniciaram uma campanha mais ou menos articulada contra as políticas da OMC. Da mesma forma, os sindicatos, principalmente aqueles vinculados a AFL-CIO, a federação sindical "liberal" (liberal, no sentido americano, "de esquerda"), também prepararam com antecedência uma série de ações de lobby e protestos - inclusive em escala internacional. Finalmente, também os grupos de jovens de ação direta que atuavam em diversas frentes, mas, sobretudo no movimento ecológico, começaram a se reunir numa rede que chamaram de DAN (Rede de Ação Direta). Um pouco como dissidência das táticas de ação direta da DAN (bloqueios estritamente não-violentos) um outro grupo de ação direta foi formado, o Black Bloc, voltado para táticas de destruição de propriedade de grandes empresas. Mas, após um longo e desgastante debate, essas duas vertentes dos grupos de ação direta aprenderam a coexistir pela idéia de "diversidade de táticas". Talvez o maior mérito de Seattle tenha sido permitir que essas três esferas se articulassem internamente e se reunissem cada qual em função de interpretações gerais do que acreditavam ser os males causados pela OMC.

Foi a simultaneidade dessas três iniciativas que deu força ao movimento. Com os números e a força política trazida pelos sindicatos, com os lobbies e os dados fornecidos pelas ONGs, que há anos vinham estudando os impactos das políticas neoliberais e com um surpreendente movimento de ação direta que bloqueou as ruas de Seattle, impedindo o tráfego dos delegados, conseguiu-se um clima político que possibilitou que as demandas de alguns países do terceiro mundo que eram contra as medidas ultra-liberais da OMC fossem ouvidas. Esse foi o cenário do fracasso da rodada do milênio.

Mas essa primeira aproximação da composição do movimento não é suficiente. Em primeiro lugar, porque ela parece separar muito essas esferas de atuação que, na verdade, têm vários pontos de contato uma com as outras. Muitas ONGs têm contatos mais ou menos próximos com os movimentos e grupos de ação direta. Muitos dos membros dos movimentos de ação direta trabalham profissionalmente para ONGs e boa parte do material informativo que esses movimentos utilizam vem dessas ONGs. E para pegar um caso extremo, onde as fronteiras se diluem, existem ONGs como a Ruckus Society que se dedicam a preparar e treinar ativistas de ação direta. As relações entre os sindicatos e as ONGs são talvez mais evidentes. Muitas ONGs são diretamente financiadas pelos sindicatos e produzem para eles relatórios sobre os impactos das políticas neoliberais no âmbito das relações trabalhistas. Finalmente, há também relações variantes entre os sindicatos e os movimentos de ação direta. Em Seattle, apenas um reduzido número de sindicalistas jovens participou das ações de bloqueio e esses jovens trabalhadores eram em sua maioria dos sindicatos pequenos e radicais como a IWW. No entanto, após Seattle, houve um intenso esforço dos ativistas de ação direta de se aproximar dos trabalhadores e de "radicalizá-los". Durante o ano seguinte, esse foi talvez a principal ambição da DAN. Até onde sei, essa tentativa não teve muitos resultados. Claro, estamos aqui falando dos Estados Unidos. Se sairmos dos Estados Unidos, os sindicatos são em geral bem mais combativos. E em muitos países, como a Itália (COBAS), a Suécia (SAC) e a Espanha (CGT e CNT), há um sindicalismo radical de base mais significativo que têm vínculos muito mais estreitos com os movimentos de ação direta dos jovens.

