De nada adiantaram as concessões ao deus-mercado, a ênfase no campo institucional e o afastamento do povo brasileiro dos embates políticos. A mesma surpresa deve estar inquietando os que colocaram um sinal de igualdade entre o governo Lula e o bloco conservador-liberal desalojado do poder em 2002. O PSDB, como representação orgânica desse bloco, jogará sujo e pesado para retomar as rédeas do Brasil.

A CPI dos Correios, aprovada na semana passada, prova que vale-tudo nessa conspiração execrável. Até os tucanos se apresentarem como paladinos da ética, quando sua triste história mais lembra a figura de um urubu carniceiro e fétido! Nos oito anos de reinado de FHC o que não faltaram foram escândalos, sempre acobertados e mantidos impunes. Para refrescar a memória, basta lembrar alguns dos casos mais graves:

• Sivam: Logo no início da gestão de FHC, denúncias de corrupção e tráfico de influências no contrato de US$ 1,4 bilhão para a criação do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) derrubaram um ministro e dois assessores presidenciais. Mas a CPI instalada no Congresso, após intensa pressão, foi esvaziada pelos aliados do governo e resultou apenas num relatório com informações requentadas ao Ministério Público.

• Pasta Rosa: Pouco depois, em agosto de 1995, eclodiu a crise dos bancos Econômico (BA), Mercantil (PE) e Comercial (SP). Através do Programa de Estímulo à Reestruturação do Sistema Financeiro (Proer), FHC beneficiou com R$ 9,6 bilhões o Banco Econômico numa jogada política para favorecer o seu aliado ACM. A CPI instalada não durou cinco meses, justificou o “socorro” aos bancos quebrados e nem sequer averiguou o conteúdo de uma pasta rosa, que trazia o nome de 25 deputados subornados pelo Econômico.

• Precatórios: Em novembro de 1996 veio à tona a falcatrua no pagamento de títulos no Departamento de Estradas de Rodagem (Dner). Os beneficiados pela fraude pagavam 25% do valor destes precatórios para a quadrilha que comandava o esquema, resultando num prejuízo à União de quase R$ 3 bilhões. A sujeira resultou na extinção do órgão, mas os aliados de FHC impediram a criação da CPI para investigar o caso.

• Compra de votos: Em 1997, gravações telefônicas colocaram sob forte suspeita a aprovação da emenda constitucional que permitiria a reeleição de FHC. Os deputados Ronivon Santiago e João Maia, ambos do PFL do Acre, teriam recebido R$ 200 mil para votar a favor do projeto do governo. Eles renunciaram ao mandato e foram expulsos do partido, mas o pedido de uma CPI foi bombardeado pelos governistas.

• Desvalorização do real: Num nítido estelionato eleitoral, o governo promoveu a desvalorização do real no início de 1999. Para piorar, socorreu com R$ 1,6 bilhão os bancos Marka e FonteCidam – ambos com vínculos com tucanos de alta plumagem. A proposta de criação de uma CPI tramitou durante dois anos na Câmara Federal e foi arquivada por pressão da bancada governista.

• Privataria: Durante a privatização do sistema Telebrás, grampos no BNDES flagraram conversas entre Luis Carlos Mendonça de Barros, ministro das Comunicações, e André Lara Resende, dirigente do banco. Eles articulavam o apoio a Previ, caixa de previdência do Banco do Brasil, para beneficiar o consórcio do banco Opportunity, que tinha como um dos donos o tucano Pérsio Árida. A negociata teve valor estimado de R$ 24 bilhões. Apesar do escândalo, FHC conseguiu evitar a instalação da CPI.

• CPI da Corrupção: Em 2001, chafurdando na lama, o governo ainda bloqueou a abertura de uma CPI para apurar todas as denúncias contra a sua triste gestão. Foram arrolados 28 casos de corrupção na esfera federal, que depois se concentraram nas falcatruas da Sudam, da privatização do sistema Telebrás e no envolvimento do ex-ministro Eduardo Jorge. A imundice no ninho tucano novamente ficou impune.

