Mais que um nome

Clóvis Gruner



Acompanhei e acompanho, à distância mas com interesse, a polêmica que envolve a proposta de um vereador joinvilense para alterar o nome do Arquivo Histórico de Joinville para Arquivo Histórico Adolfo Schneider. A proposição já rendeu manifestações contrárias de estudantes e profissionais de história da cidade ? a quem o vereador, aliás, confrontado por posicionamentos contrários, sugeriu que se envolvessem mais com os assuntos pertinentes à sua área, como se manifestar-se sobre um tema destes não denote envolvimento, engajamento e preocupação suficientes. O vereador, parece, pertence aos auto-nomeados Democratas; compreende-se a reprimenda. Apesar do nome, quem conhece um pouco da história recente do país, bem sabe que democracia não é exatamente o forte dos Democratas.

Mas volto à polêmica, porque é sobre ela que falava. Acho elogiável até a intenção de homenagear Adolfo Schneider. Quem conhece a história e a historiografia locais sabe da sua importância. Pessoalmente, e ainda que tenha ressalvas a ela, prefiro sua obra, de caráter mais memorialístico que necessariamente historiográfico, a algumas outras de cunho mais ?científico?. Estas são desprovidas tanto de criticidade e originalidade ? o que também faltava ao historiador/memorialista Adolfo Scheneider ? quanto da paixão sincera pelo pretérito, que transbordava de seus textos, mas que é atributo impossível em quem vende e pratica história por encomenda e a granel, que faz da escrita sobre o passado pretexto para bajular os poderosos do presente.

Apesar de reconhecer sua importância, no entanto, estou ao lado daqueles que questionam a mudança e a pretensa homenagem. E concordo com eles em três pontos fundamentais. Penso que o valor de uma obra e daquele que a assina está na sua permanência e pertinência, na sua capacidade de inquietar as novas gerações, de estimular nelas sua leitura, de ser incorporada a outras escritas, ainda que seja para ser questionada e criticada, para que se constate nela suas lacunas e limitações. Arrancar o autor da obra, emprestando seu nome a uma instituição, é um gesto de repercussão perigosa, porque pode contribuir para a sacralização do primeiro e o esquecimento da segunda.

Não é só: o Arquivo Histórico é uma instituição pública e sua existência se deve, diretamente, ao trabalho de inúmeras pessoas que, diária e anonimamente, estão engajados no projeto de sua continuidade, mantendo e organizando seu acervo e, fundamentalmente, produzindo e escrevendo, continuadamente, a história da cidade. Eu mesmo, em tempos outros, me servi durante alguns anos das fontes lá guardadas para escrever meus dois primeiros trabalhos historiográficos, um deles minha dissertação de mestrado em história. Nomeá-lo , como pretende o vereador, é não apenas um gesto que descaracteriza esta natureza pública do Arquivo. É, a um nível simbólico, um ato de violência contra outros tantos nomes e trajetórias ligados à história da instituição, que contribuíram e contribuem para sua permanência e viabilidade: funcionários, estagiários, pesquisadores de dentro e de fora da academia.

E enfim, nomear não é uma ação desinteressada e ingênua. Dar um nome implica uma escolha, uma intenção; nomear é atribuir sentido, é aspirar a univocidade. O assunto é polêmico, sei, em uma cidade onde parte da população ainda se orgulha e se percebe como herdeira de uma tradição germânica que estaria na sua origem. Não é o caso aqui de se discutir esta origem, mas de reconhecer que história nenhuma, de cidade alguma, se esgota e explica na homogeneidade.

Trabalhos historiográficos mais recentes ? e entre eles o meu próprio ? têm se esforçado por construir uma história de Joinville que dê relevo a pluralidade, incluindo a de suas ?origens?, se contrapondo a uma produção de cunho mais monumental, ou mesmo oficial, de acentuado caráter étnico, que pouca ou nenhuma atenção deu a diversidade; tendência historiográfica, necessário que se diga, de que faz parte a obra de Adolfo Schneider. Dar seu nome ao Arquivo Histórico é deslegitimar o esforço por escrever uma outra história e corroborar, consolidando, um passado que sempre se fez representar pela homogeneidade e em uma narrativa inscrita em um tempo linear e vazio ? quando os historiadores o sabem, ou deveriam saber, que o ?passado é sempre conflituoso?, como bem disse a argentina Beatriz Sarlo. Há mais coisas em jogo, portanto, que uma simples homenagem. O que se está a problematizar são concepções distintas da cidade, de seu passado e, por extensão, do seu presente. Às vezes um nome é mais que um nome; é uma visão de mundo.



* Clóvis Gruner é historiador e professor universitário; autor de ?Leituras matutinas: utopias e heterotopias da modernidade na imprensa joinvilense (1951-1980)? (Curitiba, ?Aos Quatro Ventos?, 2003), e co-organizador de ?Nas tramas da ficção: história, literatura e leitura? (São Paulo, Ateliê Editorial, 2008).