Nos anos 80 e 90, a Rede Bandeirantes era conhecida como o canal do esporte. Essa alcunha representava a intenção da emissora paulista em se distinguir como uma rede de comunicação especializada em programação esportiva. Nos domingos, em seus tempos áureos, o Show do Esporte, que já foi considerado o programa de televisão mais longo do mundo, chegou a ter a duração de 12 horas consecutivas. É mais fácil brigar por nichos determinados [nesse caso, o esporte] do que enfrentar a audiência da Globo, disse certa vez o ex- superintendente da Bandeirantes, Rubens Furtado.

Entretanto, a partir do final da década de 1990, a concorrência de canais pagos, com programações totalmente voltadas para o esporte, fez com que a Bandeirantes tivesse que diversificar a sua grade de programação.


Século 21. Os tempos são outros: vivemos a Era das Redes Sociais. A própria Bandeirantes, mudou de nome, agora é simplesmente Band. O esporte já não é mais o carro-chefe da programação. Nos últimos anos, a emissora mudou o foco: tem se especializado em ser a principal porta-voz televisa do pensamento conservador (sendo mais reacionária do que a própria Rede Globo).


Em seus telejornais, inúmeras matérias exaltam o agronegócio enquanto demonizam o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Greves de categorias historicamente negligenciadas pelo poder público, como dos profissionais de educação, são concebidas como movimentos ilegítimos que só trazem transtornos para a população. Já programas como Polícia 24 horas e Brasil Urgente contribuem peremptoriamente para o processo de criminalização da juventude pobre e negra das grandes metrópoles. Não obstante, recentemente a emissora da família Saad fez uma grotesca edição para simular que estudantes contrários a reorganização escolar de Geraldo Alckmin estariam depredando o patrimônio público.


Após o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha ter acatado um pedido de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff surge uma nova obsessão para a Band: derrubar a mandatária petista a qualquer custo. Lembrando a alcunha de outrora, de Bandeirantes, o canal do esporte a emissora passou a ser Band, o canal do golpe. Exemplos emblemáticos dessa empreitada golpista foram as duas últimas edições do Canal Livre, atração exibida nas noites de domingo.


A abertura do programa do dia 6 de dezembro destacou que vivemos a pior crise política da história do país e a pior intempérie econômica desde o advento do Plano Real, em 1994. Nota-se assim a clara intenção de superdimensionar negativamente a atual conjuntura. Já os convidados, os analistas políticos Antonio Lavareda e Gaudêncio Torquato, de tendência claramente conservadora, em nada divergiam do ponto de vista da Band.

Ou seja, defenderam veemente a concretização do impeachment como a única maneira possível de o Brasil voltar a ter crescimento econômico e estabilidade política, como se a simples troca de governo pudesse resolver sorrateiramente todas os mazelas que o país.


Todavia, apesar da presença de especialistas que procuraram corroborar politicamente o processo de impeachment, faltava a legitimação jurídica para o golpe. Sendo assim, no domingo (13/12), foi a vez do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, ser o convidado especial do Canal Livre.

Conforme a realidade nos tem mostrado, Gilmar é conhecido por suas posições radicalmente antipetistas. Sendo assim, enquanto o ministro do STF fazia seu discurso raivoso contra o Partido dos Trabalhadores, os jornalistas da Band idealizavam o cenário político com Michel Temer na presidência da República e traçavam algumas possíveis estratégias para que a oposição possa lograr êxito em sua empreitada pela deposição de Dilma Rousseff.


A título de exemplo, quando o mesmo Canal Livre analisou a reorganização escolar no estado de São Paulo, o próprio governador Geraldo Alckmin foi o convidado especial, tendo assim amplo espaço para defender suas ideias, algo impensável para políticos petistas ou da base aliada ao governo Dilma Rousseff. Em outros termos: dois pesos, duas medidas.


Conforme já apontamos em outro artigo, ao contrário do que muitos possam pensar, a manipulação midiática não ocorre na recepção, mas na produção e construção da notícia, no tratamento dado a uma determinada informação, ao fazer juízo de valores, na escolha das fontes a serem ouvidas, na amplificação de um fato e ao privilegiar um enquadramento da realidade em detrimento de outros pontos de vista. Portanto, o Canal Livre, ao dar voz somente a opiniões favoráveis ao impeachment, sem apresentar contrapontos, prestou um grande desserviço à população e à democracia brasileira.