O fim das metanarrativas e os meios de comunicação “em” massa.



“O predomínio da televisão a partir dos nos 60 significou não só que ela passou a se destacar diante das demais formas de comunicação mas também a dominá-las e submetê-las. Estas, a partir do predomínio da televisão, entram em declínio e perdem a identidade. O cinema é o exemplo mais flagrante deste processo, mas a crise também invadiu o teatro, o rádio e o jornal. Os demais meios de comunicação tornaram-se cópias da televisão; passaram a imitar sua linguagem, seu ritmo e sua dinâmica. A televisão impõe à sociedade uma velocidade de leitura, uma rapidez na decodificação de imagens visuais e uma forma de apreender o real baseada apenas neste jogo de trocas simultâneas de cenas e da construção de uma narrativa e de uma dramaturgia muito específicas”.

Após falarmos e darmos tantas voltas para explicar a queda das metanartrativas chegamos ao ponto que realemente nos interessa. Ciro praticamente liquida o assunto ao demosntrar que a TV instaura o tempo fragmentado e passageiro, onde os discursos, as imagens, as tendências, filosofias, inclinações políticas e tudo o mais se rende á lógica dos Meios de Comunicação de Massa e principalmente da Televisão. A sua lógica é a lógica da freneticidade, da mudança rápida e saltitante quadro a quadro em que não há tempo para aprofundamentos (lembremo-nos que a “profundidade” e as ideologias que a circundam sucumbem com a modernidade e os projetos iluministas). A angustia é a característica desse tempo televisivo, um determinado nervosismo (o que Arlindo Machado chama de voracidade), uma ânsia - toda ela causada, entre outros motivos pelo custo excessivo do horário televisivo. Mas é pura inocência imaginar que é somente esse fator que enreda essa dita voracidade...
Jameson quando fala da cultura pós-moderna ( e qual ícone seria mais “pós” do que a grande tela?) nos traz a metáfora do incinerador - a TV seria um grande incinerador/reciclador de cultura – tudo estaria ali pronto para ser consumido, descartado e estocado para posterior reciclagem. Fato facilitado pela alta intercambialidade da cultura comtemporânea. Mas e a pergunta: como os MCM determinaram no terreno do cotidiano a implosão das metanarrativas? Ora, a sua própria superficialidade e a maneira lúdica com que trata todos os assuntos acaba por esvaziar seus conteúdos. É como um filme superexposto que queima , é Arlindo Machado que usa tal metáfora. A leveza, os quadros pulando de uma a outro sem tempo de analise, as vinhetas, as musicas, as vozes dos apresentadores, tudo combinado gera um coquetel que se não narcotiza (como queriam os Adornianos, ao menos desencoraja ou desensina á criticar e aprofundar-se). A guerra tornada show, a morte tornada entretenimento é talvez a maior prova do poder supremo de espetacularização da TV. Na sua lógica nada sério sobrevive...A política se transforma em show, onde o candidato que não tem auxílio das grandes mega-corporações marketeiras não obtém êxitos. A velocidade é a sofisticação da fuga, já disse Paulo Virilio, assim, é impossível imaginar no tempo das teletecnologias ideologias duradouras voltadas a fins específicos e projetos coletivos direcionados rumo a um futuro planejado...onde a ilusão moderna imaginava que colocaria historia nos trilhos o homem pós-moderno só almeja ser entretido (como cantava melancolicamente o Ex-vocalista da Banda Nirvana). O desejo de entretenimento do homem pós-moderno tem algo de fuga, de cegueira, de um não querer parar e descer da montanha russa das sensações levadas a ele diariamente e olhar sua própria condição de dominado tecnológico.