Mas mesmo com essas ressalvas, a primeira aproximação é insuficiente. Nos Estados Unidos mesmo, temos formas de mobilização importantes que não estão contempladas naquela divisão. Existe uma verdadeira cultura do "ativismo de campanha". É uma cultura de campanhas, tocada por jovens, fundamentalmente estudantes, muito voltada para petições e abaixo-assinados, lobbies e à divulgação de informação (realização de debates nos campi e produção de material impresso informativo). Se sairmos dos Estados Unidos encontramos ainda outras formas de atuação. Na França, por exemplo, existe um forte movimento chamado ATTAC que não é, evidentemente, um grupo de ação direta, mas também não é uma ONG, no sentido próprio de uma organização civil que produz serviços (seja a produção de relatórios, seja o atendimento a comunidades). A ATTAC é uma espécie de rede de conscientização e mobilização civil que nasceu buscando contestar e regulamentar a especulação financeira. Ela é muito forte na França, onde nasceu, ao ponto de ser considerada lá a porta-voz "oficial" do movimento anti-globalização. Em outros países, são fundamentais na luta contra a "globalização" os movimentos sociais, principalmente os movimentos de camponeses, como o MST, no Brasil ou a Confederação Camponesa de Bové, na França ou ainda os agricultores Karnakata da India. Há ainda, em muitos países, principalmente latino-americanos, um movimento de partidos políticos de contestação do "neoliberalismo". E assim que colocamos toda essa diversidade, vemos que as fronteiras das distinções ficam ainda menos nítidas e os pontos de contato multiplicam-se e sobrepõem-se. Para dar alguns exemplos, quando os partidos políticos entram na composição do movimento em alguns países, há uma aliança quase que imediata com os grandes sindicatos que ainda hoje são quase todos dominados por correntes partidárias. Isso também acontece com os movimentos sociais, ainda que numa medida menor. Mas também há vários pontos de contato entre alguns movimentos sociais e os grupos de ação direta. Movimentos camponeses que fazem uso da ação direta como o MST, que promove ocupações ou os agricultores Karnakata, que queimam campos de transgênicos, têm mais do que apenas a admiração dos grupos e dos movimentos de ação direta dos jovens urbanos. Durante um momento, de 1998 a 2000, mais ou menos, antes da consolidação da Via Camponesa (rede internacional de articulação dos movimentos camponeses), tantos os grupos de ação direta dos jovens urbanos quanto alguns dos movimentos radicais camponeses, estiveram articulados numa rede mundial chamada AGP, a Ação Global dos Povos. No entanto, com a consolidação de uma rede exclusivamente camponesa, os movimentos rurais passaram a dar prioridade a ela, sem deixar totalmente de participar da articulação mais ampla.

Qual é a origem desse movimento?

Quando aconteceram os protestos de Québec, os muros da cidade diziam: "Não começou em Seattle, não vai terminar em Québec". Tudo bem. Seattle foi apenas a vitrine do movimento. Foi a grande explosão de visibilidade midiática, mas também a primeira grande vitória. Foi preciso anos de mobilização intensiva nos anos 60 para se conseguir o fim da guerra do Vietnã. Agora, no século XXI, o movimento começou com uma vitória. Como diziam os muros de Seattle, "Estamos vencendo!" Mas quais são as origens dessa vitória?

Bem, cada um dos diversos grupos que compõem o movimento reivindicará sua própria resposta. As ONGs e a ATTAC, por exemplo, provavelmente traçam a origem recente do movimento na grande mobilização mundial que levou ao abandono do AMI, o Acordo Multilateral de Investimento. O AMI foi um acordo discutido no seio da OCDE (grupo dos países mais desenvolvidos) que daria garantias supranacionais a investidores estrangeiros que vissem seus investimentos ameaçados por uma legislação nacional. Isso permitiria que investidores impedissem a aprovação de leis que ameaçassem seus investimentos, como acontece hoje no NAFTA. Então, em 1998, uma grande mobilização mundial começou a combater o acordo e a pressão internacional levou ao seu abandono. A campanha internacional foi uma iniciativa fundamentalmente das ONGs e, na França, foi uma das coisas que projetou a ATTAC, um movimento civil idealizado pelos fundadores do jornal francês Le Monde Diplomatique contra a especulação financeira e a favor de uma taxação internacional, a Taxa Tobin. Apesar disso, a campanha contra o AMI também teve alguma participação dos grupos de ação direta. Em Québec, por exemplo, onde a OCDE se reuniu para discutir o AMI, um grupo de desobediência civil não violenta foi fundado especificamente para combatê-lo, o SALAMI, grupo que permanece até hoje, tendo sido ativo durante os protestos de Québec em 2001.

Do estrito ponto de vista das origens da sua influência, talvez as ONGs tracem a história de sua ascensão a partir do encontro Rio 92, um encontro mundial de chefes de Estado, promovido pela ONU, para discutir os problemas ecológicos do planeta. As ONGs tiveram um boom em meados dos anos 80, quando passaram a assumir uma série de tarefas vacantes deixadas tanto pelo Estado, quanto pelos sindicatos, depois do furacão ultra-liberal da era Tatcher-Reagan. Mas foi apenas no encontro paralelo de ONGs durante a Rio 92 que elas se firmaram definitivamente como representantes informais da sociedade civil e demonstraram toda a força de seu lobby pela influência que exerciam sobre a opinião pública mundial.

O que chamei de forma desajeitada de "ativismo de campanha" tem também uma história recente importante. Durante os anos 90, ganhou impulso, nos campi americanos, um movimento contra as más condições de trabalho, as "sweat shops". Grandes campanhas tentaram cancelar ou substituir os contratos das universidades com empresas do setor de vestuário que fabricavam camisetas e moletons nos países do terceiro mundo em fábricas com péssimas condições de trabalho. Diversos comitês contra as sweat shops se espalharam nas universidades e serviram de base de mobilização para Seattle e depois Washington e os outros protestos.

