1 ? O nome ?pobres & nojentas? é uma ironia ou um desafio às revistas de ?entretenimento? do status quo voltadas para as mulheres?

O nome é uma ironia e um desafio. O fato é que eu cansei de ver essas revistas do tipo Caras, Ricos e Famosos, Isto É gente e outras tais, o tempo todo falando da vida de pessoas ricas e famosas..Ou seja, é sempre o mesmo velho jornalismo que só dá voz ao oficialismo ou a quem tem dinheiro. Durante toda a minha vida como repórter eu conspirei de um jornalismo que busca outras fontes, que não estão nas salas acarpetadas...são as pessoas comuns, que têm as suas histórias, que constroem mundos e são tão importantes quanto o artista da novela, talvez até mais. Então, como a mídia normal não abre espaço para essas gentes, eu e mais alguns compas decidimos fazer nossa própria revista. Que ela fosse de classe e de gênero, priorizando a mulher e as gentes empobrecidas. Nosso objetivo é contar as histórias das pessoas que fazem esse país caminhar.

2 ? A mídia corporativa discrimina os pobres sistematicamente para mantê-los alienados, ou os discrimina mais ainda quando se organizam através de movimentos sociais e populares?

As duas coisas... O pobre só aparece nos jornais e nas TV quando é vítima de alguma catástrofe - como uma enchente, um incêndio ou qualquer coisa do gênero ? ou nas páginas policiais, como bandido. Raramente tu vê num órgão da imprensa a figura de alguém pobre que seja vista de forma positiva. Mesmo quando se as gentes se organizam em movimentos de luta, reivindicativos, são sempre vistos como marginais, baderneiros etc... A impressão que a gente tem é de que os pobres são sempre um estorvo ao país. Assim, o pobre é sempre mostrado como uma aberração, um entrave ao sistema. É uma forma de alienar, porque acaba repetindo ad infinitum a idéia de que ser pobre é sinônimo de coisa ruim, e também marginaliza, uma vez que torna todas as suas lutas um símbolo de confusão. Nossa proposta é justamente romper com isso. Os pobres na verdade não são pobres, eles são empobrecidos pelo sistema que os oprime. E não fazer parte desse padrão absurdo de consumo que a classe média e os ricos se impõem não significa de forma alguma que sejam loucos.

3 ? Existe um estereótipo feminino reproduzido pelos canais da mídia ?
E se existe como identifica-lo?

Lógico. O feminino midiático é branco, magrinho, esguio, elegante, bem vestido, de pele bem tratada. É a imagem da mulher bonita que consome roupas de grife. A mulher brasileira ? na sua diversidade étnica ? não tem vez. Mesmo a revista Raça, que é voltada para o público afro-descendente acaba reproduzindo a mesma lógica. De uma mulher negra, mas exatamente igual a que aparece na Revista Nova, Corpo e Saúde etc... Cadê as mulheres reais? As sindicalistas? As guerreiras? As camponesas? As trabalhadoras das fábricas, do comércio, do escritório? Cadê as mulheres reais que não passam pelo foto shop??? São essas mulheres e homens reais que a nossa revista se propõe mostrar...

4 ? Não acha que a atenção da mídia corporativa está voltada para a implantação de uma ?ideologia do medo?, ou seja, um bombardeio diário de ?notícias ruins? que reforçam subliminarmente uma forma de controle social/mental ?

Também.. Uma coisa que os poderosos têm muito medo ? é, porque eles também têm medo ? é do povo organizado. Quando a classe média e os ricos vêem uma passeata massiva eles se apavoram. Têm medo do povo. Então, a melhor tática é assustá-lo primeiro. Daí toda essa lógica de notícias ruins e todo esse estereótipo de que o pobre, o negro, o feio, o sujo é sempre malvado. Não é á toa que a classe média sempre temeu estar junto com as lutas populares. Ela teme aqueles que considera a ralé. Por isso é fácil os programas de televisão do tipo ?mundo cão? mostrar os ?bandidos?, sempre de um jeito nojento e pejorativo. Se o cara é pobre ou negro, o repórter o obriga a mostrar a cara, o policial o obriga a aparecer na TV. Mas se é um juiz ou um jornalista que matou a namorada são os próprios policias que os escondem das câmeras. É sempre o jogo de dois pesos, duas medidas. Ser empobrecido nesse país é sempre representar o feio, o ruim. Na P&N é o contrário. Os empobrecidos são mostrados na sua luz. O crime não é coisa de pobre, mas quem vê TV acha que sim... Daí todo o medo que as pessoas com mais condição financeira têm dos pobres.

5 ? O que pensa sobre a importância da contra-informação em suas variantes tais como, Rádios livres, tvs comunitárias, blogs, etc?

São fundamentais embora não tenham a mesma força ainda. As Tv comunitárias geralmente são por cabo. Não chegam no povão... Já a Globo chega a 98% dos lares. Como competir??? A internet é uma ferramenta poderosa, mas também limitada. Os pobres não têm acesso. O que pode funcionar mesmo são as rádios comunitárias ? se verdadeiramente comunitárias ? os panfletos, os jornais, enfim, todo o material alternativo possível. Mas não deve sair do nosso horizonte a possibilidade de conquistar os meios de comunicação ? que são públicos ? para a maioria. Imagina você a gente com uma Globo na mão? Teríamos um instrumento forte para a mudança de muita coisa.

6 ? A subversão é uma forma possível de se alcançar o impossível ?

Só podemos alcançar o impossível subvertendo a ordem que nos domina e oprime. Veja bem, o problema não é a ordem em si, mas a dominação. Um povo precisa ser livre, encontrar formas participativas de caminhar, de governar, de viver. Os povos originários de ?nuestra América? têm experiências incríveis sobre como viver em comunidade, decidindo juntos seu rumo. Nós precisamos aprender muito com eles. Por termos sido colônia, aprendemos a organizar nosso mundo através da visão eurocêntrica, rejeitando o modo de vida autóctone. Agora, com o levante dos povos indígenas em toda a América Latina, isso está mudando. Os zapatistas no México já governam 35 cidades segundo a lógica do ?caminhar perguntando? e do ?mandar obedecendo?. Isso parecia impossível até ontem.. agora não é mais. Eles lá subverteram a ordem e estão caminhado... Acredito que vai chegar a nossa vez... É só a gente ter a delicadeza de aprender com os povos mais antigos, os daqui, os originários....