Estimad@s compas Intergalátic@s,

Isto que vocês estão lendo é uma tentativa de relatar o que aconteceu no Encontro Intergalático DF – Zapatismo, a Outra Campanha e Eleições no Brasil, ocorrido nos dias 3 e 4 de junho de 2006. O encontro contou com cerca de 80 pessoas rebeldes que, pensamos nós, saíram ainda mais rebeldes deste encontro, porém, agora, rebeldes intergalátic@s. Enfim, pularemos as piadinhas sem a menor graça e tentaremos ser sucint@s. Dentre estas 80 pessoas estavam participantes dos seguintes grupos: nós da Ação Rebelde Dignidade Candanga,o Centro de Mídia Independente – Brasília, Movimento Passe Livre-DF, Coletivo Luta de Classes, Coletivo de Resistência Anarco Punk,Exército Revolucionário Insurgente de Palhaços, Comitê Autônomo Estudantil, Grupo Interagir, Escola Livre de Filosofia, Corpus Crisis e um coletivo sem nome que disse que não quer ter nome e a gente não tem nada a ver com isso. Além de integrantes destes grupos apareceram ainda os delegados de si mesmos, quer dizer, indivíduos como qualquer um de nós. Mesmo sabendo que o encontro era um chamado à grupos e indivíduos que pretendessem lutar ou lutassem abaixo e à esquerda, compareceram algumas pessoas do Partido dos Trabalhadores(PT) e do Partido Socialismo e Liberdade(PSOL). Tais pessoas respeitaram o espaço e a dinâmica de um encontro com outros propósitos que não os partidários e, com suas opiniões e posições divergentes, enriqueceram o debate. Bem, agora vamos ao relato!

DIA 3 DE JUNHO (SÁBADO)

Começamos o encontro com uma apresentação de slides e fotos contando o histórico do movimento zapatista e suas inovações. Não sabemos bem que nota os zapatistas dariam para esta apresentação, mas como eles não estavam lá no encontro todo mundo comentou que foi bem legal e até acharam que a gente entendia bastante da coisa. Bem, podemos disponibilizar esta apresentação caso alguém queira dar uma olhada, basta nos mandar um e-mail ( ardc@riseup.net).
Depois disso iniciou-se um debate sobre a importância ou não de se lutar abaixo e à esquerda, sobre o apartidarismo, formas de organização popular, a horizontalidade e a luta organizada em redes, o processo de luta onde se caminha perguntando, porque os zapatistas pegaram em armas e a necessidade de tecer e fortalecer redes anticapitalistas de luta e organização popular.
Bem, uma importante parte deste debate girou em torno do tema de se tomar ou não o poder estatal, ou seja, de se lutar ou não abaixo. Os argumentos para se lutar por meio de partidos políticos e galgar posições de poder enfatizavam que nem sempre os meios para se atingir um determinado objetivo serão coerentes com os fins e que, portanto, é normal que tais contradições existam. Que era importante tomar o poder estatal para tentar dissolvê-lo e que este somente poderia ser desmantelado caso fosse assumido pelo poder popular, afinal, quem iria expropriar os expropriadores? Porém, @s que argumentaram pela luta abaixo enfatizaram que se em algum momento fosse necessário entrar em contradições, que tal decisão não deveria ser relegada a uma vanguarda ou grupo separado, mas que tais contradições, caso necessárias, deveriam ser
discutidas, decididas e assumidas por tod@s. Foi dito que não faz sentido tomar o poder pois as transformações acabam sendo feita de cima pra baixo, acabam sendo impostas. Também foi dito que o processo de tomada do Estado transformava-se em um processo de defesa do Estado, e que a luta pelo poder Estatal transformava-se numa defesa de um poder opressor, visto que a nossa democracia representativa não tinha ligação com nenhuma espécie de democracia direta. Além disso, perdia-se muito tempo nos meios e prolongava-se os fins para o dia de são nunca. Argumentou-se também que o poder popular é extenso, plural e abrangente e que, portanto, não pode caber dentro de um poder Estatal, restritivo, centralizado e homogeneizador. Logo, não era apenas o poder dos expropriadores que deveria ser expropriado pelo poder popular, mas também o poder do Estado e dos governantes. Apesar da discussão o consenso de se lutar abaixo e à esquerda não foi alterado, pelo contrário, se solidificou e se fundamentou ainda mais.
O 1º dia de encontro chegou ao fim e fomos dormir ansios@s para o dia seguinte. Porém, enquanto descansávamos, chegava em nosso e-mail uma mensagem da Comissão Intergalática do EZLN, em apoio ao encontro. Dormimos tanto e tão profundamente que nos esquecemos de conferir nosso e-mail e não pudemos ler a mensagem durante o encontro, porém aí está ela:


EJÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERACIÓN NACIONAL
MÉXICO

A: Los Compañeros y compañeras, hermanos y hermanas del encuentro zapatista de Brasilia, en Brasil.
DE: Comisión Intergaláctica del EZLN
3 de Junio de 2006
Son las 7:48 de la noche cuando les escribo esto para l@s compañer@s presentes en el encuentro, convocados por la Ação Rebelde Dignidade Cadanga.
Aunque llega un poco tarde nuestro saludo, lo importante es que pueda llegar. Reciban pues este saludo rebelde para su encuentro “Encuentro Intergaláctico – Zapatismo y Otra Campaña y las Elecciones en Brasil”.
Compañeras y Compañeros:
Merece una buena discusión la situación en la que nos tienen los neoliberales y los capataces capitalistas que dicen que gobiernan nuestros países. Los neoliberales son los que mandan de por sí en el mundo y los gobiernos capitalistas en cada país son los encargados de hacer cumplir lo que quieren los neoliberales.
¿Dónde quedamos nosotros los pobres del mundo?
¿Qué es lo que vamos a hacer nosotros con este mundo?
Por eso es bueno que vayamos juntando nuestros pensamientos, nuestras ideas e ir uniendo ya nuestras luchas. Conocernos de cómo luchamos, transmitirnos nuestras formas de resistencia, sin dejarnos abandonados los unos y los otros…
Ya es hora, porque si nos dejamos será peor para nuestras vidas y también para nuestros pueblos y su futuro.
A organizarnos entonces compañer@s con la decisión firme de LIBERARNOS del dominio NEOLIBERAL.
Trabajemos entonces, en busca del camino y de la mejor forma que encontremos para que luchemos todos juntos por el mundo que queremos. Esto se consigue solamente discutiendo, analizando, y luego decidiendo en común el camino a seguir.
Esa es la tarea del Encuentro Intergaláctico que soñamos; ya un
buen día llegará su realización. Por eso hay que trabajar duro compañeras y compañeros.
Adelante compas de Brasil, estamos con ustedes.
Por la Comisión Intergaláctica del EZLN
Teniente Coronel Insurgente Moisés


DIA 4 DE JUNHO (DOMINGO)

Começamos o encontro neste dia fazendo um breve relato das origens do Encontro Intercontinental pela Humanidade e Contra o Neoliberalismo, ou seja, O Encontro Intergalático mesmo. Não nos referimos a este que estamos relatando. Na verdade achamos que há dez anos atrás os zapatistas pressentiram que um dia nós aqui em Brasília íamos fazer um encontro com este nome de Intergalático, e só para criarem confusão resolveram fazer um bem maior e mais intergalático do que o nosso dez anos antes. Mas nós não estamos nem aí, nem se quer nos incomodamos e, portanto, resolvemos colocar quase o mesmo nome no encontro que fizemos dez anos depois, este
que estamos relatando agora. Resolvida esta confusão que, insistimos, não foi iniciada por nós, começamos a discutir a necessidade de se tecer e fortalecer redes de indivíduos, grupos e organizações anticapitalistas, que lutem ou pretendam lutar abaixo e à esquerda. Discutimos como poderíamos nos organizar de maneira horizontal, respeitando uns/umas a organização d@s outr@s. E foi aí que alguém falou:
- Ei! vamos criar uma convergência de grupos e indivíduos autônomos aqui no DF!
Mas logo outro alguém lhe respondeu:
- Essa convergência já existe, foi criada a dois anos atrás(2004) durante o 1º encontro de grupos autônomos do DF e foi dela que surgiu o Movimento Passe Livre DF, importante movimento social em Brasília, de caráter nacional, que luta pela desmercantilização do transporte coletivo urbano.
-Ora, se já existe esta convergência então não precisamos mais fazer nada. Já está feito!
- O problema é que já faz algum tempinho que a convergência está desativada. E a CGA(Convergência de Grupos Autônomos) não era propriamente uma convergência de grupos. Eram pessoas que participavam de distintos grupos e de tanto em tanto tempo se encontravam para trocar idéias e colocar em prática coisas de interesse comuns a tod@s, como por exemplo o jornal Autonomia DF e a criação do Movimento Passe Livre DF.
Bem, se a convergência já existia nossa tarefa de tecer redes locais parecia estar meio caminho andado. Então alguém disse:
- Pois então vamos reativar a CGA! Mas agora, vamos nos encontrar periodicamente com no mínimo um delegado rotativo de cada grupo autônomo, junto com pessoas que também se interessarem pela luta abaixo e à esquerda.
Mas foi então que alguém precavidamente ressaltou:
-Calma camarada! Não podemos decidir nada aqui pelos nossos grupos. Não viemos como delegados ou representantes. Podemos dialogar em nossas assembléias e voltar a nos encontrar para que assim tod@s decidam e participem.
Então, foi a partir daí que resolvemos pensar em vários pontos a serem discutidos com os grupos dos quais fazíamos parte, e quem não fizesse parte de grupo nenhum poderia discutir com amigos, colegas e vizinhos. Decidimos que nos encontraríamos 15 dias depois no centro da cidade já com os pontos refletidos e algumas posições tomadas pelos grupos. Os pontos que decidimos discutir para serem retomados nesta próxima reunião são:

