Praticamente às escondidas do povo brasileiro, uma base militar dos USA ? localizada a poucos quilômetros de Foz do Iguaçu e da usina hidrelétrica de Itaipu ? começou a funcionar em território paraguaio no último dia 4 de julho, com o desembarque de 400 soldados ianques.

É o primeiro contingente dos milhares de ianques previstos para ocupar esta base e também outra, que está sendo implantada no Chaco paraguaio, igualmente a um passo do Pantanal e do Mato Grosso do Sul.

Mas a gerência FMI-PT não mostra qualquer preocupação. O Itamaraty afirmou que o Brasil não se manifestará sobre o assunto, porque ?seria ingerência em assuntos internos de outro país?. A instalação gringa recém inaugurada, que conta com pista para aviões militares, faz parte do plano sinistro do império de assentar 20 bases de operações em países da América do Sul, entre eles Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, Guiana e Guiana Francesa. Muitas delas já estão em funcionamento. No Brasil, embora nenhuma tenha sido ainda implantada, seguem as ?negociações? para que os gringos se apossem de Alcântara, no Maranhão.

A base dos USA no Paraguai está sediada nas proximidades da importante Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. A mesma região que há algum tempo vinha sendo injusta, mentirosa e covardemente apontada pela CIA e pelo Mossad israelense como potencial ninho de terroristas. Pelo simples fato de que a área, tradicionalmente, há décadas, possui um grande número de habitantes de origem árabe.

Desnecessário dizer que isso não passava de mero pretexto dos dois criminosos serviços secretos, para esconder as reais intenções do imperialismo.

Sim, pois ao ocupar militarmente aquela estratégica zona do Cone Sul, o USA está longe de querer combater qualquer terrorismo islâmico ou coisa que o valha. Seu objetivo é outro. Na verdade, é abater vários coelhos com uma só cajadada.

Repressão aos camponeses
Para começar, é preciso que se lembre que a crise geral do capitalismo, que tem por base uma enorme crise econômica, tem elevado o grau de exploração das massas populares dos países coloniais e semicoloniais, agravando de forma brutal as condições de vida de milhões de pessoas em todo o mundo. Assim, é cada vez maior o número de levantes populares.

A América Latina tem sido cenário de grandes embates entre as massas oprimidas e as classes reacionárias locais. Controlar e reprimir essas rebeliões é um ponto chave para a dominação ianque.

Pois bem. Sabe-se que a classe dominante do Paraguai não está mais conseguindo controlar a revolta dos camponeses e de alguns grupos indígenas locais. A Federação Nacional Camponesa (FNC), que agrupa mais de 30 mil trabalhadores, tem liderado frequentes expropriações de latifúndios e obtido vitórias notáveis (ver edições de AND, fevereiro e abril de 2005). Assim, o que melhor que uma presença efetiva ianque, a partir de uma base militar, para ajudar a reprimí-los?

Outro coelho é a proximidade da base gringa com a gigantesca usina de Itaipu. Geradora de boa parte da energia do Paraguai e do Brasil, a hidrelétrica se transforma potencialmente num alvo fácil para as tropas ianques, uma refém para qualquer eventualidade.

Mais um importante coelho é a possibilidade de domínio sobre a riqueza hídrica daquela área. A água, já definida como um bem que terá em breve um valor comparável ao do petróleo, existe ali em quantidade talvez única em todo o planeta. São os grandes rios Paraná, Iguaçu, Paraguai e Uruguai (os dois últimos a pouco mais de 200 quilômetros da base ianque). Sem falar do Aquífero Guarani.

O Aquífero, que se estende por extensos trechos do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai, é a maior reserva subterrânea de água potável do mundo. E segundo informa o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, a Coca-Cola Company é um dos conglomerados internacionais que negociam uma partilha sobre os ?direitos? de explorar o Aquífero. Os outros são o Suez Lyonnaise des Eaux (França), o Vivendi Environement (proprietário da Nestlé) e o Thames Water (Inglaterra).

Segundo o jornal mexicano La Jornada, o Aquífero ?pode garantir a vital água à atual população do mundo por 180 anos a uma média de consumo diário de 100 litros por pessoa, segundo assinalaram organizações paraguaias?.

Abrindo as portas ao inimigo
Segundo a jornalista Stilla Colloni, do La Jornada, a decisão do Congresso do Paraguai de permitir o ingresso de tropas dos USA no país, com imunidade, permissão de livre trânsito e permanência para seus soldados com vigência até dezembro de 2006, prorrogável automaticamente, ?abrirá as portas a esse primeiro contingente de 400 marines, que pode chegar a milhares de soldados?.

Além disso, ressalta o jornal, há ?a situação de conflito social em que vive o Paraguai, onde tem se dado bloqueios de estradas e outras mobilizações dos camponeses, que reclamam seus direitos?.

Segundo o La Jornada, ?entre os especialistas, ninguém duvida que as tropas norte-americanas farão incursões sobre a zona da Tríplice Fronteira, lugar há muito tempo escolhido por Washington para instalar um assentamento militar?.

E prossegue: ?Isto está dentro do planejamento geoestratégico de Washington, segundo o qual as áreas fronteiriças são ideais para manter tropas de Mobilização Rápida e também outras, dentro do ressuscitado esquema da Guerra de Baixa Intensidade (GBI), projetos de contra-insurgência disfarçados de guerra antiterrorista?.

