Jammers vem de praticantes de jam (obstrução, congestionamento), mas jam numa gíria para " a prática ilegal de interromper transmissões de rádio ou conversas entre locutores canastrões com arrotos, obscenidades e outras provocações sem graça", como descreve o jornalista Mark Dery. Obstruidores, bagunceiros ou hackers da cultura, os culture jammers dão uma sacudida nos sentidos anestesiados das massas consumidoras, embriagadas hoje pelas técnicas de persuação, marketing, propaganda subliminar, controle e vigilância, como o panóptico estudado por Michel Foucault em Vigilar e Punir, o Grande Irmão de George Orwell, a Sociedade do Espetáculo de Guy Debord ou as Sociedades de Controle de que William Burroughs falava (chegando a propor uma tática de combate em The Eletronic Revolution) e que Deleuze e Guattari teorizaram numa filosofia libertária.

Usando técnicas e procedimentos da publicidade, do urbanismo, das logomarcas, dos signos urbanos, dos discursos dos meios de comunicação, da memória coletiva veiculada pela televisão e pelos jornais e rádios e meios eletrônicos de comunicação, os culture jammers efetuam colagens, apropriações, alterações de slogans, usos inesperados de lugares comuns da linguagem publicitária, interferências em produtos e brinquedos, cartazes, outdoors ou marcas, e reatualizam toda uma tradição, ou anti-tradição, de contestação e inconformismo, cujas manifestações na segunda metade do século vinte foram devidamente historiadas por Stewart Home no seu já clássico Assalto à cultura. Agora, no entanto, trata-se de um ataque de dentro do Espetáculo (no sentido que lhe dá Debord), de uma rebelião do imaginário frente à sua colonização pelo discurso das grandes corporações e dos meios de comunicação e produção cultural por elas controlados. Serão os "congestionadores da cultura" uma alternativa ao controle global das megacorporações? Para certos jornalistas e estudiosos da cultura contemporânea como Mark Dery e Naomi Klein, a resposta é sim.

Dery escreve para revistas como o Village Voice, Artbyte e Getting It e sua especialidade é cultura marginal, fringe, e experiências extremas neste nosso fim de milênio, em livros como Escape Velocity e Pyrothenic Insanitarium e particularmente no seu Culture Jamming : Hacking, Slashing and Snipping in the Empire of Signs (Congestionamento da Cultura : Hackeando, Retalhando e Tesourando no Império dos Signos), que se debruça sobre o fenômeno destes grupos que têm interferido com seus ruídos na nossa cultura midiatizada. O livreto é um verdadeiro apanhado de toda a cena jammer, com uma bibliografia e documentação acurada.

Naomi Klein causou rebuliço na imprensa pop e alternativa com seu livro No Logo (Sem Logo), um livro abertamente ativista, contra as megacorporações que colonizam os pensamentos e a diversão das pessoas. Tornou-se uma espécie de bíblia dos protestos anti-globalização. Klein consagra aos jammers as graças pelo desvelar do véu de ísis da mídia. Ao desconstruirem a cultura comercial e propagandística, os jammers permitem ver os limites em que os meios de comunicação nos confinam, os memes passados sem se perceber, a manipulação de nosso imaginário. Klein vê com bons olhos os que protestaram contra a OMC (Organização Mundial de Comércio) em Seattle e Washington, que organizaram barricadas ao som de tecno.

O clamor de Klein vai na mesma direção da TAZ de Hakim Bey ou das idéias de Abbie Hoffman ou Raoul Vaneigem nos anos 60. Definida como guerrilha semiótica por Umberto Eco, a tática dos bagunceiros bate de frente com a hipnose massificada. Nossa época não é nada inocente. Técnicas subliminares de persuação e controle mental são programadas pelos que detém o poder da propagação cultural vigente. Valores e condicionamentos de consumo são infiltrados a todo momento em nossas mentes bombardeadas de informações por todo lado. Os culture jammers tomam uma atitude frente a isso : Subverta a mídia, faça anti-propaganda.

