Construir a outra campanha no DF: Existe Política Além do Voto!!

Olá meus queridos e minhas queridas da luta autônoma do DF,

Já tem algum tempo que diferentes pessoas estão se organizando de maneira autônoma no DF. Se formos olhar pro passado distante, sempre teve gente que percebeu que a (boa) política não está nas instituições, no estado ou no capital. Mas, há mais ou menos 3 anos, alguns pequenos grupos (de pessoas persistentes, as vezes chatas, as vezes perto, as vezes longe) estão organizando conjuntamente uma outra perspectiva de organização social no Distrito Federal. Sejam em movimentos sociais, grupos de mídia, grupos de estudo, radios livres/comunitárias, ações culturais, punks, no hardcore... enfim... seja lá onde estiveram, essa galera deu um pouco do sangue pra construir outra práxis política.

A inspiração vem de longe, e de perto também (é autocrítica). Ela pode ir até o século XIX (chegammos Internacionais!). Pode ir a Seatlle-1999, Gênova-2001 (Resista Globalmente!). Passa pelo turbulento 1968 com a mesma vivacidade que pelo revolucionário 1871, se for em Paris. Vai pro Sindicalismo Revolucionário cheio de barbudos, chega em 1917 na Russia de carequinhas de cavanhaque, vai em 1936 na Espanha das libertárias. Não deixa de lembrar, bem ou mal, das grandes marchas e pequenas guerrilhas - vitoriosas ou não. Por fim, chega aqui perto também: lembra de 1994 encapuzado, com um monte de zapatistas mudando o mundo sem tomar o poder, e também pouco depois uns narigudos e narigudas gritando "que se vayan todos!". Passa também(e talvez principalmente) pelo cotidiano, naqueles fatos que não viram notícia na imprensa burguesa, pois não são espetaculares - mas são tão importantes quanto. Passa por quem também fez tanto quanto quem lembra dessas e de tantas outras datas, mas não teve o luxo de conhecê-las.

Voltando ao DF, procuramos não ficar só gozando com o pau dos outros. Se essas coisas e fatos serviram de inspiração, não ficamos só nos sonhos. Procuramos fazer realidade naquilo que acreditamos ser possível - aquela sociedade contracapitalista, com liberdade de fato (não mais deveres sem direitos/não mais direitos sem deveres). Há algum tempo começamos a afirmar que a sociedade que queremos não passará nem pelo estado nem pelo capital. Começamos a pré-figurar outras possibilidades de organização. Construímos diferentes atividades no DF que, pela maior diversidade que tivessem, uniam-se na premissa básica de que não precisamos daquele pessoal engravatado (com dinheiro ou papel na mão) pra gerir nossas vidas.

Fomos bem ignorantes e intransigentes na construção de nossas premissas: organizamos Encontros de Grupos Autônomos sem termos quase nenhum grupo autônomo na cidade(esquizofrenia!); chamamos grandes atos compostos por 15 pessoas; fechamos metade de uma rua - porque nâo tinhamos força pra fechá-la toda. O mais mais dessa história é que todo esse comportamento ogro, brutal, acabou por ter algum sucesso: grupos autônomos pipocam por todo o DF; nossos atos chamados às pressas tem o triplo de pessoas que estipulamos; hoje fechar ruas é parte do cotidiano de alguns e algumas. Aqueles/as que estavam rindo de nós há alguns anos ou estão hoje ao nosso lado participando ativamente, ou estão respeitando-nos um pouco mais apesar das críticas ou tremem de medo ao ver todo seu prestígio construído sob falsas bases ser derrubado por "essa mulecada baderneira". De verdade... crescemos muito... e não acho mulecagem dizer, do jeito mais brega possível, que ESTAMOS VENCENDO!! Se tinhamos vergonha de fazer alguns atos há algum tempo, hoje temos orgulho de ter superado nossas fragilidades... e continuamos caminhando... mas sempre perguntando.

Mas, mais que querer aparecer pra esses e essas, nosso objetivo continua sendo construir uma sociedade justa e igualitária, certo? Para isso acho que teremos que nos deparar com a realidade, enfrentando todas suas adversidades e espetáculos. Falando em espetáculos, aliás, aproxima-se o grande e tão desesperado festival do voto: as eleições. Os marketeiros ganham rios de dinheiro, a programação fica um pouco mais chata, as ruas mais sujas - cobriram nossas grafites com papel. Vem aí o espetáculo democrático. E é justamente deste espetáculo que eu quero falar: tenho uma impressão de que é ele que guiará boa parte da vida popular nos próximos meses. Aquela afirmação que faziamos, de que as eleições são uma farsa, chega à prova, então.

Como deveriamos nos portar frente às eleições? É correto agirmos como a parte da esquerda que, atônita à suposta crise política, não sabe como avançar além das urnas? Ficaremos como quem, após tantos acordos com este governo, sabe que em um próximo boa parte do que se ganhou será perdido? Assumiremos a irresponsabilidade de colocar um direitoso assumiu no poder, que já declarou a vontade de fazer uma limpesa social no país? Ou ficaremos babando as barbas do gordinho, que não tem mais dedos pra contar quantos bilhões tirou dos pobres e deu aos ricos - no melhor espírito reverso hood? Ficaremos como vovozinhas tricoteiras dizendo "eu não disse?"

