Sex, 15 Set - 08h49

Morre aos 77 anos polêmica jornalista italiana Oriana Fallaci

Por Sophie Hardach

MILÃO (Reuters) - A jornalista Oriana Fallaci, uma das escritoras e correspondentes de guerra mais conhecidas da Itália, morreu na sexta-feira, aos 77 anos, de câncer. Ela morreu em Florença, depois de vários anos combatendo a doença, disse um funcionário do hospital.

Agressiva e provocadora até o fim, Fallaci ganhou fama por suas entrevistas audaciosas com alguns dos mais importantes líderes do século 20.

Ela discutiu com o líder palestino Yasser Arafat, fez o então secretário de Estado dos Estados Unidos Henry Kissinger se comparar a um caubói e rasgou um chador (traje islâmico tradicional) durante um encontro com o líder revolucionário iraniano aiatolá Khomeini.

"Morreu uma grande italiana e uma escritora corajosa que teve uma vida cheia de paixão, cheia de amor, com grande braveza civil", disse à Reuters Ferruccio De Bortoli, editor-chefe do jornal Sole 24 Ore.

Foi De Bortoli quem publicou um ensaio furioso de Fallaci, que depois se transformaria no polêmico "A Raiva e o Orgulho", em que ela chamava o Islã de opressor e acusa os imigrantes árabes que vivem na Europa de serem sujos e intolerantes.

Ela conclamou os europeus a defender suas culturas e seus valores em vez de apenas se adaptar às necessidades dos imigrantes.

"O livro era um grande apelo pelo orgulho de nossa identidade", disse De Bortoli, ex-editor do Corriere della Sera. "É o mais forte testemunho da reação emocional e intelectual aos ataques do 11 de Setembro".

Num livro posterior, "A Força da Razão", Fallaci escreveu que a fé islâmica "semeia o ódio no lugar do amor e a escravidão no lugar da liberdade".

Um juiz italiano chegou a ordenar que Fallaci fosse a julgamento por difamar o Islã, mas o caso não chegou aos tribunais.

A polêmica causada por seus ensaios anti-Islã não surpreendeu Fallaci, que cultivou a controvérsia em sua carreira até se tornar uma escritora reclusa e irritada em Nova York.

Ela começou a dar mostras de como era destemida ao participar da resistência antifascista italiana, ainda adolescente, e depois revelou a mesma coragem ao se tornar correspondente de guerra.

Cobriu conflitos no Vietnã, no Oriente Médio e na América Latina, numa época em que eram escassas as mulheres na frente de batalha. Levou um tiro e foi espancada durante protestos estudantis no México, em 1968.

Depois, ela fez sucesso com romances de ficção como "Um Homem", inspirado em seu caso com o grego Alexandros Panagoulis. Também publicou uma coletânea de entrevistas com personalidades como a primeira-ministra israelense Golda Meir, o xá do Irã, a primeira-ministra indiana Indira Gandhi, entre outros.

Na entrevista que fez com Kissinger, Fallaci alfinetou o norte-americano até que ele admitisse que a Guerra do Vietnã era "inútil". Kissinger escreveu depois que a entrevista foi "simplesmente a conversa mais desastrosa que já tive na vida com qualquer integrante da imprensa".

Segundo o relato da própria Fallaci, ela discutiu aos gritos com Arafat e começou uma entrevista com o líder líbio Muammar Kadafi ridicularizando seu manifesto, dizendo que ele era "tão pequeno e insignificante que cabia em sua caixinha de pó-de-arroz".

Muitos adoravam seu estilo polêmico, mas houve quem a acusasse de tirar frases do contexto e de exagerá-las para apimentar uma reportagem.

O presidente Giorgio Napolitano declarou: "Com (a morte de) Oriana Fallaci, perdemos uma jornalista de fama global, uma escritora de grande sucesso, uma protagonista apaixonada de vigorosas batalhas culturais".

Os livros de Oriana Fallaci estão disponíveis em português na tradução da editora portuguesa Difel.