• Eduardo Jorge: Secretário-geral do presidente, Eduardo Jorge foi alvo de várias denúncias no reinado tucano: esquema de liberação de verbas no valor de R$ 169 milhões para o TRT-SP; montagem do caixa-dois para a reeleição de FHC; lobby para favorecer empresas de informática com contratos no valor de R$ 21,1 milhões só para a Montreal; e uso de recursos dos fundos de pensão no processo das privatizações. Nada foi apurado e hoje o sinistro aparece na mídia para criticar a “falta de ética” do governo Lula.


ENGAVETADOR-GERAL

Apesar dos escândalos que marcaram a sua gestão, FHC impediu qualquer apuração e sabotou todas as CPIs. Ele contou ainda com a ajuda do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, que por isso foi batizado de “engavetador-geral”. Dos 626 inquéritos instalados até maio de 2001, 242 foram engavetados e outros 217 foram arquivados. Estes envolviam 194 deputados, 33 senadores, 11 ministros e ex-ministros e em quatro o próprio FHC. Nada foi apurado, a mídia evitou o alarde e os tucanos ficaram intactos. Lula inclusive revelou há pouco que evitou reabrir tais investigações – deve estar arrependido dessa bondade!

Diferente do reinado tucano, o que é uma importante marca distintiva do atual governo, hoje existe maior seriedade na apuração das denúncias de corrupção. Tanto que o Ministério da Justiça e sua Polícia Federal surgem nas pesquisas de opinião com alta credibilidade. Nesse curto período foram presas 1.234 pessoas, sendo 819 políticos, empresários, juízes, policiais e servidores acusados de vários esquemas de fraude – desde o superfaturamento na compra de derivados de sangue até a adulteração de leite em pó para escolas e creches. Ações de desvio do dinheiro público foram atacadas em 45 operações especiais da PF.

Já a Controladoria Geral da União, encabeçada pelo ministro Waldir Pires, fiscalizou até agora 681 áreas municipais e promoveu 6 mil auditorias em órgãos federais, que resultaram em 2.461 pedidos de apuração ao Tribunal de Contas da União. Apesar das bravatas de FHC, a Controladoria só passou a funcionar de fato no atual governo, que inclusive já efetivou 450 concursados para o trabalho de investigação. “A ação do governo do presidente Lula na luta decidida contra a corrupção marca uma nova fase na história da administração pública no país, porque ela é uma luta aberta contra a impunidade”, garante Waldir Pires.

Diante de fatos irretocáveis, fica patente que a atual investida do PSDB-PFL não tem nada de ética. FHC, que orquestrou a recente eleição de Severino Cavalcanti para presidente da Câmara, tem interesses menos nobres nesse embate. Através da CPI dos Correios, o tucanato visa imobilizar o governo Lula e desgastar sua imagem, preparando o clima para a sucessão presidencial. De quebra, pode ainda ter como subproduto a privatização dos Correios, acelerando a tramitação do projeto de lei 1.491/99, interrompida pelo atual governo, que acaba com o monopólio estatal dos serviços postais. O jogo é sujo, pesado e hipócrita!

PSDB: entreguismo militante

Iniciada a guerra sucessória, sob o falso invólucro do combate à corrupção, torna-se urgente desmascarar os intentos do bloco liberal-conservador desalojado do poder em 2002 e que, agora, parte para a revanche de maneira sórdida e cínica. O acompanhamento de seus porta-vozes na mídia e a leitura de seus veículos de difusão ajudam a decifrar os objetivos futuros do PSDB-PFL, esse condomínio das elites “modernas” e atrasadas a serviço do capital financeiro. Na sua cruzada contra o governo Lula, ele já elegeu seus alvos. Um dos principais é a política externa desenvolvida hoje pelo Itamaraty. Para os tucanos, ativos militantes dos interesses imperialistas, ela seria “retrógrada”, “terceiro-mundista” e de “confronto” com os EUA.

