:: ei Luddista, tudo bem? ::

estou terminando meu relatório de qualificação no mestrado e gostaria de incluir umas imagens da Praça do Ciclista. o conteúdo desta parte do texto fala do direito à cidade, não do direito à cidade como ela existe, mas do direito da gente REFAZER essa cidade. neste sentido, imagens das placas de sinalização (com a bicicleta) também seriam interessantes.

você poderia me enviar algumas imagens, em alta resolução?

se puder enviar algum comentário seu sobre isso, as motivações dessas ações da bicicletada, também seria muito bacana! (mesmo que seja sua opinião individual).

valeu e abraços,


:: resposta ::

Desde que comecei a participar das bicicletadas, o ponto de encontro era divulgado como a esquina das avenidas Paulista e Consolação. As duas avenidas são bastante conhecidas, então não havia necessidade de maiores explicações. Quase todo mundo em São Paulo sabe onde fica a avenida Paulista e a Consolação. Até aí, tudo bem, não fosse por um motivo: o ponto de encontro não era uma esquina das avenidas, mas sim o canteiro central da Paulista, bem próximo à Consolação. E este canteiro ainda era (e é) ocupado por uma base móvel (porém estática) da Polícia Militar, o que tornava o nosso espaço ainda menor.

Em um determinado momento, percebemos que bem perto do estreito canteiro central ocupado pela base da PM havia um gramado circular com uma estátua no meio. Achamos o local mais agradável e espaçoso para os encontros e desde o final de 2005 passamos a realizar o encontro das bicicletadas nas proximidades deste gramado.

O local era mais agradável que o anterior, mas ainda restava um problema: divulgávamos "esquina", mas nos encontrávamos no canteiro. Percebemos que o canteiro central era uma "quase-praça" no meio da avenida. Reparamos ainda que o tal canteiro gramado não possuía placa indicativa com o nome do logradouro. Foi quando surgiu a idéia de batizarmos o local e nada mais interessante do que uma Praça do Ciclista no meio da Avenida Paulista.

A bicicletada se constitui em um encontro mensal para celebrar o transporte não-motorizado (patins, bicicletas, skates), com predominância das bicicletas. Qualquer pessoa que não utilize um automóvel em São Paulo percebe o quanto a cidade é voltada para o transporte individual motorizado. O carro se tornou imperativo na mente e nos espaços paulistanos. É ele quem dita as regras, constrói e destrói para viabilizar sua existência (que é essencialmente predatória de espaço e recursos). Bairros inteiros dão lugar a avenidas ou estacionamentos e as condições de locomoção para os demais cidadãos são brutalmente prejudicadas.

Quem usa bicicleta como meio de transporte sabe que a convivência com os automóveis é geralmente complicada. Apesar da velocidade média de um automóvel ser praticamente a mesma de uma bicicleta, o motorista vê qualquer coisa à sua frente como um obstáculo a ser superado e não mede esforços para se livrar do "obstáculo". Por ser extremamente mais frágil que o automóvel, em qualquer disputa mais agressiva por espaço quem acaba levando a pior é sempre o ciclista. A noção de que a bicicleta é um veículo como outro qualquer ainda é rara na cabeça dos motoristas.

Por se tratar de um encontro para celebrar e reivindicar o espaço de quem usa transporte não-motorizado nas ruas, a Bicicletada não escapa do caráter de questionamento à cultura do automóvel. Não adianta ser apenas "a favor das bicicletas" quando se tem uma cidade (e seus recursos) dominada pelo automóvel. Basta andar de bicicleta para perceber que o principal impecílio ao uso desta é o uso excessivo de automóveis. Subir ladeiras, por exemplo, não é obstáculo para ciclistas. Subir ladeiras recebendo fumaça na cara ou buzina no ouvido por estar "andando devagar", esta sim é a dificuldade encontrada por quem utiliza (ou gostaria de utilizar) a bicicleta.

Quando surgiu a idéia de batizarmos o canteiro-quase-praça com o nome de Praça do Ciclista, fiquei muito feliz. Um local com este nome em uma avenida que passa o dia congestionada por automóveis tem um caráter simbólico muito forte. Além de resgatarmos a idéia de "praça" como espaço de convivência (noção também prostituída pela fome de espaço do automóvel), também ressaltamos que a bicicleta não tem apenas um caráter recreativo. Ou seja, uma "Praça do Ciclista" dentro de um parque reforçaria a idéia de que a bicicleta é um brinquedo para o final de semana. Uma "Praça do Ciclista" no meio da avenida, por sua vez, ressalta o caráter de transporte da bicicleta.

Em setembro deste ano constatamos (através de consultas a vereadores e outros órgãos públicos) que o local em questão realmente não possui um nome "oficial". Ou seja, é apenas um canteiro central mais largo que o tradicional, que virou a Praça do Ciclista.