No fim de 1999, um agente literário chamado John Brockman enviou a cientistas, empresários, filósofos, artistas, escritores e pesquisadores, a seguinte pergunta: "Qual a mais importante invenção dos últimos 2.000 anos? Por que?".

Com as respostas obtidas Brockman organizou um livro com uma lista que é um verdadeiro samba do crioulo doido. Dela fazem parte 109 conceitos, entre eles, a borracha de apagar, o espelho, a bateria elétrica, a aspirina, o relógio, o feno e até o cristianismo e o ego humano.

Entre as respostas tidas como sérias, estão o arado, a imprensa, a luz elétrica, a pílula anticoncepcional, o papel, a televisão, o telescópio e a Internet. Mas, houve quem elegesse os óculos! E um gozador escolheu a garrafa térmica justificando: "Ela conserva frio o que é frio, e quente o que é quente. Mas, como é que ela sabe?"
Os inventores continuam em ação, mas, suas invenções, muitas vezes, não merecem nossa atenção. A maioria deles é considerada visionária e, exatamente por isso, é objeto de nossa omissão. O que é um tremendo erro.

Reginaldo Marinho é um paraibano que durante muito tempo andou pelos ministérios, órgãos públicos, empresas e redações dos jornais brasileiros, tentando mostrar às pessoas que tinha inventado algo muito importante. Ninguém acreditou nele...

Depois disso, Reginaldo ganhou a Medalha de Ouro no 28º Salão de Invenções e Novas Tecnologias, em Genebra, concorrendo com mais de 600 outros "visionários" vindos de 44 países. Em seguida mereceu nova medalha de ouro, desta vez no BBC Tomorrow's World Live, em Londres. Ele é o único brasileiro premiado com duas medalhas de ouro em salões internacionais de tecnologia.

Seu invento, o "Construcel", é uma estrutura plástica prismática, tecnologia a ser utilizada na construção de grandes áreas cobertas sem que sejam necessárias colunas interiores de sustentação.

Há algum tempo Reginaldo voltou ao Brasil, mais propriamente à Paraíba, sua terra natal.

Tentou a todo custo participar da vida paraibana e se inserir num contexto compatível com seus conhecimentos. Traduzindo, um cérebro brilhante à cata de uma ocupação, procurando emprego. Procura inútil... Depois de bater em muitas portas, sem que lhe dessem a atenção que merece, Reginaldo vai embora do país. Ele resolveu ir morar na Espanha.

Não vai feliz... Cinqüentão, extremamente sensível, diz que vai sentir muita falta do Cabo Branco e da Lagoa.

O desprezo que muitas vezes se dá a inventores "visionários" prejudica até o país de sua origem. No Brasil há um hábito de dar muita atenção ao que é estrangeiro e não valorizar a prata da casa. A uma prata valiosíssima como é Reginaldo, não se dá o devido valor.

Tanto o governo estadual como a administração de João Pessoa mencionam ações em Ciência e Tecnologia. Não sei exatamente os resultados que têm dado as secretarias governamentais encarregadas dessas ações. Mas, com certeza, elas ainda não estão em situação de prescindir de cérebros brilhantes, mentes privilegiadas que possam criar projetos para o desenvolvimento tecnológico em nossa terra. Mesmo carente desses cérebros extraordinários, estamos deixando escapar um deles, provavelmente, para pôr seus préstimos à disposição da Espanha.

Por volta de 1490, os reis da Espanha, Fernando e Isabel, receberam o genovês Cristóvão Colombo, que pedia financiamento para uma expedição marítima em busca de novas terras. Prudentemente, o casal de monarcas encaminhou o projeto de Colombo para apreciação prévia dos sábios da Universidade de Salamanca, que a ele deram aprovação. Colombo ganhou três caravelas, Santa Maria, Pinta e Nina, e não deixou os professores de Salamanca a ver navios. Em 1492 se mandou mar adentro e deu no que deu... Na América Latina, com exceção do Brasil, todos os países, do México até a Argentina, foram colonizados pela Coroa espanhola.

Sr. Governador Cássio! Sr. Prefeito Ricardo Coutinho! Mandem chamar nosso inventor. Talvez ainda haja tempo de evitar essa emigração.

Senão, com o potencial científico e a criatividade que tem Reginaldo Marinho, não duvido que os reis Juan Carlos e Sofia ou o primeiro ministro Zapatero, acolham suas idéias e, muito em breve, teremos notícias dele navegando em mar azul, devidamente financiado, atuando na segunda mais antiga universidade do mundo, a de Salamanca.

Aí, nós é que ficaremos a ver navios.

* Marcus Aranha é médico e escritor