Inaugurando o Abril Vermelho, como prometido no 2º Encontro de Comunidades em Resistência no ano passado, as Brigadas Populares, o MST e o Fórum de Moradia do Barreiro respondem a crise capitalista com uma imensa ocupação rururbana (inaugurando em Minas Gerais a aliança entre os atores da Reforma Agrária e da Reforma Urbana).

O despretencioso relato que se segue é fruto de breve colaboração ativista nos primeiros momentos da ocupação. Muita água já rolou desde então. Mais famílias se mudando, marchas, mais famílias se mudando, enfrentamentos com a PM, mais famílias se mudando... Para informações atualizadas e para saber como colaborar, acesse o site:  http://ocupacaodandara.blogspot.com/

Abraços rebeldes.


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"Quem faz a Reforma Urbana?"


As instalações de uma entidade estudantil na região central, era esse o ponto de encontro. Cheguei por volta das 22:00. Já da porta, militantes do MST e uns rostos conhecidos entre xs das Brigadas Populares. Logo chegam dois antigos compas meus da época do ME (Movimento Estudantil): um é hoje brigadista; o outro compartilha comigo a máxima "onde há fogo, levamos a gasolina?. Ambos ?chutadores de catraca" natos.

Matamos o tempo com café (sem açúcar por favor) e canções latino-americanas-revolucionárias executadas no violão. Um pôster relembrando a Ocupação Borges da Costa (UFMG) dava o tom: a luta é antiga.

Partimos as 3:00am de ônibus em destino a mais um ponto de encontro. Comboio reunido (mais uns dois ônibus, alguns carros e um pequeno caminhão de carga), últimos detalhes acertados, e rumamos para a área a ser ocupada. Como diria um squatter polonês amigo meu: "It?s time to take action!".

O subúrbio ainda dormia. À medida em que as portas dos ônibus iam se abrindo, xs ativistas iam se espalhando sorrateiramente pelo imenso terreno. Onde a cerca havia sido derrubada, alertavam-nos sobre o perigo do arame farpado no chão. Os faróis do pequeno caminhão iluminavam o solo acidentado, grama, lixo. O enorme terreno vai até onde as vistas alcançam, só vejo uma margem das cercas. Começamos a descarregar: lona, ferramentas, alguns móveis em precárias condições. Atenção para os nomes das famílias dxs sem-teto escritos nas colunas de madeira, cada umx já trouxe as estruturas de suas futuras casas.

Antes de o sol nascer já haviam algusn barracos levantados e uma grande tenda no meio do terreno (futura área de assembléia dxs moradorxs). A(s) bandeira(s) vermelha(s) das Brigadas Populares em forma de estandarte logo na entrada anunciava(m) o caráter da ocupação.

Como era de se esperar, o Estado toma conhecimento e envia seus cães de guarda (na ideologia burguesa, o direito à propriedade é sagrado). Viaturas fecham as ruas e policiais se espalham pelo acampamento, sempre em duplas. O povo não se intimida. É dada a ordem para que as construções dos barracos cessem até a chegada de ordens do "comando" (a hierarquia emburrece a ponto dx individux mesmo sabendo como proceder, não poder agir sem o aval dx seu/ua superiorx. Não que fosse este o caso...).

Xs sem-teto e xs ativistas se agrupam. Palavras de ordem são gritadas ao mesmo tempo que punhos cerrados dividem o ar com foices, facões e outras ferramentas levantadas: ?Um passo a frente! Nenhum passo atrás! Reforma urbana, o povo é quem faz!? e o furioso ?Com luta! Com garra! A casa sai na marra!?. Palmas ritimadas: ?Daqui não saio, daqui ninguém me tira! Onde é que eu vou morar??. Percebo que a senhora que puxa essa canção é moradora de uma outra ocupação, estava ali em solidariedade. Aparecem então repórteres da mídia comercial, justificando seu salário.

Por fim, entendendo que nada podiam fazer no momento e que decisões jurídicas não são tomadas do dia pra noite, a polícia se retira. Urros de alegria, palmas incontidas. Primeira batalha ganha. E de lá mesmo sai o nome da nova terra: Ocupação Dandara. Homenagem à companheira de Zumbi, estrategista defensora de Palmares.

A manhã se estende, muito trabalho para todxs. Foices, enxadas, marretas, arame, alicates. Levanto dois barracos com meus compas mencionados anteriormente. O sol castiga.

A comunidade em volta começa a se aproximar. Um vizinho diz que muitas daquelas casas da região foram construídas assim, em terrenos ocupados. Isso aumenta nossas expectativas em relação ao futuro de Dandara.

Vejo chegar um senhor de óculos, barba grisalha, boné do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens). Falando ao celular ele chama um dos brigadistas. Diz estar falando na Rádio Favela e espalha a voz do jovem militante pela capital em ondas radiofônicas. Mais tarde vejo este mesmo senhor concentrando gente debaixo da tenda grande, mas agora trajava uma batina (o boné permanecia). No culto ecumênico o frei diz palavras de solidariedade axs ocupas, cita o evangelho: ?ocupai e residi?. Passa a palavra para sua acompanhante, uma Advogada do Povo. A jovem senhora abre sua fala perguntando com voz firme a quem pertenciam aquelas terras onde pisávamos. Um instante de dúvida paira sobre a cabeça de algumas pessoas. O terreno era mesmo público como havia dito a PM? Ou pertencia a algumx proprietárix privado, como havia afirmado uma suposta advogada (essa, dxs ricxs) que aparecera por ali pela manhã? ?É nosso!? Gritei por detrás de alguns/mas, já conhecedor da ?maldade? da pergunta. ?É nosso! É nosso!? gritaram vários.

De dezenas, passam a centenas o número de pessoas circulando pelo terreno-sem-fim. Todxs querem garantir lugar. Desço com um compa brigadista até uma área onde ouvimos dizer que alguns jovens andam a "demarcar" lotes com barbante. O compa se aproxima e explica a necessidade de nos concentrarmos primeiro na parte da frente do terreno, em nome da unidade. Ainda era preciso estratégia, as terras não estavam garantidas. Dizia também da inutilidade de se lotear, já que a terra ali era comum, reforçava a idéia socialista da ocupação.

Deixei Dandara quase junto com o sol. Deixo saudades e duas casas montadas. Sei que ainda há muito trabalho a ser feito. Mais e mais famílias se mudam a cada minuto. Um mar de lonas vai se formando.

*JollyRoger*

?E precisava José, cavalo que era, pangaré, de um grão de areia, queria plantar, comer capim.? _Dutra