Olá a todos! Eu não poderia começar esta coluna sem antes dedicá-la ao meu grande amigo Diego Fernandez, cujas infinitas conversas me fizeram ter vontade de discorrer sobre o presente tema.

Enfim, chespiritomaníacos, já repararam nas atuações de Florinda Meza em alguns capítulos de Chapolin?

Ela, sem dúvida, sempre faz presenças marcantes, sendo a figura feminina principal do seriado, um vez que María Antonieta de las Nieves não aparecia tanto em Chapolin.

Já repararam, ainda, em todas as mulheres presentes em Chaves?

Pois bem, para entender qualquer coisa temos que nos transportar para a época em que algum fato marcante aconteceu, não importa qual seja.

Não podemos entender, por exemplo, a ditadura militar sem ao menos ter idéia do que as pessoas pensavam naquela época, da situação do país e das características sociais daquele tempo.

Ou seja, quando falamos em Chaves ou Chapolin, estamos falando de algo produzido inicialmente nos anos 70.

Após transformações de pensamento, revoluções sociais e comportamentais dos anos 60, a década de 70 vinha como uma grande incógnita.

Pela primeira vez, os jovens eram mais "inteligentes" que os adultos. A tecnologia vinha à tona. A maioria dos valores conservadores (não todos) iam caindo por terra. Os Beatles trouxeram o cabelo "tigela" e a calça jeans, que antes era usada somente por lixeiros. A guerra do Vietnã e o "flower-power" fizeram a cabeça dos jovens, bem como as carradas de LSD, maconha e haxixe.

Passados alguns anos, chegou a vez das mulheres. De repente, o conceito de sexo frágil passava a ser questionado mundo afora. Direitos iguais - era a reivindicação da mulher.

Nos anos 70, acontece a Revolução Sexual. Talvez possa parecer exagero de minha parte, ao tentar conectar um fato social ao meu seriado favorito, mas vou convencê-los de que há realmente um nexo entre as duas coisas!

Em Chaves, por exemplo, a Revolução Sexual é debatida em 2 episódios: o do Dia Internacional da Mulher e o do Concurso de Miss Universo. A expressão utilizada para designar o tema é "liberação feminina".

Com vocês, a definição magistral da Chiquinha:

"...Isso quer dizer que nós, mulheres, não temos mais que pedir permissão aos homens para cometer as barbaridades que cometíamos quando não nos davam permissão..."

Caros leitores, esta é a visão de Bolaños para o tema! Não vou entrar no mérito de possível "machismo" ou "progressismo", mas esta definição obviamente chama a atenção!

Para a maioria de nós, que nascemos nos anos 80 e fomos adolescentes nos anos 90, era muito fácil assimilar este conceito de igualdade de sexos, ainda mais pela promulgação da Constituição de 1988. Mas imaginem isso para a sociedade mexicana por volta de 1975! Imaginem a revolução sexual ser tratada em um programa teoricamente infantil, exatamente na época dos acontecimentos!

Todos hão de admitir: Bolaños foi extremamente ousado! Mais que isso, foi muito feliz com essa empreitada.

De uma forma ou de outra, as crianças que cresceram assistindo a Chaves e Chapolin, como eu, acostumaram-se a ver figuras de mulheres emancipadas, ou seja, que não dependem de homens para viver. Mulheres que não têm como meta de vida encontrar um marido para dele tirar seu sustento.

Os homens, em Chespirito, são exatamente o que as mulheres são para os homens, ou seja, objetos de adorno, amor e paixão. Não são os ditadores de regras, mentores do "certo" e "errado". São apenas pessoas.

Insisto: tudo isso em plena década de 70!! Para não parecer sem importância, vou fazer uma comparação: seria como se hoje houvesse um programa infantil no qual homossexuais dessem beijos na boca. Entretanto, sabemos que no Brasil o progressismo é virtude de poucos. Pareceu forte demais para vocês? Pareceu absurdo, imoral, ultrajante e repulsivo? Pois essa deve ter sido a sensação de muitos que viam Chaves em 1975. Para alguns, era normal. Para outros, chocante. Faço essa comparação porque o preconceito que os homossexuais sofrem hoje em dia é o mesmo que as mulheres emancipadas sofriam nos anos 70.