a. A CONVERGÊNCIA DE GRUPOS AUTÔNOMOS PASSARÁ A SE ORGANIZAR ATRAVÉS DE DELEGADOS DE CADA GRUPO OU INDIVÍDUOS AUTÔNOMOS NO ACOMPANHAMENTO DAS DISCUSSÕES E PLANEJAMENTO DE AÇÕES CONJUNTAS EM RELAÇÃO AOS TEMAS PROPOSTOS

b. OS DIVERSOS GRUPOS ORGANIZARÃO CARAVANAS PELAS CIDADES DO DF COM EVENTOS PARA DISCUSSÃO DOS TEMAS SUGERIDOS E COMO ESTÍMULO A FORMAÇÃO DE GRUPOS QUE LUTEM ABAIXO E À ESQUERDA PARA AMPLIAÇÃO DA REDE DE GRUPOS AUTÔNOMOS NO DF

c. ATRAVÉS DA CONVERGÊNCIA SE COORDENARÁ O ESTÍMULO À CRIAÇÃO DE NOVOS GRUPOS AUTÔNOMOS BEM COMO A COMUNICAÇÃO ENTRE TODOS NO DF

d. RETOMAR O JORNAL AUTONOMIA, QUE PODERÁ DIVULGAR O DESENVOLVIMENTO DESTES PROJETOS

e. A CGA PODERÁ ORGANIZAR O 3º. ENCONTRO DE GRUPOS AUTÔNOMOS DO DF

f. A CGA PODERÁ SE PROPOR A ORGANIZAR O ENCONTRO INTERGALÁTICO BRASIL

g. OS GRUPOS IRÃO DISCUTIR SUGESTÕES DE ESPAÇO FÍSICO PARA A CONVERGÊNCIA

h. A CGA PODERÁ ORGANIZAR UM RESGATE EM REGISTRO HISTÓRICO DAS LUTAS NO DF

i. DEVERÁ SE DISCUTIR A PARTICIPAÇÃO DA CONVERGÊNCIA EM OUTROS ESPAÇOS COMO O “GRITO DOS EXCLUIDOS”

j. DEVE-SE FAZER UMA AVALIAÇÃO DOS ERROS DA CGA

k. A CGA PODERÁ FAZER UM MAPEAMENTO DOS GRUPOS AUTÔNOMOS DO DF

l. DISCUSSÃO SOBRE OS PRINCÍPIOS DA CGA E FORMULAÇÃO DA PAUTA DE LUTAS CONJUNTAS

m. MIGRAÇÃO DOS SITES E BLOGS DOS GRUPOS AUTÔNOMOS PARA SERVIDORES LIVRES.


n. OFICINAS DE GRUPOS E PESSOAS AUTONOMAS DA PERIFERIA PARA A
OFICINAR A CONVERGÊNCIA DE GRUPOS AUTÔNOMOS.