Presença ?semi-clandestina?
O La Jornada afirmou que recente visita do vice-presidente do Paraguai, Luis Castiglioni, ao vice ianque Dick Cheney, ao secretário de Defesa, Donald Rumsfeld e ao sub-secretário de Estado para Assuntos Hemisféricos, Roger Noriega ?deixou claro o papel que se dará ao Paraguai nas tramas geoestratégicas dos planos dos Estados Unidos para a região?.

No dia 1º de julho, dias antes da ?inauguração? da base militar ianque na Tríplice Fronteira, o embaixador dos USA no Paraguai, John Keane, anunciou uma ajuda financeira vultosa ao país ?para o combate ao tráfico de drogas, ao terrorismo, à lavagem de dinheiro e à corrupção?. Segundo Verena Glass, da Agência Carta Maior e o jornal argentino Clarín, as negociações do governo paraguaio com o USA garantem a entrada e saída livre das tropas, transporte de armas e medicamentos e liberdade total para operar em qualquer ponto do território.

No ano passado, de acordo com o La Jornada, mais de uma centena de soldados ianques foram vistos em Concepción, a cerca de 400 quilômetros ao norte da capital paraguaia. Além disso, mulheres pertencentes a grupos camponeses viram militares do USA rondando o Chaco paraguaio e também Encarnación, na fronteira com a Argentina.

O La Jornada recordou, por outro lado, a existência de um aeroporto do USA em Mariscal Estigarribia, localidade próxima à fronteira com a Bolívia, onde podem aterrisar aviões B-52 e Galaxys, capazes de transportar grande quantidade de tropas e armamentos.

Verena Glass e Luis Bilbao, do Le Monde Diplomatique, afirmam que o aeroporto de Mariscal Estigarribia já vem funcionando de ?modo semi-clandestino? há algum tempo.

Porta-vozes da Comissão de Defesa do Senado paraguaio, ao serem consultados pela imprensa, só se limitaram a responder que o USA são um aliado do Paraguai e que ?os aliados têm que defender um ao outro?.

Paraná e Iguaçu
A base militar no Paraguai não é, porém, a única ação do USA na Tríplice Fronteira. Segundo Andrés Gaudin (www.socialismoo-barbarie), recentemente os ministros do Exterior do Brasil, Argentina e Paraguai concordaram com a proposta gringa de realizar patrulhamento ?conjunto? (leia-se, sob comando e financiamento norte-americano) dos rios Iguaçu e Paraná.

De acordo com Gaudin, ? ainda se desconhece quando começará esta operação, mas o Pentágono já anunciou que fornecerá pessoal, botes de alta velocidade e equipamentos de radar?. Ou seja, muito em breve poderemos ter ?pessoal? norte-americano, em botes velozes, circulando nas Cataratas do Iguaçu e em Itaipu. Para ?proteger-nos? contra o ?terrorismo internacional?, o ?tráfico de drogas? e o ?contrabando?. Acredite quem quiser...

Há também a Operação Novos Horizontes. Esta combina exercícios e treinamentos de tropas ianques e contingentes militares nacionais com ações ?sociais?, como construção de escolas e clínicas rurais.

A Novos Horizontes foi iniciada há algum tempo na República Dominicana, com a previsão de desembarque mensal de 400 soldados do USA. Suspensa temporariamente, devido aos problemas dos gringos na guerra contra o Iraque, soube-se que prosseguiu com a presença de cerca de 100 soldados norte-americanos nas obras de escolas e clínicas.

De acordo com Gaudin, a etapa posterior da Novos Horizontes estava prevista justamente para o Paraguai. Forças especiais ianques do Comando Sul seriam enviadas para treinar as tropas paraguaias em estratégias ?antiterroristas?.

Além disso, segundo Gaudin, o USA está montando um plano de estabelecer na América do Sul um programa de controle alfandegário e de imigração, sob sua supervisão. Denominado ?Novas Ameaças à Segurança Regional? e elaborado pelo Departamento de Defesa norte-americano, o projeto é criar um cordão de segurança, naval, para ?proteger? as costas do Atlântico e do Pacífico contra ?a entrada de grupos terroristas?.

Naturalmente, o argumento é falso e até risível.

O plano faria parte de uma idéia ianque de criar um sistema aduaneiro global, que foi aprovado através de uma resolução do Tesouro do USA, em 31 de outubro de 2002. ?A resolução decreta que a Aduana norte-americana terá seu próprio pessoal em nossos portos?, disse o advogado Arturo Ravina, ouvido por Gaudin.

Segundo o advogado, tal medida não pode ser justificada como parte da luta contra o propalado terrorismo. ?Seria o primeiro passo para o controle sobre a imigração e emigração de nossos países?, disse ele.

Na verdade, seria bem mais que isso. No mínimo, um controle descarado e aberto dos USA sobre o estratégico setor portuário de todas as nações que eles bem entendessem.

(*) Outras fontes consultadas: Jornal La Jornada, México (Stella Colloni); Andrés Gaudin, página www.socialismoo-barbarie; Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos; Agência Carta Maior (Verena Glass); jornal Clarín, Argentina; Le Monde Diplomatique, França (Luis Bilbao)