A última edição da revista Primeira Leitura, o panfleto de Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações, ex-presidente do BNDES e o curinga de FHC no criminoso processo de privatização das estatais, revela todo ódio deste bloco entreguista contra a política externa liderada pelo ministro Celso Amorim. Ela critica os entraves à Área de Livre Comércio das Américas (Alca); condena os “flertes mais do que explícitos com ditaduras”, referindo-se a Hugo Chávez; ridiculariza as medidas para diversificar as relações internacionais – a “estratégia Sul-Sul, que encanta o presidente, não encontra ressonância”. Só falta propor que o Brasil aceite, de joelhos, a tutela do imperador Bush e a sua anexação como colônia.

Reinaldo Azevedo, raivoso editor desse panfleto tucano, é incisivo: “Desde os primeiros movimentos da diplomacia caeté do ministro Celso Amorim, Primeira Leitura aponta os descaminhos do Itamaraty... Enquanto países emergentes se movem na velocidade de um raio, o Brasil o que faz é ajeitar o seu balaio de provincianismo, atraso ideológico e pretensão de escravo... Daí essa besteira das relações Sul-Sul em oposição às supostas imposições do Império do Norte”. Após atacar o “meio ditador” Chávez, as Farc e Cuba, ele esbraveja: “Lula e Amorim querem chegar ao Conselho de Segurança da ONU para coonestar ditaduras”. Haja subserviência e arrogância a serviço das reais – e não supostas – imposições do Império!

Já outro panfleto tucano, Mídia sem Máscara, desanca a cúpula árabe-sul-americana recém-ocorrida. Este inédito feito da diplomacia brasileira teria sido “um fracasso”, porque “deixaram de comparecer os países mais alinhados com os EUA” e porque serviu de “endosso ao terrorismo palestino... Saíram reforçados o terrorismo e o antiamericanismo, razão por que Hugo Chávez, o Maluco de Caracas, pode comemorar”. Saudoso dos tempos servis de FHC, ela ataca Lula porque “declarou que a Alca estava fora da agenda, chancelou as credenciais democráticas do companheiro Chávez e flerta abertamente com o terrorismo”. É muita maluquice reacionária, mas revela os verdadeiros propósitos do bloco PSDB-PFL!


EXCESSO DE SERVILISMO

No mesmo diapasão, embora menos hidrófobo por razões de ofício, o diplomata Celso Lafer, ex-ministro de Collor de Mello e FHC, também saiu do ostracismo para criticar a atual política do Itamaraty. Para ele, todas as recentes vitórias do Brasil nos fóruns mundiais seriam um “legado” da gestão tucana. “Deles se vale, com menos competência e sabedoria, o atual governo na construção de sua presença internacional”. Na avaliação desse tucano “collorido” de alta plumagem, a orientação em curso pecaria pelo excesso de retórica, “direcionada para dar satisfação ideológica interna”. Ele realmente deve entender de exageros. Afinal, nas suas passagens pelo Ministério de Relações Exteriores ele pecou pelo excesso de servilismo.

O novo livro de Moniz Bandeira, “As relações perigosas: Brasil-Estados Unidos”, revela bem o “legado” de FHC nessa área estratégica e o execrável papel do seu ministro Lafer. Entre outras cenas deprimentes, ele foi o responsável pela exoneração do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães do Instituto de Políticas de Relações Internacionais (IPRI), por este ter tido a coragem de criticar os efeitos nocivos da Alca; ele também foi cúmplice da pressão dos EUA contra a permanência do embaixador José Maurício Bustani no cargo de diretor-geral da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ), numa manobra de preparação para a invasão do Iraque; e ainda deu declarações favoráveis à política belicista dos EUA.

