O conflito em Oaxaca (entre o governador do PRI Ulises Ruiz e os movimentos populares) permaneceu dentro de balizas políticas até o dia 28 de outubro. A partir daí houve um vertiginoso deslocamento para o âmbito militar, depois de uma jornada sinistra em que forças irregulares, supostamente vinculadas ao governador, se mobilizaram para construir um cenário de violência desordenada e incontrolada. Isto possibilitou a intervenção da Polícia Federal Preventiva, uma corporação policial-militar criado para fins de segurança interna, e que possui um estatuto inconstitucional.

A inteligência militar, sob o comando direto dos membros do Centro de Investigação e Segurança Nacional (CISEN), que formam o Estado Maior (ou Comando Conjunto), toma a seu encargo a província de Oaxaca depois desses acontecimentos que, entre outras conseqüências, provocaram a morte do câmera norte-americano Brad Will. Assim uma disputa política transformou-se num assunto de segurança nacional, e começaram os preparativos para uma operação de guerra.

O Ministro do Interior (Ministro de Gobernación) definiu a operação como uma "ocupação", e nela trabalham conjuntamente a PFP e a Agência Federal de Investigações, equivalente ao FBI norte-americano. A Marinha e o Exército se puseram em posição de ataque, com tropas na região e no litoral. Tomar o "zócalo" foi o primeiro passo de uma estratégia pensada aparentemente como uma estrela: toma-se o centro e depois as tropas se irradiam até as periferias e até mesmo para fora da capital, onde ficam as raízes e as bases mais profundas do movimento nascido entre os povos de Oaxaca.

Paradoxalmente, a operação não visou à desmobilização dos grupos irregulares, responsáveis pela confusão e pelas mortes no dia 29; dirigiu-se apenas contra os lugares onde a APPO tinha presença pública.

O primeiro objetivo foi então desmantelar as posições no "zócalo" e inutilizar os meios de comunicação com que os povos oaxaquenhos se comunicavam entre si e com o mundo. Mas tal como no Iraque falhou a "cirurgia" planejada pelo Pentágono, aqui a tomada da praça central só fez deslocar espacialmente o que nunca fora um grupo de dirigentes, mas todo um povo mobilizado. O primeiro erro da operação foi conceber-se em termos militares, identificando o inimigo como um ente fixo e delimitado; na verdade esse "inimigo" tem um caráter difuso, extenso, entretecido e impessoal, porque tem uma personalidade coletiva, e não individual. As bases da APPO se deslocaram, criando uma espécie de franja ao redor do "zócalo", o que deixou vislumbrar a imagem do "cerco cercado". Na verdade essas bases se espraiaram por toda a cidade, recriando a sua territorialidade de acordo com as novas circunstâncias.

Num sistema de redes característico de uma organização comunitária de longa maturação, a distribuição de papéis é um derivado das relações cotidianas, e os dirigentes contam com uma legitimação que não emana das circunstâncias, mas de sua história na comunidade. Os meios de comunicação também são outros, e passam pelos círculos familiares e vicinais. Ainda assim, as rádios comunitárias provaram-se fundamentais para a organização logística em momentos decisivos.

Por isso o objetivo seguinte da operação militar foi o campus universitário, espaço privilegiado do debate de idéias, onde continuava funcionando a rádio da universidade como Rádio APPO, depois das ofensivas contra outros meios de comunicação. O alvo era apetitoso, porque num só golpe se atacava a universidade pública e seu regime de autonomia, o livre pensamento, se ocupava um dos espaços de refúgio de membros da APPO, e todo esse esforço obteria o prêmio máximo: a destruição da rádio APPO.

Mas um governo que deixa de escutar o povo e o menospreza é incapaz de entende-lo quando ele se dispõe a lutar. Assim o novo golpe da PFP, com apoio da AFI e da polícia local, se voltou contra a universidade no dia dos mortos, mas não logrou seu intento. Numa jornada longa, angustiante e combativa, em que as autoridades universitárias, com o reitor à frente, saíram em defesa da sensatez, da democracia e da autonomia universitária, a Universidade Autônoma Benito Juarez de Oaxaca conseguiu repelir o ataque, que terminou com a retirada das forças de segurança do Estado.

Acossados com gases lacrimogênios e de pimenta, carros de combate e balas "perdidas", os oaxaquenhos surpreenderam os atacantes dentro e fora da universidade, com uma luta imprevista pelos estrategistas do Estado Maior. A Rádio APPO manteve todo mundo informado sobre o rumo dos acontecimentos, num trabalho de coordenação que permitiu não só orientar os combatentes do povo mas também articular um apoio nacional e internacional que colocou Oaxaca na pauta mundial.

Vizinhos e mais vizinhos traziam vinagre para combater o efeito dos gases, e jogavam gasolina e excrementos sobre os carros de combate. Traziam lanternas e alimentos, informavam sobre os movimento da PFP e dos outros participantes na operação, erguiam barricadas com o refugo local... Foi o povo de Oaxaca, anônimo e humilde, mas investido em conjunto como APPO, que derrotou as forças repressoras de elite, defendendo sua universidade e sua dignidade.

Enquanto voavam alguns coquetéis Molotov ou bombas de fabricação caseira, a rádio APPO não parava de transmitir, desde o coração da universidade.

Este é um momento difícil para a transmissão de poder no México (de Vicente Fox para Felipe Calderón). A luta do povo de Oaxaca vai se alastrando para o resto do país, porque não há espaço que não tenha suas causas. A experiência comunitária se reproduz em cada região, com estilos próprios. O presidente que sai deixou de governar; o presidente que assume carece de legitimidade, porque seu mandato é produto de uma fraude não desmentida.

Por outro lado, as reformas estruturais ainda não feitas, entre as quais se destaca a desregulamentação que permitirá a integração energética da América do Norte, só passarão no Congresso com uma maioria que o Partido de Ação Nacional (PAN) não tem e não consegue construir. As pressões dos Estados Unidos e dos organismos internacionais sobre um presidente emanado do processo eleitoral mais questionado desde que se expulsou Porfírio Diaz do país em 1910 provocam aparentemente um grande nervosismo nas altas esferas política do país, o que se exprime em chantagens, composições obscuras e torpezas. A militarização da fronteira Norte fecha muitas válvulas de escape, e o dia 1o. de dezembro, data da transmissão do cargo presidencial, se aproxima como uma espada de Dámocles.

Enquanto isso o presidente Fox prefere dar as costas a seu país, e o (des)governo de Ulises Ruiz, o governador repudiado de Oaxaca, lança sua maior ofensiva contra o povo para se manter no poder.

É um momento difícil, em que urge parir uma outra história. Essa que as comunidades de Chiapas batizaram e de que agora são protagonistas os povos de Oaxaca, contagiando-a toda com dignidade e esperança.