A história que os diferentes grupos e movimentos de ação direta reivindicam é, por sua vez, bastante múltipla e plural. O movimento de cada país tem a sua história específica. Em comum, apenas a participação de um grande número de estudantes e uma cultura ativista de origem hippie ou punk consolidada nos anos 70 e 80.

Nos Estados Unidos, a origem do movimento está em primeiro lugar no movimento ecológico e anti-nuclear que se desenvolveu nos anos 70 e foi o responsável por grandes campanhas contra usinas nucleares. Foi lá que o movimento adquiriu os contornos que veremos em Seattle: a ênfase na decisão por consenso em oposição ao voto por maioria, a organização por grupos de afinidade (prática recuperada da organização anarquista durante a guerra civil espanhola) e a prática da desobediência civil estritamente não violenta. Na Itália e na Alemanha, as origens do movimento estão na Autonomia, um conjunto de correntes e práticas desenvolvidas nos anos 70 e 80 a partir do movimento estudantil radical e apartidário (extra-parlamentar, na tradição alemã), do movimento feminista, do movimento das ocupações urbanas de jovens e do movimento operário de base e de ação direta (principalmente na Itália). É no seio da Autonomia que práticas como a de um "bloco negro" se desenvolvem, um grupo de militantes radicais que garante proteção durante as manifestações. É também nela que o uso de capacetes e escudos durante manifestações, prática adotada pelos Macacões Brancos italianos se popularizam. A autonomia é a responsável por grandes mobilizações nos anos 80 contra as usinas nucleares e mesmo contra os organismos financeiros internacionais. Pouca gente sabe, mas em 1988, mais de dez anos antes de Seattle, os autonomistas alemães reuniram mais de 75 mil pessoas em Berlim para bloquear com ação direta e desobediência civil uma reunião do FMI e do Banco Mundial. Finalmente, na Inglaterra também se desenvolve um movimento autônomo de ação direta. É um movimento que também inclui as ocupações urbanas de jovens e o movimento ecológico, mas tem uma participação particularmente importante de grupos dos direitos dos animais. É desse ativismo ecologista que nasce o Reclaim the Streets, nos anos 90, um movimento que promove raves de rua como forma de desobediência civil. Juntos, o movimento de ação direta dos jovens nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha e na Itália forjaram as principais variantes do ativismo de ação direta no mundo: a desobediência civil voltada para bloqueios estritamente não violentos, o Bloco Negro, as táticas de "enfrentamento não violento" dos macacões brancos e as festas de rua.

Em vários outros lugares do mundo os movimentos de ação direta dos jovens adotaram essas práticas ainda que a origem dos seus movimentos seja diversa. Na Argentina e no Brasil, por exemplo, os movimentos de jovens independentes e autônomos só se consolidaram nos anos 90, fruto da definitiva politização do movimento punk no final dos anos 80 e de práticas autogestionárias no movimento estudantil que se espalharam nos anos 80 e 90. Em 1999, na Argentina, um movimento de jovens desafiou os tabus da política institucional promovendo o absenteísmo em massa, num movimento que ficou conhecido como 501. Segundo a legislação eleitoral argentina, para não votar justificadamente era preciso estar em viagem a mais de 500 quilômetros do domicílio eleitoral. Assim, os jovens de Buenos Aires promoveram caravanas para viajar 501 quilômetros, com o mote "existe política além do voto". Foram esses jovens que começaram o movimento "anti-globalização" na Argentina em meados do ano 2000. Da mesma forma que foi basicamente uma coalizão de grupos anarquistas, punks e de estudantes independentes quem, na mesma época, promoveu as primeiras manifestações contra a globalização econômica no Brasil.

Boa parte desses movimentos de ação direta dos jovens urbanos estava presente no segundo encontro interplanetário contra o neoliberalismo promovido pelos zapatistas em Barcelona, em 1997. Lá, esses grupos reuniram-se com movimentos camponeses e indígenas como os próprios zapatistas e o MST para fundar uma rede global contra o livre-comércio. Era a Ação Global dos Povos. Na primeira reunião, na Suíça, optou-se por uma nova forma de atuação, os dias de ação global. Seriam dias onde protestos simultâneos em diversas cidades do mundo dariam força e forma efetivamente mundial à resistência contra a globalização econômica. O primeiro dia de ação global efetivo foi o J18, o 18 de Junho de 1999, onde várias manifestações aconteceram pelo mundo, entre elas, um gigantesco bloqueio no centro financeiro de Londres que resultou em enormes prejuízos e dezenas de presos. De forma que se os movimentos de ação direta tivessem que dar uma data específica recente para a origem das mobilizações, eles provavelmente optariam pelo J18.

Eu vou me abster aqui de falar dos outros grupos, como os sindicatos e os partidos, porque me parece que se eles forem tentar escrever a história do movimento, eles provavelmente apenas repetirão o senso comum de que tudo começou em Seattle. E de fato, para os grandes sindicatos foi uma verdadeira surpresa perceber em Seattle que eles ainda tinham um alto poder de pressão e mobilização - em outras palavras, que eles ainda não tinham morrido.