Sublicitar, adulterar, congestionar, bagunçar, deturnar, plagiar, alterar. A interferência ou o ruído inesperado e transformador como o imaginava John Cage e Jacques Attali, ou o deturnamento dos situacionistas, a lógica plagiarista já presente em Baudelaire, Rimbaud e Lautréamont, que deu esse significado especial ao termo detournement : desvio, alteração, pilhagem, tergiversação ou apropriação, como é alternadamente traduzido em português. Em face da multiplicidade de palavras, optei pelo neologoismo deturnamento.

A tradição literária da apropriação desembocou no século vinte em autores como Brion Gysin e Willliam Burroughs e seus cut-ups, e, mais recentemente, no plagiarismo de Stewart Home, na escrita de Kathy Acker ou mesmo na mais deslavada jamming do grupo de escritoras feministas canadenses, as K/S Slashers, que escrevem ficção científica deturnando o subtexto sexual da série Star Trek ( K/S vem de Kirk/Spock) criando uma utopia pornô onde cyborgs transam entre si e Kirk e Spock são amantes assumidos.

A afirmativa de Debord em A Sociedade do Espetáculo de que "O plágio é necessário - O progresso o implica", é diretamente deturnada do Lautréamont dos Poémes. O próprio Sociedade é todo construido com deturnamentos. É contra a manipulação de nossos desejos que se faz a apropriação. O espetáculo determina nosso imaginário sem que o percebamos. Fazer o seu próprio espetáculo, ou antes, sampleá-lo, alterá-lo, deturná- lo talvez à busca de uma revelação como pretendia Burroughs com os cut-ups, talvez uma iniciação gnóstica como em The Matrix, assim mesmo subvertendo, transgredindo as regras do pensamento midiático.

Os culture jammers atuam em nosso inconsciente midiático coletivo metamorfoseando marcas em memes anarquistas e contraculturais, algo que você já deve ter visto sob outros ângulos em Eles vivem, de John Carpenter, ou num videoclip de George Michael. Tão pop quanto subversiva, o assalto à cultura midiática promovido pelos jammers tem atraído muita gente e há muitíssimos sites fazendo bagunça, parodiando marcas e grifes, ou cutapeando músicas, filmes, propagandas, discursos, notícias, memes, lugares comuns, títulos, arte, embalagens, banners. Puro agit-prop pop, derivado em ativismo eletrônico, impresso ou ação direta mesmo.

RTmark (www.rtmark.com) patrocina projetos alternativos de criadores e artistas que deturnem a linguagem e os aparatos tecnológocos da mídia vigente. Trangressão e projetos de risco é também a praia da revista Adbusters (www.adbusters.org), que defende a vandalização como arte e a anti propaganda como prática. Chamam a si mesmos uma espécie de QG dos culture jammers. Sua editora, Kalle Lasn, é autora do livro Culture Jam, obra básica sobre o tema. O Bilboard Liberation Front (www.billboardliberation.com) propõe o melhoramento de outdoors. O Detritus (www.detritus.net) é uma database de sampleadores musicais da mais variada afiliação e tem uma página chamada Rhizome que dá todas as conexões do que seria uma bibliografia, bandas, músicos, sites afins e fanzines relacionados à cena. A Enciclopédia de Culture Jamming (www.syntac.net/hoax/index.php) é instrutiva, anedótica e muito bem humorada, como aliás é a tônica dos jammers. A Barbie Liberation Organization (www.syntac.net/hoax/barbie.html) hackeia a voz da boneca Barbie com a voz do boneco Joe, para questionar noções preconcebidas de sexismo e violência. Para uma panorâmica de várias anti-propagandas nos mais diversos temas e campos, vale conhecer o Subvertise (www.subvertise.org). É incontável a quantidade de organizações, grupos e sites com propostas de culture-jamming e uma dose equivalente de bom humor.

Uma risada rabelaisiana está por trás disso tudo, essa risada desestabilizadora e carnavalesca que o crítico russo Mikhail Bakhtin via como revolucionária, ironia grotesca que se escutará igualmente na musica, como a banda Negativland deturnando o U2, nos Tape-Beatles, ou em John Oswald cutapeando música disco, "grandes sucessos" e Michael Jackson. Oswald é o criador da Plunderphonics, a furtofônica ou audiopirataria. O sampler é uma prática mais que comum na música pop e na experimental. Já foi objeto de culto secreto para Genesis P-Orridge, criador da música industrial e promotor de raves, e para os rappers é um instrumento de contestação ou de vendas fáceis, dependendo da intenção. O fato é que é difícil hoje em dia não escutar alguma música sem pelo menos um sampler de maquiagem. O próprio MP3, o DvX, o Napster e programas semelhantes de pirataria tanto audio quanto visual seriam apenas sintomas de algo muito maior.