Num episódio que marca o que foi a política externa do governo FHC, Bandeira relata: “Em 31 de janeiro de 2002, Celso Lafer, ministro de Relações Exteriores, sujeitou-se a tirar os sapatos e ficar descalço, a fim de ser revistado por seguranças do aeroporto, ao desembarcar em Miami. Esse desaire, ele novamente aceitou, antes de tomar o avião para Washington, e mais uma vez desrespeitou a si próprio e desonrou não apenas o cargo de ministro, como também o governo ao qual servia. E, ao embarcar para Nova York, voltou a tirar os sapatos, submetendo-se, pela terceira vez, ao mesmo tratamento humilhante”.

Bem distinta passou a ser a postura do governo Lula. Um artigo do jornal O Globo, intitulado “Uma pedra no sapato dos países ricos”, relatou em setembro de 2003: “Há tempos (Amorim) avisou à embaixadora dos EUA no Brasil que não há força no mundo capaz de fazê-lo tirar os sapatos durante a revista da segurança dos aeroportos americanos – diferentemente do antecessor que passou pelo constrangimento. ‘Vou preso, mas não tiro o sapato’, diz Amorim”. A mesma conduta mais altiva levou o novo governo a nomear Samuel Pinheiro, o embaixador punido por FHC por denunciar a Alca, a ser secretário-executivo do Ministério de Relações Exteriores; a nomear Bustani para uma importante embaixada; a condenar a invasão do Iraque; a colocar uma série de obstáculos a Alca; a retomar e reforçar o Mercosul.

É essa ação externa, que hoje adquire caráter estratégico num mundo submetido à globalização neoliberal, que irrita os tucanos. É ela que ajuda a entender a ofensiva do bloco liberal-conservador contra o governo Lula. Para o sociólogo Emir Sader, “o ex-presidente FHC deveria se calar, especialmente quando se trata de política externa. Para encontrar um governo tão subserviente aos EUA será necessário retroceder até os tempos do ditador Castelo Branco, quando o ministro de Relações Exteriores Juracy Magalhães expressou a sua frase lapidar: ‘O que é bom para os EUA, é bom para o Brasil’... Ao longo dos dois mandatos, FHC levou o governo brasileiro a apoiar em todos os planos – econômico, político, militar – os EUA”.


COMPLÔ INTERNACIONAL

Iniciada a guerra sucessória, o PSDB inclusive já articula alianças internacionais com os maiores inimigos da política externa em curso. Renegando seu passado de exílio no Chile, FHC fez recentemente rasgados elogios ao ex-secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, um dos mentores do golpe que derrubou e assassinou o presidente socialista Salvador Allende. Numa palestra em Washington, disponível no site do seu instituto (IFHC), ele saudou Kissinger como “velho amigo”, “uma dessas raras espécies de homens que podem traduzir pensamento estratégico em políticas públicas e medidas concretas de modo exitoso”.

É verdade que o entusiasmo de FHC com a ação imperialista dos EUA não é recente. Ele já havia tentado homenagear Kissinger em fevereiro de 2002, concedendo-lhe a medalha da Ordem Nacional Cruzeiro do Sul. A festança só não vingou porque lideranças políticas e sociais divulgaram um abaixo-assinado contra a infame visita e convocaram ato de protesto. Temendo a repetição das manifestações ocorridas em outros países latino-americanos, o todo-poderoso estrategista ianque preferiu não comparecer. O recente e servil aceno de FHC, porém, revela o esforço para reativar essa antiga aliança com vistas à sucessão de 2006.