Mulheres que trabalhavam, usavam calças e não se casavam até os 20 anos eram alvo de chacotas e críticas. Eram humilhadas pelos pais e motivo de vergonha para eles. Uma mulher que perdesse a virgindade antes de casar poderia até ser expulsa de casa.

Em Chespirito, todavia, o tema foi colocado da forma mais simples possível.

Não existe, em Chaves, a figura da mulher submissa. Dona Florinda cuida muito bem do seu próprio nariz e dita suas regras. Sua incessante vontade de se casar com o Professor Girafales nada tem a ver com sustento ou dinheiro, mas sim com indubitável amor e veneração. É ela quem compra um restaurante, virando-se muito bem sozinha. Sua dependência é exclusivamente amorosa, como pode ser visto no episódio onde os dois rompem o namoro no salão de beleza.

Dona Clotilde, por sua vez, ganha seu sustento sabe Deus como, mas também não precisa de nenhum homem (pelo menos para ganhar dinheiro).

Suas intenções com Seu Madruga, bem como Dona Florinda, são frutos de amor, paixão e até erotismo. Não estou exagerando: "Seu corpo é excitante, Seu Madruga. Ai! como me alucina!..." A Bruxa, só para constar, é a personagem que mais me encanta em Chaves (depois do Quico), por ser a única que tem em si todas as virtudes e defeitos de todos os outros personagens! E seu lado erótico evidencia a destinação adulta que o programa possui, em suma.

Mas, voltando ao tema principal, a mulher do Sr. Barriga (que nunca vimos) viaja a negócios e contribui para as despesas do lar. Seu Madruga até se surpreende que a viagem seja para ganhar dinheiro, e não para gastá-lo. Ao lamentar não ter casado com uma mulher que trabalhe, Dona Clotilde lança sabiamente: "Isso foi porque você não quis". Quanta normalidade, não?

A Dona Paraíso... digo, Céu.. digo, Glória também vive sozinha e cria sua sobrinha sem nenhum homem.

Talvez fosse espantoso o fato de tantas mulheres viverem sozinhas, criando seus filhos e sobrinhos, sem a necessidade ultrapassada daquele vínculo patriarcal rigoroso.

E não pára por aí, chespiritomaníacos. A própria Chiquinha, com seus 7 anos, passa a imagem do tipo de mulher que irá se tornar no futuro. Levantando a bandeira da liberação feminina, ela já declara sua independência dos homens. Isso também se evidencia pelo fato de Chiquinha liderar Quico e Chaves nas brincadeiras e, muitas vezes, fazê-los de bobos. Ou seja, a própria mulher infantil já se mostra influenciada pelos ideais revolucionários. "...As mulheres vão sair para trabalhar e os homens vão ter os filhos!" De forma bem jocosa, Bolaños passa uma suposta visão infantil do tema. Mas, pela ironia que se nota na frase, percebe-se que é apenas a demonstração do entendimento errado que parte da sociedade tinha da Revolução Sexual.

Foram exemplos rápidos da liberação feminina em Chaves. Vejam bem: não estou afirmando, em hipótese alguma, que as muheres não gostavam dos homens em Chespirito, ou os tinham como inimigos. Muito pelo contrário! Sim, gostavam dos homens por eles serem homens, por darem prazer a elas, mas nunca ostentando a imagem do homem como chefe do lar e o casamento como um mero costume da "mulher de boa família".

Tratemos, agora, de Chapolin, especialmente de Florinda Meza. Na maioria dos episódios, Florinda não é casada, nem noiva, morando com tios ou avós, e até sozinha, às vezes.

Está certo, em muitos outros capítulos ela tem marido ou noivo, mas lembremos que não era a intenção de Bolaños propagar o feminismo! É apenas um dos milhares traços sociológicos de Chespirito, coisa de somente alguns episódios específicos, mas que merecem ser notados!

Vamos a alguns exemplos práticos.

No episódio das pulgas amestradas, Florinda Meza é uma mulher que vive sozinha no meio de uma estrada, ao "deus-dará". Não se sabe o que faz, no que trabalha, se tem família ou absolutamente qualquer coisa sobre a sua vida. Até se sente, no começo, um pouco incomodada por estar sozinha numa choupana com um homem desconhecido, mas logo fica à vontade. Ramon Valdéz ajuda a quebrar o gelo.: "Espero que se comporte!" Sabe-se, somente, que fica muito bem sozinha, no meio do nada. Chespirito poderia ter usado um homem que vivia sozinho, mas parece que ele gosta muito dessa imagem de mulher independente.