o. OS GRUPOS DA CONVERGÊNCIA QUE SE INTERESSAREM, ORGANIZARÃO UMA CAMPANHA PELO VOTO NULO, SEM INTERFERÊNCIA DOS GRUPOS QUE DISCORDAM

p. A DISCUSSÃO SOBRE AS ELEIÇÕES DEVE CONTINUAR ENTRE OS GRUPOS

q. DEVE SER FEITA UMA DISCUSSÃO SOBRE AS FORMAS DE FINANCIAMENTO DOS GRUPOS PARTICIPANTES DA CGA

r. DEVE-SE PENSAR MINUNCIOSAMENTE A PROPOSTA DE UMA OUTRA CAMPANHA QUE ENFOCA A POLÍTICA ALÉM DO VOTO

Listado todos esses pontos no quadro para que todos pudessem opinar, sugerir e anotar, passamos para o debate sobre a intervenção nas eleições que ocorrerão este ano no Brasil, e nossas possíveis posturas e intervenções durante este período.
Alguns companheir@s propuseram uma espécie de outra campanha no DF, uma caravana de grupos autônomos que estimulasse à organização popular abaixo e à esquerda. Que dialogasse com os setores organizados ou não da sociedade, num esforço de tecer redes locais que lutassem contra qualquer tipo de humilhação, injustiça e imposição de poder. Que fomentasse o surgimento de grupos e coletivos que pudessem exercer cotidianamente a liberdade e o poder popular.
Uma rede plural e diversificada, formada por pessoas simples, homens, mulheres, velhos e crianças, aqueles que lutam diariamente para existirem em um mundo injusto, @s que insistem em morar, respirar e viver contra tudo e todos. Tudo e todos que nos expulsam para mais e mais longe, todas as discriminações, os preconceitos, os olhares tortos e desconfiados, os olhares que não nos enxergam, que nos ignoram, que insistem em dizer que não deveríamos estar ali a não ser para obedecer e servir.
Seria então necessário realizar esta outra campanha, que estivesse abaixo e à esquerda, uma outra campanha que mostrasse que existe política além do voto. Uma caravana que não se limitasse a dizer em quem votar para resolver nossos problemas, que não se limitasse a pedir que as pessoas escolhessem nas urnas o menos pior. Uma caravana realista, que exigisse simplesmente o que nos parece agora, e somente agora, o impossível. Que exigisse nossas vidas de volta, nossa liberdade, nosso direito de nos organizar e decidir os caminhos e rumos que queremos tomar, que exigisse o direito de construir esses caminhos. Apenas, só, pura e simplesmente isso.
Pensamos, depois de uma longa discussão sobre votar ou não votar nulo, que este não deveria ser o foco de tal caravana. @s que quiserem votar nulo, e realizar tal campanha, que assim o façam. @s que preferirem escolher algum candidato, por que se um outro ganhar pode vir a ser muito pior, que também sigam em frente. Não conseguimos chegar a um consenso quanto a isso. Porém, ao final, cremos que chegamos a um consenso muito mais importante, o de que era necessário se organizar cada vez mais e mais, e assim faremos. Um certo camarada disse:
-Se tenho que gastar três horas para convencer alguém de que é preciso se organizar abaixo e à esquerda, e as mesmas três horas para convencê-l@ a votar nulo, não tenho dúvida de que escolherei a primeira opção.
E assim refletimos e vimos que deveríamos tomar este caminho. Esta deveria ser nossa prioridade ao invés de ficar discutindo eternamente se votávamos ou não nulo. Mas como seria esta caravana? Esta política além do voto? Esta outra campanha? O alvoroço dentro da sala na qual discutíamos era tão grande que acabou por acordar o vigia da biblioteca onde realizávamos o Encontro Intergalático – DF. Já passávamos mais de uma hora do prazo combinado com o local e, para não perturbar ainda mais o pobre do vigia, que se espreguiçava indagando se iríamos ou não terminar toda aquela conversa fiada, tivemos que encerrar o encontro por ali.
Mas e agora? Como daremos continuidade a todos este projetos? A resposta se chama Convergência de Grupos Autônomos. Portanto, tod@s aquel@s que estiverem dispostos a lutar abaixo e à esquerda estão convidad@s para aparecerem no CONIC, em frente do Ponto do Guaraná, às 14:30 neste domingo, dia 18 de junho. Ficamos assim encarregados de discutir os pontos citados acima e levá-los para a reunião da convergência neste dia. Abraços para tod@s aquel@s que conseguiram terminar de ler este relato enorme.

Ação Rebelde Dignidade Candanga


PS.: Domingo, dia 18 de junho, tem jogo do Brasil X Austrália na Copa do Mundo, a uma hora da tarde!!! Sabemos que muit@s internacionalistas e pessoas que não curtem o bom futebol, e o ruim também, não gostarão de alterar o horário da reunião da CGA. Porém, acreditamos que @s apaixonad@s por futebol se recusarão a perder o final do jogo para comparecerem no horário. Pensamos que talvez o melhor fosse mudar a hora da reunião para às 15:30. Combinado?