Mãe de Daniel: promotor incentivou tirarem vida de inocentes

A absolvição do soldado PM Marcos Parreira do Carmo, réu confesso do assassinato de Daniel Duque, 18 anos, indignou a mãe da vítima. "O promotor vestiu a camisa da defesa e incentivou as pessoas a tirarem a vida de inocentes", desabafou Daniela Duque, que segunda-feira entrará com recurso no Tribunal de Justiça pedindo a anulação do julgamento de terça-feira, quando foi expulsa da audiência pelo juiz Sidney Rosa da Silva ao reclamar da decisão.

Para ela, a principal razão da promotoria para não pedir a condenação do réu - a inconsistência dos depoimentos das testemunhas de acusação - foi uma farsa para proteger o policial, que era segurança do filho de uma promotora. "É lógico que houve corporativismo. Queria ver se o filho da promotora fosse morto por um segurança meu. Será que o veredicto seria o mesmo?", questionou Daniela.

O promotor Marcelo Monteiro rebateu as críticas. "Eu não inocentei o réu, foi o júri. Então, se houve corporativismo, há entre os jurados filhos, maridos ou mulheres de promotores? Os sete são ligados ao MP?", retrucou Monteiro.

A mãe e o padrasto de Daniel, Sérgio Coelho, que recorreram a um programa de computador para fazer uma representação gráfica do momento do crime, acreditam que o trauma de ver o amigo ser morto por um tiro teria feito apenas uma das testemunhas de acusação mudar seu relato, e não três, como afirmou o promotor.

Três testemunhas
Daniela disse que Marcelo Monteiro não explorou o depoimento de três garotas que, desde o início da investigação e do processo, afirmam terem presenciado a mesma cena: o estudante caído no chão e o PM atirando nele, sem que ninguém estivesse tentando tomar a arma, como alega a defesa.

"A verdade está com essas três jovens, mas não quiseram saber. Nem a menina que teria sido a pivô da briga entre os rapazes dentro da boate apareceu nesse processo. Ela também poderia esclarecer muita coisa", sugere a mãe do estudante.

O advogado Wagner Magalhães, que trabalha para a família de Daniel Duque, disse que tentará anular o julgamento, através de recurso, porque, para ele, a absolvição foi contrária às provas que constavam no processo contra o soldado Parreira. Se o Tribunal de Justiça deferir, será marcada nova data, provavelmente para o ano que vem, também no 3º Tribunal do Júri.

"Se nosso pedido não for acatado, vamos analisar o que os desembargadores do TJ vão alegar, para estudarmos o que temos que fazer", explicou o advogado.

Promotor: mãe da vítima está descontrolada
Criticado pela mãe de Daniel Duque não só por pedir a absolvição, mas também por ter, segundo ela, denegrido a imagem do filho ao chamá-lo de "pitbull", o promotor Marcelo Monteiro disse ter a consciência tranqüila.

"Se eu quisesse ser popular não me tornaria promotor", afirmou, dizendo-se decepcionado com as contradições dos amigos de Daniel. Monteiro contra-atacou Daniela: "ela está descontrolada. Como mãe, não consegue ver que o filho pode ter feito uma coisa errada".

O advogado Nélio Andrade, que defende o PM, não acredita no sucesso do recurso da família do estudante e disse que seu cliente enfrenta dificuldades financeiras. "Ele está deprimido, à base de remédios, e vende quentinhas para sobreviver porque não recebe mais a gratificação do MP. A vida desse rapaz acabou", disse.

Pais de João Roberto terão indenização
Os pais de outro jovem vítima da violência no Estado do Rio tiveram novo alento ontem: governador Sérgio Cabral determinou o pagamento ainda este mês da indenização estabelecida pela Justiça aos parentes de João Roberto Amorim Soares, morto aos 3 anos por PMs na Tijuca, em julho.

A indenização ainda não havia sido paga porque a Procuradoria-Geral do Estado recorreu da decisão, alegando que os parentes não haviam passado por perícia. "Qualquer interpretação burocrática é absolutamente desrespeitosa à família de João Roberto, que tanto sofreu com a perda de sua vida", disse o governador, em nota oficial.

Cabral afirmou, na nota, entender que "além da família, todo o Rio de Janeiro e o País sentiram e sofreram o drama da lamentável morte do menino".

O Dia