Lembram do episódio da casa prestes a ruir? É aquele episódio em que Florinda vive com seu avô (Ramon Valdéz) em uma casa caindo aos pedaços, sendo o Villagrán o senhorio que cobra o aluguel. Registre-se o magistral diálogo inicial entre Florinda e Villagrán: "Suponho que tenha vindo cobrar o aluguel..."; "Supõe bem!" Mas o que há de se ressaltar é a figura de Florinda Meza. No início do episódio, ela aparece carregando alguns livros, e por isso se presume ser ela uma estudante de faculdade. E mais: mora com seu avô. Nada mais ilustrativo ao nosso tema do que uma garota que sai de casa para estudar na capital, morando com o avô! Antigamente, como se sabe, o estudo não era pré-requisito para uma mulher, bastando arranjar algum bom casamento! Obviamente, isso não salta aos olhos de quem vê o episódio normalmente. Mas depois de muito refletir, fica como se fosse uma mensagem subliminar!

Falemos agora do episódio do "tatatatatatatatataravô". Novamente, Florinda é uma mulher emancipada! Aparece de repente em uma casa no meio da estrada, por problemas de combustível. Será quem tem família? Noivo? Marido? Emprego? Difícil saber... Mas só o fato de andar sozinha por aí, com carro próprio e fazendo o que lhe dá na telha demonstra sua emancipação. Ou seja, não precisa dar satisfações a ninguém, pois ganha a vida sozinha.

O episódio do robô, além de hilário, reforça a tese que apresentamos aqui. Florinda Meza é recém-chegada de Paris, cheia de histórias para contar, sem nenhuma menção a maridos ou noivos. Antigamente, eram os homens que concluíam seus estudos na Europa e as mulheres cresciam em meio a bordados até atingirem a idade para se casar. Quanto avanço!

E o episódio do Dr. Zurita? Talvez ele seja uma das grandes obras-primas de Roberto Gómez Bolaños. Deixei-o por último por ter como foco principal exatamente a idéia proposta nesta ocasião. O episódio é uma sátira ao machismo e à liberação feminina ao mesmo tempo! É impossível descobrir, por este episódio, a posição de Bolaños quanto ao tema. No começo, é bem simples: Florinda ganha mais que Rubén, portanto ele cuida da casa e Florinda sai para trabalhar (notem que não há a hipótese dos 2 trabalharem e cuidarem da casa ao mesmo tempo). O brado do Chapolin ao final reforça bem o provável sentimento dos homens da época ao ver a ascensão do feminismo: "Vamos mostrar às mulheres que nós, homens, também podemos trabalhar!" Perdoem-me pela inexatidão do trecho transcrito, mas creio que a parte importante foi bem colocada. Eu, pelo menos, vejo essa exclamação quase como uma vingança dos homens, ou ainda, como uma intenção de colocar as coisas nos seus devidos lugares. Vocês lembram: o episódio acaba com Florinda passando roupa e olhando para a câmera com cara de resignada. Parafraseando o Nhonho: "O que será que ele (Bolaños) quis dizer?"

Pois bem, amigos, talvez tudo o que eu tenha dito aqui não faça o menor sentido para vocês, mas cabe a um colunista dizer tudo aquilo que sente sobre o objeto que estuda.

Não há como negar, entretanto, que o tema é abertamente discutido em Chespirito, uma vez que a liberação feminina foi alvo de dois episódios inteiros.

Só quero deixar claro que, nos exemplos tirados de Chapolin (com exceção ao do Dr. Zurita), o feminismo não foi o foco principal de Bolaños, mas apenas uma nuance levemente perceptível.

Não pretendo fazer de Bolaños um mártir do feminismo. Nem dizer que Chespirito foi o principal propagador do movimento, na época. Ainda tenho a cabeça no lugar!

Só quero ressaltar a ousadia e coragem do nosso ídolo. Ponto para ele, mais uma vez.

Um abraço a todos!