CMI: Quais os aspectos positivos e negativos do projeto?

João Suassuna: Estamos envolvidos com as questões do rio São Francisco há dez anos. Nesse período, temos denunciado a degradação exacerbada existente na bacia hidrográfica do rio, motivada pela ação antrópica, principalmente no que diz respeito aos desmatamentos havidos e aos lançamentos de esgotos sanitários e industriais na sua bacia. Temos denunciado, também, as limitações hídricas e os riscos hidrológicos existentes, o que têm causado conflitos, principalmente nas áreas energéticas e de irrigação. Por tudo isso, temos nos posicionado contrários ao projeto de transposição, por entendermos que o rio já não dispõe mais dos volumes necessários ao atendimento das demandas do projeto. Portanto, não vislumbramos nenhum ponto que possa ser positivo, ao contrário, cremos que, da forma como o projeto é apresentado à sociedade, demonstra, claramente, equívocos que poderão por em risco o desenvolvimento de toda região.

CMI: Há uma grande oposição de diversos grupos da sociedade quanto ao projeto. Na sua opinião, por que o governo parece ignorar as manifestações e prosseguir com o projeto?

JS: Seguramente, existe um lobby formado pelos grandes empresários da região que querem, a todo custo, que o projeto seja realizado. Além do mais, existe, seguramente, interesses políticos para perpetuação no poder. Candidaturas a governos de estados e a cargos políticos mais importantes, também estão em jogo. Quem irá se beneficiar com o projeto de transposição é o grande empresário, aquele que irriga para exportar os seus produtos, o carcinicultor (criador de camarões), o cultivador de flores, que atualmente tem mercado em expansão. Esse tipo de agronegócio costuma utilizar volumes expressivos de água, numa região onde a sua escassez é comprovada.

CMI: A obra trará algum ganho social para as populações realmente necessitadas?

JS: A população difusa do Nordeste, aquela que reside nos pés de serra, grotões, sítios e fazendas, a qual é assistida sistematicamente por frotas de carros-pipa, esta não verá uma gota sequer das águas do rio São Francisco. Nesse sentido, existem fortes indícios de que a realização do projeto possa perpetuar a chamada Indústria da Seca na região.

CMI: Há quem diga que o projeto só beneficiará empresários e latifundiários. O que leva a crer que isso ocorrerá?

JS: Isso irá ocorrer, principalmente no eixo norte do projeto. As águas desse eixo irão beneficiar, além da Paraíba e o Rio Grande do Norte, o Ceará, estado que possui metade da água represada de toda a região. O Nordeste possui um volume estimado de 37 bilhões de m3 em seus açudes, a metade desse volume está no Ceará. Isso credencia o Nordeste a possuir o maior volume de água represado em regiões semi-áridas do mundo.

O Ceará possui a maior represa do Nordeste (a represa Castanhão) com cerca de 6, 7 bilhões de m3, a qual encontra-se cheia no momento. Essa represa resolve os problemas de abastecimento da Grande Fortaleza e do Baixo Jaguaribe, por gerações. O estado possui um projeto de interligação de suas bacias para solucionar os problemas de abastecimento de sua população que reputamos da maior importância e que deveria ser seguido pelos demais estados da região. Fazer chegar as água do São Francisco no interior dessa represa é “chover no molhado”. No nosso modo de entender, só existe uma explicação para a chegada das águas do São Francisco nessa represa: como a irrigação, o cultivo de camarão e de flores demandam volumes expressivos de água, logicamente é de se supor o grande interesse de se promover garantias hídricas em toda região, para o atendimento ao empresariado.

CMI: Qual a participação de empresas estrangeiras e o interesse delas no projeto?