Os jammers são por natureza anti-copyright é sua intenção é deixar às claras um mecanismo executado às escuras. A manipulação é definida por quem controla, e decidir quem manipula é hoje um ato político. O Critical Art Ensemble (www.critical-art.net) é um desses jammers abertamente políticos, mas naquele sentido do corpo político. O CAE é um grupo acadêmico que realiza ciberperfomances on-line para defender suas teses subversivas de fim do direito autoral e da nomadologia invisível. Apoiaram o movimento dos zapatistas em Chiapas, talvez a primeira rebelião eletrônica, pois inteiramente conectada pelos rebeldes. O CAE também publicou dois livros on-line o Eletronic Civil Desobedience em direta citação do clássico de Henry David Thoreau, e The Eletronic Disturbance (Publicado no Brasil como Distúrbio Eletrônico na coleção Baderna, da Conrad) . A linha de pensamento do CAE é também devedora de Hakim Bey e do conceito de TAZ, tanto quanto de Deleuze e Guattari.

No cinema, além dos filmes deturnados dos situacionistas e da produção de Anthony Balch (que já nos anos 60 filmava Burroughs em sequencias cutapeadas de caóticas assemblages visuais), um destaque atual é o cineasta underground Craig Baldwin, um apropriador de filmes B, educativos e noticiários dos anos 50, que antropofagiza tudo numa colagem pirada. Baldwin já passeou pelas teorias de conspiração, OVNIs e política imperialista em O No Coronado!, já retratou a cena musical dos culture jammers em Sonic Outlaws e seu último filme Specters of the Spectrum é uma colagem pirada de ficção científica trash numa história que levanta hipóteses polêmicas sobre a teoria da energia vital e as pesquisas, dentre outros, de Whilhelm Reich e Nikolas Tesla. Além de temas questionadores, os filmes de Baldwin bagunçam, cortam e colam toda uma memória desprezada da mídia no inconsciente coletivo. As colagens chapantes dos filmes de Martha Colburn, deturnando fotos e cenas da memória fotográfica cotidiana também fazem bagunça cultural.

Um filme que passou meio desapercebido nos cinemas e locadoras é A Vida em Preto e Branco (Pleasantville), que conta a história de dois jovens de hoje teleportados para uma série típica dos anos cinquenta e alterando completamente os clichês idealizados e inverossímeis da narrativa, o que resulta na introdução de novas cores no preto-e-branco e uma alteração do comportamento, da moral, do amor e do sexo. Pleasantville tem a capacidade de suspender nossa descrença através de uma transformação dos sentidos e significados que temos com relação a nossos valores e tudo (do desbunde à AIDS) que aconteceu após a assim chamada "revolução sexual". É com a História que o filme dialoga ao percebermos o quanto trouxeram todos os trangressores daqueles anos cinzentos, como os beats e depois os hippies e em que inferno puritano não nos veríamos trancados se vivêssemos como nossos avós. Pleasantville congestiona nossa noção de valores e aquela que nos é passada todo dia por novelas e programas de tevê como a ideal.

Se A Vida em Preto e Branco deturna a "utopia" televisiva e seus lugares comuns facilmente detectáveis, Os Surveillance Camera Players (Performáticos da Câmera de Vigilância) deturnam o panóptico, esse mecanismo do poder estudado por Michel Foucault em Vigiar e Punir e que cada vez mais nos cerca com a absoluta proliferação das câmeras de vigilância por ruas, bairros, edifícios, lojas e todos os lugares, de forma que talvez vivamos os estertores do que se podia chamar intimidade. Sorria, você está sempre sendo filmado. O sucesso de séries como Casa dos Artistas e Big Brother nos diz que talvez estejamos mesmo chegando à era prefigurada por Orwell, mas em forma de entretimento, de audiência massificada, como o simulacro narcótico de Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo .

O outro lado da moeda, a segurança e a homogeneização do comportamento que é imposto pela presença das câmeras de vigilância pode chegar muito em breve à sua mais efetiva aplicação. Segundo a New Scientist de Dezembro de 1999, um sofisticado sistema de segurança visual vem sendo desenvolvido por pesquisadores ingleses, o CCTV, que trabalha detectando qualquer comportamento desviante do âmbito normal de comportamento humano, com a finalidade de prever crimes. Este Show de Truman em que todos estamos possivelmente entrando é subitamente bagunçado pelos Performáticos da Câmera de Vigilância, que fazem happenings e encenam peças de Genet ou Artaud em shopping centers ou lojas de conveniência, quebrando etiquetas e rotinas comerciais. Os Performáticos são neo-situacionistas assumidos e deturnam a realidade mediada de nosso tempo com arte transgressiva e utópica.

O "desregramento dos sentidos" que os jammers propôem bagunça o pragmatismo narrativo da cultura corporativista que nos domina, seu discurso e sua política. Esses "novos radicais", como chamou recentemente a revista New Yorker, estão cada vez mais tomando a forma de um movimento, como bastiões de uma renascente contracultura de artistas, ironistas, viajantes do mundo e da rede. Foi sob esse enfoque de uma nova boemia ativista que o jornalista Clive Thompson da RAYGUN (jun/2000) retratou a cena por trás dos protestos de Seattle e Washington D.C., movidos a música e totalmente anti- globalização.

O Global Exchange, uma entidade baseada em San Francisco e um dos principais grupos fomentadores dos protestos, tem como objetivos nada menos que: "democratizar" o mercado; humilhar grandes marcas em respeito a direitos (normalmente violados) do trabalho; e cancelar a dívida do Terceiro Mundo. Como você pode ver, há muita coisa dos jammers que pode ter interesse direto para nós, brasileiros.

Como diz Juliette Beck, do GE, "o poder corporativo é a questão de nossa geração". As adesões tem crescido em escala geométrica após os incidentes de Seattle. Agora, usando táticas de ação nômades e pacíficas, os grupos autônomos se comunicam por celulares numa estratégia descentralizada para despistar as tropas de choque. São pequenos grupos unidos via web por todo o país - culture jammers, ambientalistas, grupos de luta do direitos dos índios, anarquistas, como informa a RAYGUN.

O grupo de Juliette Beck traz de volta o protesto para a cultura, encenando toda noite, no "QG" do Global Exchange, teatro político, leituras, piadas e música. Essa atitude carnavalizada, se assim podemos dizer, tem estreita afinidade com o potlach situacionista ou a TAZ de Hakim Bey.

Mas a culture jamming chegou também à arena dos direitos civis. Sob o lema "Ninguém é ilegal", um grupo de artistas e ativistas durante a Documenta de 97 decidiu criar um festival alternativo, uma TAZ, para expressar sua indignação em relação à situação de terra de ninguém vivida por imigrantes nos EUA e na Europa. A coisa tomou corpo, gerando a filosofia dos borderhackers ( Hackers de fronteira, que se reúnem em festivais como o Borderhack em Tijuana, fornteira do México com os EUA), que olha para os excluídos, dá a eles uma voz global, e procura penetrar, explorar e comprender um sistema mundial desigual, para então tentar mudar suas devastadoras consequências, como acredita Alex Burns, do Disinformation (www.disinfo.com).

As tão variadas facetas do Culture Jamming só comprovam o paradoxo de sua viabilidade prática e anseio utópico. O vasto escopo das apropriações, colagens, samplers, até chegar na vida real, reflete a mesma aspiração de utopia detectada por Stewart Home nos movimentos artísticos "obscuros" do pós- guerra.

O libertarianismo boêmio, o nomadismo, o plágio como prática artística e cultural, a pirataria e a desobediência civil talvez sejam nada mais que sintomas de uma época onde os interesses neo-liberais e globalizantes (ditados pelas megacorporações e o FMI) manipulam nosso imaginário sem, no entanto, conseguirem responder pelos desejos de uma sociedade verdadeiramente livre e igualitária. Os culture jammers representariam, então, nada mais que os ruídos, as interferências, as vozes dissonantes do coro hipnotizado das maiorias silenciosas.

Julho de 2000