Não é para menos que FHC, Alckmin e outros tucanos têm realizado constantes visitas aos EUA. O ex-presidente, inclusive, lidera um grupo, sediado em Washington, incumbido de acompanhar a evolução da conjuntura na América Latina. Segundo reportagem do Financial Times (25/02/05), esse grupo – também composto pela ex-representante comercial dos EUA, Carla Hills, elaborou um relatório recomendando ao governo Bush uma imediata reaproximação com a América Latina para evitar o perigo do avanço das esquerdas no continente. Além de atacar Hugo Chávez, “por seu pequeno respeito à democracia”, o grupo sugere maiores investimentos ianques no Brasil e México para evitar a “esquerdização” da região.

Como observa Marco Aurélio Weisseheimer, “a campanha eleitoral de 2006 está levando o ex-presidente a tentar uma articulação internacional baseada em uma maior aproximação com os EUA e na crítica a ‘esquerdização’ da América Latina, particularmente em relação ao governo Chávez, apontado como fator de instabilidade política para a região. A parceria com a ex-representante comercial dos EUA, Carla Hills, é um claro indício da direção desse movimento”. Diante desses fatos, somente os cegos, os sectários e os ingênuos não enxergam os reais interesses dos “éticos” do PSDB e PFL, ativos militantes entreguistas.

PSDB: saudosismo autoritário

No seu assanhamento para retornar ao Palácio do Planalto, que aparece embalado na sórdida roupagem do combate à corrupção, o PSDB não esconde sua saudade pela fase autoritária de FHC. Não é para menos que este partido, como expressão orgânica da oligarquia financeira e da lógica antidemocrática neoliberal, tem centrado suas críticas à pretensa “falta de autoridade” do presidente Lula no trato com os movimentos sociais, em especial na relação com o MST. Ao mesmo tempo, ele tenta pousar de baluarte da democracia liberal, condenando qualquer ação do Estado contra a ditadura da mídia. Para desmascarar esses adeptos do “fascismo de mercado” vale relembrar algumas cenas deprimentes do triste reinado tucano.

- Logo no início do seu primeiro mandato, FHC fez questão de “quebrar a espinha dorsal” do sindicalismo brasileiro. A greve dos petroleiros, iniciada em 3 de maio de 95, foi tratada com violência similar ao dos piores períodos da ditadura militar. Nos seus 31 dias de duração, o governo ocupou refinarias com tropas do Exército, rompeu todos os canais de negociação e penalizou os sindicatos com pesadas multas diárias. Um assessor de Margareth Thatcher, dama-de-ferro que violentou a greve dos mineiros ingleses, chegou a visitar o Brasil para dar consultoria ao aprendiz de ditador, o recém-eleito FHC. A revista Veja, excitada com tamanha truculência, chegou a dar capa para um presidente vestido garbosamente de militar!

- O governo FHC nunca recebeu as entidades dos servidores públicos federais para qualquer negociação. O funcionalismo ficou com os seus salários congelados por oitos anos ininterruptos, além de ser vítima do desemprego causado pelo criminoso enxugamento da máquina pública. Através de centenas de medidas provisórias, sem qualquer consulta ao sindicalismo e mesmo ao parlamento, o PSDB fez a primeira onda da flexibilização trabalhista no país – impondo a contratação precária, o salário variável e a jornada de trabalho flexível. Já no final do seu segundo mandato, FHC ainda tentou dividir e asfixiar o sindicalismo com a PEC-623 e impor um projeto de lei que instituía “a prevalência do negociado sobre o legislado”.

- Outro alvo permanente da fúria tucana foi o movimento dos trabalhadores rurais sem-terra. Com o servil apoio da mídia burguesa, FHC fez de tudo para satanizar o MST, as pastorais da Igreja e outros lutadores do campo. Seu funesto ministro do Desenvolvimento Agrário, o ex-socialista convertido ao credo liberal Raul Jungmann, impôs portaria criminalizando a luta pela terra, ao proibir a desapropriação de latifúndios ocupados por sem-terra, instituiu a lógica do mercado no campo através do Banco da Terra e fechou todos os canais de negociação com os movimentos rurais. Chacinas de camponeses, como a de Eldorado do Carajás em abril de 1996, e assassinatos de lideranças do campo ficaram impunes na gestão FHC.