JS: As empresas estrangeira, principalmente os consórcios internacionais, tiveram papel de destaque na elaboração dos estudos iniciais do projeto. A ENGECORPS/HARZA, de capital estrangeiro, nas ações inerentes à viabilidade técnico-econômica do projeto, bem como a do consórcio internacional JAAKKO PÖYRY-TAHAL nos estudos de impactos ambientais. Estes estudos já demandaram cerca de R$ 70 milhões do projeto. Cremos que, em assuntos relevantes como esses, que necessitam de um conhecimento profundo das questões ambientais da área de implantação do projeto, não se possa abrir concessões para atuações de empresas estrangeiras, em razão de se estar pondo em risco a nossa soberania, principalmente com relação à atuação técnica nacional. Essa preocupação procede, principalmente em um país plural como é o Brasil, detentor de uma biodiversidade extremamente variável (existem vários Brasís no território nacional) e possuidor de grupos técnicos de excelência, atuantes nas diversas áreas do conhecimento, espalhados em Universidades, Centros de Pesquisas, Companhias de Desenvolvimento e em Órgãos de Gestão Ambiental, capazes de proporcionar o apoio necessário à elaboração e realização de trabalhos dessa natureza. Diante desse quadro, é inadmissível que, no nosso país, não se possa contar com equipes técnicas, oriundas dessas instituições, que sejam capazes de assumir e de dar conta de trabalhos como esses. Claro que nós temos e podemos fazê-lo. Talvez o que esteja faltando aos nossos dirigentes é um pouco mais de seriedade para com o tratamento das questões nacionais. É fundamental que nossos dirigentes voltem a se emocionar ao toque do hino nacional brasileiro. A leitura que fazemos acerca dessas questões é a de que esses estudos foram "encomendados" pelo governo para tornar viável a transposição, sem restrições. O lamentável de tudo isso é que as contas a serem pagas às empresas estrangeiras, pela realização de tais estudos, serão demasiadamente caras para a nação, pois serão efetuadas em dólar (evasão de divisas) e, como se isso não bastasse, às expensas do contribuinte brasileiro. Se, na fase de elaboração dos estudos, já estamos encontrando situações como essas, imaginem na fase de execução do projeto... Se a implantação, operação e manutenção das ações não forem bem conduzidas, em poucos anos poderemos ter estações de bombeamento, canais, túneis e aquedutos, verdadeiras obras fantasmas, sem a menor utilidade. Aliás, nesses maus exemplos o Brasil é um país por demais pródigo.

CMI: Qual será o impacto na produção de energia? Em caso da necessidade de ampliar a produção; isso seria possível com a transposição concluída?

JS: Esse é o ponto mais importante, sobre o qual nos embasamos para demonstrar a ineficiência do projeto. O nordestino não pode apresentar-se desmemoriado com relação a mais séria crise energética de sua história ocorrida na região, em 2001.

Existe um potencial gerador na bacia do São Francisco estimado em cerca de 10 mil MW, com poucas chances de ser ampliado. Esse potencial gera anualmente cerca de 50 milhões de MW/h. Se considerarmos o atual crescimento do PIB do país entre 4 e 5%, isso significa que a demanda de energia elétrica está na faixa de 6 a 7% (esse crescimento se dá 2% acima do crescimento do PIB). Nesse aspecto, em 12 anos teremos que dobrar a produção de energia para satisfazer a demanda da região e assegurar o nosso desenvolvimento. Ao invés de 50 milhões, teremos que gerar, em 2017, cerca de 100 milhões de MW/h. A pergunta que não quer calar é a seguinte: onde será gerada essa energia, tendo em vista a impossibilidade de se ampliar o nosso potencial gerador no São Francisco? Lembramos que para cada m3/s de água retirado do rio, anualmente deixam de ser gerados 22 milhões de kw. Essa energia que deixa de ser gerada em cada m3/s é suficiente para eletrificar uma cidade de 35 mil habitantes.

CMI: Das comunidades que vivem próximas ao rio, 80% não possuem saneamento básico e despejam todo seu esgoto nas água do São Francisco. Caso essa grande obra se realize, ela levará água em bom estado para sua utilização?

JS: O governo federal deveria envidar todos os seus esforços na revitalização do rio. Ao invés disso, vem dando prioridade ao projeto de transposição. Esse fato fica bem claro no montante de recursos alocado nos projetos.

A revitalização deveria merecer prioridade nesse caso. São 14 milhões de pessoas na bacia do rio, drenando seus esgotos na calha do rio. A Grande Belo Horizonte, por exemplo, despeja seus esgotos, urbanos e industriais, nos rios das Velhas e Paraopeba, dois importantes afluentes do São Francisco. O resultado disso é a péssima qualidade de água que, por vezes, fica imprópria para o banho, devido a grande incidência de coliformes fecais. A solução para esse tipo de problema passa, necessariamente, pela realização de projetos de esgotamento sanitário. Caso o projeto venha a ser realizado, sem se levar em consideração essas questões, seguramente iremos ter, no futuro, um grande problema de saúde pública a ser enfrentado.

CMI: Quais as alternativas existentes à transposição?

JS: É importante que sejam utilizadas as águas que já existem em cada um dos estados do Nordeste. É importante, e muito mais barata, a utilização das águas das represas. Não tem o menor sentido deixar-se de utilizar as águas de uma determinada represa, pronta para se utilizada através de um sistema de adução, para se trazer as águas do rio São Francisco, distando cerca de 500 km de distância do local onde será utilizada. No nosso modo de entender, além de um crime ambiental, é de uma inadequação econômica sem limite.

Outra alternativa é a construção de cisternas rurais. Uma cisterna de 15 mil litros, tem capacidade de abastecer uma família de 5 pessoas, durante os 8 meses sem chuvas na região. Com uma vantagem: quando bem manejadas, as águas das cisternas não se contaminam. A alternativa das cisternas resolve os problemas de abastecimento da população difusa do Semi-árido.