Antes de responder a essa questão queria lembrar de 3 histórias. Uma lá do passado, que pode até ser mentira. E duas aqui do presente. A passada é que, no Chile onde a social democracia radical efervescia e o Allende tava pra ganhar a presidência, falam umas más linguas que o Sindicalismo Revolucionário(é, um pessoal libertário), em seu congresso anterior às eleições, decidiu que no período próximo sequer tocaria no assunto - fizeram silêncio frente ao pleito ao invés de combatê-lo frontalmente. Outra história é que o Exército Zapatista de Libertação Nacional está promovendo Outra Campanha no México, frente às eleições - uma marcha não eleitoral, mas sim social, por todo o país. Em SP e RJ, também, alguns grupos libertários estão puxando uma campanha chamada "Existe Política Além do Voto!", pra propagandear tudo aquilo que importa políticamente (sua ação política entre uma eleição e outra). Quem não se organiza é organizado, já diria um amigo meio mala que eu tenho...

Tem também uma quarta história, nacional, que é a que vejo que estamos vivendo - e dessa não precisamos lembrar: após um grande esforço de quase toda esquerda brasileira pra colocar o gordinho no poder ele brochou. Fez tudo aquilo de ruim que há muito já falávamos que ocorreria caso ocupássemos esse espaço dos burguesão... do sistemão(o estado). Pior ainda, fez mais porcarias possíveis, típicas dos direitão no poder. A descrença do povo nas instituições cresceu, pela experiência prática de que elas não resolverão nossos problemas - na verdade aumentarão...

No DF, voltando e tentando responder, talvez possamos fazer um mix dessas duas coisas atuais - do México e RJ/SP. A idéia que queria lançar era de que fizéssemos uma caravana... outra campanha propagandeando, por meio de nossas práticas, que existe política além do voto. Podemos aproveitar esse momento pra resolvermos os dois problemas que temos enfrentado ultimamente, que são o fato de estarmos meio dispersos (nosso espaço de troca de experiências - a Convergência de Grupos Autônomos - tá meio parado) e a nossa pouca visão de como se organiza o todo do Distrito Federal (geralmente temos trabalhos ou relações em algumas cidades do DF mas não compreendemos como se estrutura o todo da região). Além disso atuamos como nos pede o momento, uma vez que cresce cada dia mais a idéia de que somente teremos uma profunda transformação social se fizermos por onde no dia a dia. Vamos mostrar nossas alternativas a esse sistema e essa política =)

Podemos fazer assim: escolhemos, de todas as cidades da região, algumas onde achamos que temos como fazer um bom trabalho. Determinamos um tempo para atuação na região (2 semanas, por exemplo). Neste período cada grupo desenvolve suas atividades de propaganda da cidade (O CMI pode fazer oficinas de mídia, o MPL pode fazer discussões sobre transportes, a Escola Livre de Filosofia pode fazer um mini debate, a A.R.D.C uma discussão sobre autonomia, o K.R.A.P. sobre anarcopunk, e outros grupos sobre suas coisas, etc.) e finalizamos o período com um pequeno evento onde todos os grupos compareçam e conversem com as pessoas da região. Daí podem tirar-se encaminhamentos - algum grupo entrar na caravana, alguma organização local, etc. - que ficam a cargo da discussão coletiva (nossa e do pessoal). Aí partimos pra outra cidade, e fazemos o mesmo processo. Finalizado o ciclo de cidades fazemos um encontrão (quem sabe o 3° Encontro de Grupos Autônomos) tirando encaminhamentos efetivos pra uma política social para além do voto, das urnas, das instituições etc. Tudo, é claro, com muita propaganda, boletins, etc.

Acho que assim acumulamos mais pros nossos projetos tanto individual quanto coletivamente. Conhecemo-nos melhor, ficamos mais próximos durante as atividades e etc. Também evitamos entrar em discussões infindáveis e desnecessárias sobre quem votar nessas eleições - quem quiser fazer isso ou aquilo da vida que o faça, mas fique pra luta social fora do estado/mercado(e contra eles), que é o que importa. Se existe política além do voto, importemo-nos com a política além do voto e não com as urnas. Deixemos ao voto sua real e total insignificância. Tenhamos maturidade e sinceridade para reconhecermos aonde devemos concentrar nossos esforços. E saibamos que nossas vidas não podem pautar-se em ciclos eleitorais.

Um bom local pra começarmos essa discussão, no meu entendimento, é o encontro que a Ação Rebelde Dignidade Candanga está organizando aqui no DF - Intergalático-DF . O encontro será nos dias 3 e 4 de junho, lá na Biblioteca Demonstrativa de Brasília. Durante o primeiro dia serão feitas atividades sobre os princípios básicos do zapatismo, e no segundo dia haverá discussão sobre intervenções durante as eleições. Se lá pudermos encaminhar as coisas seria muito legalzinho, viu? Apareça!

Saudações a aqueles e aquelas que chegaram ao final deste texto. Se tiverem interesse em fazer essa campanha crescer mais e mais repassem esse chamado.

Niganark

Maio de 2006