A televisão constitui o ponto de ruptura entre o universo sociológico marcado pelas metanarrativas, os discursos da emancipação, do homem atuante, da possibilidade de explicar e administrar o real, por um lado, e o mundo das técnicas e da hiperrealidade, por outro (...) A televisão joga com a categoria do tempo operando-o de forma própria e independente dos conceitos cronológicos usuais. É um tempo artificial e manipulado. Diferente do congelamento fotográfico da imagem, a televisão, ao contrário, é um tempo de permanente fluidez. Nada pára, tudo circula a velocidades vertiginosas e alucinantes, de tal forma que a sucessão de cenas constitui um novo reordenamento da existência visual, agora segundo novos parâmetros, a saber, tecnológicos
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Assim, parece razoável concluir que a mudança é também na categoria temporal que o homem contemporâneo se define. O tempo marcado pelas tecnologias é todo ele veloz, fugaz, a geografia se espreme, o tempo se dilata e se estilhaça em múltiplos tempos. Ciro fala de Vatimo que "vive-se pela segunda vez", já que ampla possibilidade de locomoção e reordenação dos componentes da vivência não encoraja, ela também, o compromisso de ordem alguma.
"A televisão é o veículo por excelência da pós-modernidade. Ela não conhece estruturas permanentes, densidades, aprofundamentos, investimentos intensivos, enraizamentos no social, no cultural, no histórico (...)É uma forma de liquidificador geral, que mistura as mais diferentes matérias e submete-as todas a um mesmo tipo de tratamento ou "branqueamento", tornando-as absolutamente inóquoas"

Assim ela esvazia as revoltas políticas ao exibi-las no noticiário, transformando a vida em show ela acaba por retirar-lhe o sentido. A própria maneira como descontextualiza todas as informações acaba por impossibilitar a continuação de qualquer tendência, ao presumir que os antecedentes de algo já não mais interessam ao espectador ou ao se justificar por trás do preço de seu espaço ela acaba por retirar possibilidade qualquer de teleologia (do grego telos, significando fim, finalidade, chegada, realização) que é a própria essência da metanarrativa, já que ela é unitária, voltada a realização de algo, p.ex., o projeto de emancipação civilizatório, a crença de que aqueles que se redimirem dos pecados herdaram o reino dos céus - todos eles tem uma antes, um durante (fortemente marcado por um ritual de passagem obrigatório) e um fim - onde se realizaram os objetivos e cessarão os conflitos. É assim, que os MCM e mais a TV esvaziam a história em múltiplas histórias, esvaziam o passado e o futuro criando o Agora, de um futuro que nunca chegará.
De outro lado, ao retirar a autoridade dos discursos legitimadores os MCM deixam as populações livres por demais, como que soltas num movimento caótico e disperso. Mas como Ciro diz, falando de Gunter Anders, o homem almeja ser dominado, almeja a situação de submissão e mesmo a procura. Assim, uma vez livre do peso desses grandes discursos metanarrativas ele procura outro "Deus', no que remete às idéias de Heiddeger que diz que a técnica é na verdade de cunho metafísico e encanta os homens assim como a religião fazia no passado - no que também concorda o brasileiro Vilém Flusser.
Vejamos:

- “O declínio das filosofias, o fim das metanarrativas, o desaparecimento das visões unificadoras da realidade tornam a humanidade órfã de seus mitos. Advém daí a grande crise existencial dos homens que, já não tendo mais a quem apelar ou quem obedecer, vão buscar a reconstituição forçada e trágica do passado. A filosofia, como metafísica, havia desempenhado o mesmo papel social que o cristianismo desempenhou antes da modernidade. Por isso, deixados de lado o antropocentrismo e o teocentrismo, a era tecnológica forja uma estrutura unificadora própria, sua metafísica a partir da própria técnica.” Superciber (p.61-62)

Voltando.
Assim, pelo seu próprio caráter ela transforma em ficção tudo o que toca - ou quem sabe escancara o fato de que quase tudo que o homem crê é em verdade ficção. Aqui até o jornalismo (vide recente caso do NY times e Jason Blair) é na verdade show fictício, por que entregue a lógica da TV. Como diz Crio em "TV, a vida pelo vídeo" o homem atual chora das telenovelas e assiste tragédias reais como entretenimento nos telejornais todas as noites. Dessa maneira tudo se transforma em ficção e nada pode ou deve ser levado a sério, já que é produzido para ser esquecido na hora em que entram os anunciantes. (estes, mais do que qualquer outro poder atual desencorajam qualquer atitude séria, já que o ato da compra parece ser obrigatoriamente antecedido de uma atitude mental retardada...)