"L'antiaméricanisme, pour sa part, repose sur une vision totalisant, sinon totalitaire,
dont l'aveuglement passionnel se reconnaît (...) au sens que donne à ce mot Littré : "vaine image que l'on croit voir, par peur, par rêve, par folie, par superstition" .
Jean-François Revel, L'Obsession Anti-Américaine, Plon, 2002

Jean-François Revel publicou recentemente uma análise admirável acerca de um dos fenômenos mais paradoxais da nossa contemporaneidade. Indiscutivelmente, constata-se que aquilo que, nos últimos anos, era uma vaga posição ideológica contextualizada na lógica da guerra-fria, transformou-se numa questão fundamental do discurso político, assumindo-se como um dado adquirido, indisputado, para uma franja surpreendentemente larga da opinião política.

É verdade que a partir do momento em que os Estados Unidos se tornaram na única hiper-potência mundial têm todas as probabilidades de verem centrados em si os medos, os ódios e as responsabilidades por tudo o que não corre bem, por parte do resto da humanidade. Mas, também, não deixa de ser inquietante o simplismo com que lhes são imputados todos os males, particularmente por uma certa opinião ocidental que padece de uma memória excessivamente débil. São as manifestações anti-globalização que se transformaram em exercícios de anti-americanismo desenfreado. As tentativas de "compreender" as causas "sociais e económicas"(!?) do terrorismo internacional. O piedoso horror com que se encaram os esforços americanos em se protegerem das agressões terroristas, ignorando que, desta forma, todo o mundo ocidental estaria a ser defendido reflexamente. Os absurdos que se afirmam a propósito das consequências do sistema capitalista. As solidariedades incongruentes com aqueles cuja maior ambição é aniquilarem a nossa forma de encarar o mundo e a vida. Para essas pessoas, como afirma Revel, "os americanos não fazem nada que não sejam erros, tudo o que cometem são crimes, tudo o que proferem são disparates, são culpados de todos os reveses, de todas as injustiças e de todas as amarguras do resto da humanidade".

A reflexão quanto às razões por detrás das razões deste anti-americanismo compulsivo deve ser feita urgentemente, quanto mais não seja por intuitos de sarar uma chaga que ameaça alastrar até níveis realmente perigosos. Obviamente, devemos desconsiderar as manifestações anti-americanas nos países muçulmanos, dado que raríssimos possuem um regime democrático com liberdades de expressão e manifestação. Mas, principalmente se nos colocarmos no prisma europeu, existem factores geracionais e emocionais que não podem deixar de ser tidos em conta. A actual versão do anti-americanismo, anti-globalização, anti-comércio livre, anti-capitalismo, possui tonalidades típicas de uma última causa daquelas gerações que se criaram num ambiente cultural de esquerda, que ambicionavam construir um mundo novo, com um homem novo, por volta dos anos 50 e 60 do século passado. Agora que essas gerações estão no poder em todo o lado, verificam que nenhum dos propósitos porque fizeram barricadas e tanto lutaram se efectivou. Quase tudo em que acreditavam se desmoronou perante o choque com a realidade da natureza das coisas e dos homens. Este anti-americanismo revela-se como uma reserva de ilusão política e social para aqueles que há muito se desiludiram consigo próprios. É quase uma fonte de juventude emocional para os que se sentem perdidos e derrotados ao verem o tremendo êxito das ideias que tanto combateram. É uma verdadeira escapatória redentora que permite almejar aos que dela enfermam que, afinal, as suas lutas de juventude não foram um tempo assim tão inutilmente perdido.

Não é de desconsiderar, ainda, a inveja latente em relação a um sistema político, económico e social, que provou resultar melhor do que os outros, apesar dos muitos que insistem em o denegrir. Mas é preciso fazer uma separação de águas - de facto, a obsessão anti-americana não é compartilhada pelo homem da rua, nem mesmo em França como demonstra Revel. Cá e lá, é sobretudo uma pseudo-elite dirigente e opinativa que não consegue perdoar à América o seu inequívoco sucesso, acompanhados de perto pelo frentismo radical dos que estão sempre descontentes com o que se passa, aconteça o que acontecer.