Por último gostaria de mencionar os movimentos, sobretudo os movimentos indígenas e camponeses. Eu os deixei por último, deliberadamente, porque a história que eles vão contar é a única que quase todos os diferentes atores desse movimento plural não hesitarão em partilhar. Como todos sabem, em 1994, no dia em que o NAFTA, o Tratado de Livre-Comércio da América do Norte entrou em vigor, aconteceu um inesperado levante de indígenas na região de Chiapas, no México. Tudo o que se passava e daí em diante se passou em Chiapas foi de tamanha inspiração para o mundo que embora infinitamente inferiores militarmente ao exército nacional, o governo mexicano nunca teve coragem de comprar as conseqüências de um ataque militar massivo na região. Esse levante dos mais oprimidos e necessitados, com práticas exemplares de democracia direta, igualdade entre os gêneros e autonomia, inspiraram a esquerda em todo o mundo. Quase que imediatamente e espontaneamente, comitês de solidariedade aos zapatistas se espalharam pelos quatro cantos. Se um evento realmente merece aparecer como pioneiro do "movimento anti-globalização" esse evento foi o levante zapatista.

Qual é a orientação ideológica desse movimento?

Num artigo de grande repercussão publicado na Monthly Review, a historiadora Barbara Epstein fala da forte influência das idéias anarquistas no movimento anti-globalização. Claro, ela está se referindo especificamente aos Estados Unidos e ao movimento de ação direta e o que estou chamando de "ativismo de campanha". Hoje, nos Estados Unidos, a "comunidade" de ativistas radicais é formada por pessoas que normalmente se definem como anarquistas. Claro, não se trata de um anarquismo clássico, mas de um anarquismo difuso, baseado em idéias gerais de descentralização, democracia direta e decisão por consenso e uma desconfiança generalizada na autoridade. Há, é verdade, no seio dessa comunidade, um núcleo duro de anarquistas revolucionários, mas eles são apenas uma parcela dos ativistas "anarquistas" (assim, com aspas). Na maior parte do mundo, é o anarquismo, enquanto filosofia geral, que inspira essas práticas de organização de base e ação direta e oferece identidade política para os grupos. No entanto, há lugares em que uma parte considerável do movimento é de origem marxista (caso da Itália) ou se define especificamente como autonomista (Itália, Alemanha, Holanda) em oposição aberta às formas clássicas do marxismo e do anarquismo revolucionários.

Saindo da esfera dos ativistas jovens, temos um universo ideológico igualmente frágil. Na verdade, o fim dos regimes ditos "socialistas" deixou muita gente sem rumo e há uma enorme dispersão e inconsistência ideológica na esquerda. Com a exceção dos grupos trotskistas e anarquistas revolucionários, a maior parte da "esquerda" que participa do movimento não tem uma ideologia clara definida. Em geral, tanto os sindicatos quanto as ONGs mais militantes têm referências teóricas marxistas vagas e dificilmente se encontra uma organização com ideologia marxista ortodoxa em qualquer das variantes do marxismo. Alguma ortodoxia ou coerência doutrinária só pode ser encontrada nos poucos grupos trotskistas que tem se envolvido no movimento e nos grupos anarquistas sindicais e revolucionários.

Mais uma vez, é no zapatismo que se encontram as novidades. Uma quantidade enorme de pessoas, seja nas ONGs, seja em movimentos como a ATTAC, seja em grupos anarquistas, seja em grupos marxistas ou autonomistas, se dizem também "zapatistas". Isso, evidentemente, pode e diz muita coisa diferente, mas começa-se a formar um certo horizonte amplo e genérico de consenso no movimento de que a nova sociedade que se quer deve ser uma sociedade horizontal, com práticas democráticas diretas e participativas, deve ser uma sociedade com justiça social, que tenha uma relação não predatória com o meio ambiente e onde haja o respeito a todas as diferenças. De que maneira se vai chegar a isso é algo em disputa. O "problema" do movimento – se isso é de fato um problema - não é que não existam ideologias e explicações de mundo consistentes, apenas que elas são muitas e não há a hegemonia de nenhuma delas como houve com o marxismo durante 70 anos. O debate entre reforma e revolução aparece ainda, mas há um certo deslocamento entre a realidade e os termos, porque, definitivamente, as ONGs e a ATTAC não são, nem correspondem, à social democracia do início do século e o Black Bloc, também, seguramente, não é a CNT espanhola. Talvez, mais uma vez, a rica experiência dos zapatistas, chamada simultaneamente de revolucionária pelos entusiastas e reformista pelos críticos, possa indicar o caminho de uma nova política para o século XXI.