A proposta de "integração" do transporte urbano ainda não está clara para ninguém, talvez nem mesmo para os que desenvolveram esse projeto. Se formos analisar um pouco, ele tem pouco ou nada de integrado.

A idéia vendida é que não precisaremos mais pagar uma passagem inteira cada vez que pegarmos um novo ônibus. Mas existe uma diferença muito grande de tarifas na cidade. Alguns custam R$1,45, outros R$2,60 e por aí vai. Quando você pagar uma viagem de R$1,45 e fizer baldeação para outro ônibus que custe mais, pagará apenas a diferença das passagens. Se o preço do segundo ônibus for o mesmo, não haverá necessidade de pagar mais nada.

Mas a questão é que só as pessoas que comprarem o cartão magnético (que substitui os vales transporte de papel) é que têm esse privilégio. Usando dinheiro você paga normalmente cada vez que usar um ônibus. O cartão custa R$20, ou seja, quem não tiver dinheiro para comprá-lo está excluído da "integração" e vai pagar mais caro pelas passagens.

O que não ficou claro, ainda, é como o sistema eletrônico vai reconhecer esse código no cartão. O que dá pra perceber até agora é o seguinte: Existem três plataformas. Quando você sai de uma plataforma, para pegar um novo ônibus se houve necessidade, é como se estivesse entrando naquela plataforma pela primeira vez. Elas não são unidas por algum corredor. Portanto não dá pra saber se a pessoa já pegou algum ônibus ou se está pegando um pela primeira vez. Desconheço explicação para esse problema. Ninguém sabe como esse código dos cartões funciona.

No dia 4, primeiro dia útil do novo sistema de transporte, muitas pessoas desinformadas acabaram pagando até 3 passagens para se deslocar até o centro. Esse é uma outra confusão do novo sistema: Existem agora vários Terminais de Integração espalhados em alguns pontos da cidade. Se antes você pegava qualquer ônibus para ir até o centro, agora terá que pegar um ônibus para ir até um terminal e lá pegar um outro para ir até o centro. Muitas vezes são necessários três ônibus para ir até o terminal central. E as empresas não explicaram que você deve entrar pelas portas traseiras, para não pagar uma nova passagem. Mas e se o preço do segundo ônibus for maior que o do primeiro nós devemos pagar a diferença? Quer dizer, pagar mais de uma passagem e pegar mais um ônibus apenas para ir até o centro, se antigamente faziamos isso com apenas uma tarifa e um ônibus?

Os problemas não param por aí. Diminuiram o número de ônibus e atrasos nos terminais de integração acabam acumulando o número de pessoas que esperam outras linhas para chegarem até seus destinos. Uma primeira viagem de diversas linhas deixam as pessoas no mesmo terminal esperando pelo mesmo ônibus. E como o trânsito, velocidade e outros imprevistos acabam atrasando um pouco, esses ônibus acabam se desencontrando, causando esperas de 40 minutos ou até uma hora.

Não fosse o bastante, a tarifa aumentou mais uma vez, chegando agora a 13%. Desde o começo do ano até agosto o aumento da tarifa já tinha chego a 31,44%. No sítio do Setuf (Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Florianópolis) não há nenhuma informação sobre o funcionamento do sistema, sua última atualização é de junho. As novas plataformas não atendem às necessidades de pessoas com deficiências físicas e a ligação do terminal para o centro passa por uma avenida. Isso significa que a multidão que sai para o centro precisa atravessar uma avenida para chegar ao outro lado. Nenhuma passarela foi construida, apenas um semáforo e uma faixa de pedestres. Já no primeiro dia foram registrados 5 atropelamentos. Ontem um carro não parou para um rapaz atravessar, esse mesmo chutou o carro em protesto e a polícia não tardou a intimá-lo. A população indignada com todo esse absurdo não deixou a polícia levar o rapaz.

Nem as pessoas mais conservadoras estão aguentando a situação. Uma senhora agrediu a prefeita Ângela Amin (PP) no dia da inauguração. Até a RBS (emissora ligada a Globo) está mostrando depoimentos de puro descontento. Uma senhora foi entrevistada chorando, por não saber como chegar até sua casa.

Os ônibus que vem do continente mudaram sua rota e agora fazem um percurso que extende por 5 minutos, ou mais, a viagem até o terminal.

Uma série de problemas estruturais e econômicos. Esses terminais foram construídos em lugares públicos para serem revertidos em fontes de dinheiro privado. Quiosques são alugados pelas empresas e, com certeza, o dinheiro não volta para a sociedade. E, o pior, alguns terminais foram construídos em terrenos particulares, o que quer dizer que a prefeitura comprou o terreno com dinheiro público para, então, transformar em privado.

Florianópolis tem uma das maiores tarifas de transporte do mundo e com o pior serviço. A situação é tão absurda que apelidamos o Sistema Integrado de Transporte de Transporte Integrado no Sistema.

O Fórum do Transporte Público, formado por entidades sindicais, comunitárias e estudantis, estão coletando assinaturas para encaminhar aos vereadores, com fim de criar uma CPI (Comissão Parlamentar de Investigação) do Transporte Coletivo na Câmara Municipal de Florianópolis.

Temos também que estimular, agora mais que nunca, o uso da bicicleta como alternativa desse sistema que só veio atrapalhar mais um pouco a vida das pessoas. Está se pagando para trabalhar e se antes já não fazia sentido vender sua força para enriquecer os outros, agora faz menos ainda. É um absurdo deixar o poder político intervir com tanta influência no nosso direito de ir para onde quisermos.