O sociólogo Ricardo Antunes, no seu novo livro “A desestificação neoliberal no Brasil”, refresca certas mentes ao desnudar o “outro lado do governo FHC: o que resgata a virulência e a truculência contra os movimentos sociais, contra os que lutam por preservar ou conquistar um mínimo de dignidade humana. Seria interessante um estudo comparativo do que há de continuidade e descontinuidade entre a concepção ‘atrasada’ de segurança militar da época da ditadura, com a defesa ‘moderna’ da repressão do tucanato”. O mesmo estudo comparativo também deveria ser feito entre os governos FHC e Lula. As suas diferenças abissais de comportamento ajudariam a decifrar a atual investida “ética” do bloco liberal-conservador.


DISCURSO FASCISTÓIDE

O PSDB, inclusive, não escamoteia seus futuros planos de governo. Ele prepara celeremente a revanche contra os movimentos sociais que o derrotaram na sucessão presidencial de 2002. Diferentemente dos que hoje tentam agradar o “deus mercado” e acabam fraturando sua base social de apoio, o tucanato sabe bem a classe que representa e não tergiversa nos seus objetivos. A postura fascistóide é explícita. Basta ler os panfletos tucanos, como a revista Primeira Leitura e o site E-Agora, rancorosos no combate ao chamado “assembleísmo” do presidente Lula e ao “excesso de diálogo com os sindicatos e o MST”. Eles exigem “maior autoridade” na relação com os movimentos sociais, mais “pulso firme”.

A última edição da Primeira Leitura está contaminada por este discurso direitista. Assanhado com a atual crise do governo, o tucanato quer sangue! Xico Graziano, ex-assessor particular de FHC, ex-presidente do Incra e hoje deputado do PSDB, não vacila em criticar o projeto do governo Lula de correção dos índices de produtividade rural – “que corresponde a cortar a cerca que delimita as propriedades e convidar sem-terra a invadi-las” –, em desqualificar o MST, a Comissão Pastoral da Terra e todos os setores que lutam pela reforma agrária e ainda insistem “na velha crítica ao latifúndio malvado”; e em condenar o governo porque este “não tem coragem de assumir a modernidade” e “negocia com o MST as suas estripulias”.

Num outro texto deste ideólogo do latifúndio e do agronegócio, publicado no E-Agora, Graziano é ainda mais hidrófobo. Para ele, “o MST é forte porque luta sem tréguas nem amarras, botando medo no Estado. Pouco lhe importa as regras da democracia representativa ou os ditames do Estado de Direito. Justiceiros, invocam cânones divinos e arrebentam cercas. Assim, na marra, ganham o respeito do Poder... No MST, persiste ainda o encantamento com sua luta. Alguns formadores de opinião, ao verem a marcha vermelha, alimentam uma espécie de fantasia retrógrada da revolução, a vontade de expiar o passado latifundiário. Gera-se, assim, uma benevolência a perdoar o banditismo rural, a ilusão a referendar o atraso despótico”.

A longa citação, carregada de desprezo pelos movimentos sociais, serve de alerta para o risco do retorno do autoritarismo tucano. A revanche seria maligna! Prova disso também se encontra na Comissão Mista de Inquérito (CPMI da Terra), instalada no Congresso Nacional, onde os deputados ruralistas do PSDB e do PFL procuram colocar no banco dos réus o MST, a CPT, a Contag e outros movimentos de luta pela terra. Todo esforço do bloco liberal-conservador, excitado com a possibilidade de retorno ao governo, é para criminalizar os movimentos sociais, reduzir seus espaços de participação democrática e beneficiar os grupos capitalistas do campo e da cidade. A defesa da ética só serve para disfarçar malignos propósitos!


Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “Encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi, 2005).


[Artigo enviado a www.galizacig.com polo autor, 15/06/2005]