?Muito além do cidadão Kane?, o documentário de Simon Hartog sobre a Rede Globo para a TV britânica está completando 10 anos. Por mais incrível que pareça, continua proibido para aqueles que seriam os principais interessados: os telespectadores brasileiros. Apesar de todas as mudanças em nosso país, o último trabalho de um grande documentarista permanece refém de artifícios jurídicos. Simon Hartog cometeu a ousadia de dirigir seu olhar sobre a nossa televisão e, no Brasil, é muito perigoso mexer com os interesses dos poderosos. A justiça se tornou desculpa para ?censura?. Em contrapartida, criou-se uma grande rede de vídeos piratas, que se encarrega de divulgar de todas as maneiras possíveis o documentário mais proibido do Brasil. Mais uma forma de resistência da guerrilha tecnológica pela Internet. O vídeo costumava ser acessado no site de militantes como o Antenor Camargo Neto, mas, infelizmente, o provedor está temporariamente ?fora do ar?. Mistérios da Internet.

Na época, tive o privilégio de conhecer o Simon Hartog no Brasil. Ela já era considerado um dos mais polêmicos diretores da velha escola britânica de documentários. Pude participar, muito discretamente, da produção e, sinceramente, já previa os problemas. Simon Hartog fazia parte de um grupo de cineastas europeus de avantgarde e de esquerda, que se reuniam na London Coop. Todos estavam envolvidos com a produção de filmes considerados ?sensíveis?. Anos antes de produzir Beyond Citizen Kane, ele já tinha visitado nosso país e realizado "Brazil: Cinema, Sex and the Generals", sobre a produção de ?pornochanchadas? durante o período da ditadura.

Sua própria imagem ainda guardava os resquícios de uma cirurgia seriíssima no cérebro. Era impossível desviar o olhar de uma enorme cicatriz. Parecia envelhecido, cansado ou doente, mas determinado a concluir, de qualquer maneira, o que viria a ser seu último filme. Era um homem com uma missão. Ele me impressionou muito pela seriedade e profissionalismo com que se dedicava a um projeto tão complexo e polêmico. Apesar de acreditar no documentário, tinha sérias dúvidas se conseguiria realizá-lo sem as imprescindíveis autorizações globais. Sou testemunha de que ele bem que tentou obtê-las. Solicitou por escrito todas as imagens e as entrevistas necessárias para a produção do documentário e, obviamente, tudo lhe foi negado pela direção da Globo. Sempre digo que fazer jornalismo investigativo ou usar câmeras ocultas no Brasil é bom para os outros ou para os nossos inimigos!

Em conversas pessoais durante os intervalos das gravações, ele sempre demonstrou muita surpresa por nós brasileiros não termos jamais produzido um documentário sobre o poder da Globo. E eu pensava com os meus botões: ?quanta ingenuidade!. Deve ser produto de democracia madura em país com TV pública forte e independente!". Hoje, no caso da guerra do Iraque, o governo Blair bem sabe o que significa enfrentar o poder do jornalismo de uma TV pública ou independente como a BBC.

Mas o futuro e a Globo garantiriam muitas dores de cabeça e outras "cicatrizes" para o velho Hartog. Os advogados da empresa tentaram durante longos meses impedir a exibição do documentário na Inglaterra e em qualquer país do mundo. Mas Hartog era um homem com uma missão e não se intimidou com as negativas da Globo. Muito pelo contrário. Ele buscou e encontrou as soluções consideradas ?alternativas? para ilustrar o seu documentário. De qualquer maneira, os advogados da empresa fracassaram e o documentário foi exibido pela primeira vez, com muito sucesso em 10 de março de 1993.

Mas aqui no Brasil, tudo seria diferente. A Globo venceu na justiça e o público brasileiro perdeu. Apesar de algumas tentativas esporádicas, continuamos reféns de sutilezas legais que nos impedem de ver o único documentário produzido sobre o poder da Rede Globo. Estamos impedidos de assistir a depoimentos brilhantes de personalidades como Chico Buarque, Leonel Brizola e Washington Olivetto, e tantos outros que conheceram na pele o poder da Globo.

Em tempos de promessas de mudanças, com a Globo apoiando as reformas do governo Lula e precisando muito da boa vontade do governo e de muito dinheiro público para evitar a falência, também seria bom lembrar ao dirigentes do partido no poder, uma pequena notícia publicada no jornal O Estado de S.Paulo de 09/06/1993. Recordar é viver:

"PT mostra na Câmara documentário da TV inglesa sobre a Globo
(Brasília, 9/6/93). A fita de vídeo "Brasil: Além do Cidadão Kane", documentário produzido pela televisão inglesa "Channel Four" sobre a Rede Globo, foi exibida hoje no espaço cultural da Câmara dos Deputados para uma platéia formada por políticos e jornalistas. A sessão foi promovida pelo PT e o deputado Luiz Gushiken (PT-SP), que conseguiu a fita na Inglaterra e encaminhou hoje uma cópia do programa para a Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara.
Com base no documentário, que denuncia as ligações da Globo com os militares, Gushiken vai encaminhar uma representação à Procuradoria-Geral da República para que a emissora do empresário Roberto Marinho seja enquadrada no artigo 220 da Constituição, por formação de monopólio e oligopólio..."

É, o mundo dá mesmo muitas voltas! Quem diria, hein? Os partidos e os políticos mudam, mas a verdade é que o vídeo de Simon Hartog continua ?censurado?. Trata-se de um documento fundamental para entendermos o Brasil e a nossa TV. Uma referência importante para a formação das novas gerações de brasileiros e de jornalistas que não têm a menor idéia do passado do nosso principal meio de comunicação.

O documentário envelheceu, mas ainda contém uma coletânea de informações preciosas sobre a História da TV brasileira. É uma visão de um cineasta estrangeiro de um Brazil com Z. Mas a vantagem é que o Simon Hartog não tinha sido ?hipnotizado? ou se intimidado pelo poderio das imagens da nossa televisão. Hartog, certamente, estava ?muito além do nosso cidadão Kane?. Como era de se esperar, ele morreu alguns meses após a exibição do seu polêmico documentário. Para nós brasileiros, espero que tenha valido a pena.