MERRY BLUES

A cobertura do Liberation Day pela imprensa foi aquela coisa de sempre, cada veículo dando um número diferente de pessoas e todas com depoimentos prós e contras, a tendenciosidade só era medida pelo teor de cada um. Mas não estou aqui para pagar de Ombudsman mas sim para relatar os fatos. E um dos fatos é que os canas acompanharam a marcha tranquilamente, mais bolados e impotentes do que qualquer outra coisa, salvo no incidente da praça nossa senhora da paz, porém inflitraram três X9s para filmar e fotografar os manifestantes. Divulgaram para a imprensa que ?identificarão os líderes e os autuarão por apologia às drogas e investigarão conexões com o pequeno tráfico?, na hora tavam falando que iam identificar e mandar prender geral, mais de 500. Bem, no máximo as fotos vão mofar numa pilha da ABIN, o novo nome bonito do SNI. A falta de liderança e descentralização do final da marcha foi alvo de crítica de um dos jornais? Puta que pariu, será que neguinho ainda não consegue entender nada!? Ou a pergunta melhor seria até quando esses putos vão continuar se fazendo de bobos???

A questão é que esse dia de ação global convidava a participação de todos e nunca mostrou nenhuma organização vertical, no entanto ao chegar levemente atrasado na praça, como a maioria dos manifestantes, notei um par de pessoas que se destacavam, discursavam o tempo todo e davam entrevista para todos os meios. Mas não eram líderes, só alguns cannabistas folclóricos resolvendo vestir a carapuça. Mas é aquela coisa né ACENDE mas também QUEIMA! A praça tava estranhissima, era um misto desses figuras que você só encontra na madruga no Baixo Gávea com aqueles sequelados que você só vê na areia da praia, acentuado por vendedores de artesanato, artistas de rua, malabaristas, coroas boêmios, enfim? Tá ligado né!? Entonces passa la pelota y uns canas entram na praça em fila indiana, obviamente sendo reverencialmente vaiados por toda a praça. Desfile infernal, os canas irnonizavam em seu passo lento, com braços para trás no estilo guarda inglês e cinismo no rosto. O comandante Pinho sorria sinicamente à frente do grupo, o meganha de trás ria histéricamente enquanto os outros meio que rosnavam. Eles subiram o monumento da praça (ocupado pelos manifestantes) sempre cercados por câmeras e vaias de todos os lados, procuravam um líder, um porta-voz, qualquer coisa. O pscicoterapeuta Guanabara chegou junto e esclareceu todas as burrocracias, de que tratava-se de uma marcha pacífica, da Nossa Senhora da Paz até o Posto 9. Na real parecia mais que eles tinham ido lá para pousar pra foto, porque foi a foto do comandante cercado de manifestantes com faixas, flyers, edições da revista Hemp Family (com textos do cucaracha!), baseados e folhas gigantes e outros adereços que saiu em vários jornais. Figurismo puro.

Disseram que não iam tolerar o consumo da maryjuana no decorrer da marcha, mas como era bem óbvio e também bem claro de que a polícia estava orientada para não reprimir a manifestação um número crescente de manifestantes praticaram a desobediência civil, perfumando de híbridos o sereno ar de Ipanema, para o êxtase dos boêmios e transnuentes do bairro e estupefação de um par dessas velinhas broxas que caminham no sol pra calcificar os ossos. Arriscar queimar o filme do governo do PT nas portas de uma eleição!? É claro que não, agora espionar a galera são outros quinhentos. A própria Benedita da Silva encorajou essa ação da polícia, sendo rechacada pelo próprio partido. Mas a marcha rolou, podia ter sido maior, mas acontece que o Rio ainda não está tão integrado na ação global, é foda, apesar de sua tradição boêmia e militante muita gente ainda limita seu protestos às dependências do bar, só parando para reclamar quando a cerveja esquenta.

Mas quem foi lá não, tava na pilha mesmo de assumir a desobediência civil, e Jah providenciou com que não tivesse nenhuma bandeira partidária na passeata, o que é o bicho. Também salvo os dispostos a aparecer, não tinha ninguém disposto a comandar o ato que segiu meio autogestionado, meio descaralhado. Era óbvio que essa esquerda dos partidos e movimentos estudantils não iam colocar a sua cara a tapa, afinal eles estão mais preucupados em conservar a sua ?boa imagem? perante a mídia burguesa. Tinha até ambulante gritando XKOL, XKOL no meio da passeata, mas faltou um som, não um carro de som que é um bagulho meio escroto também (autoritário e perigoso, vide o que aconteceu num protesto contra Israel em São Paulo), mas pelo menos uma percussão para entoar o ritmo carnavalesco que a marcha merecia. Sendo assim o pequeno percursso acabou sendo percorrido muito rápudo, mesmo assim demos o recado, parando o trânsito e mandando peruanas pra dentro de vários carros bacanas no caminho rumo ao nove. As palavras de ordem eram ?O USÚARIO NÃO É CRIMINOSO?, ?LEGALIZE JÁ!? ou simplesmente ?MACONHA! MACONHA!? revezando-se ao hino futebolístico ?Sou maconheiro, com muito orgulho, com muito amooooor? e o Funk ?Ô Ô Ô Ô Cadê o Isqueiro!? Demorô formá o bonde do maconheiro?? do Mr.Catra (que tava lá prestigiando o ato!). A intenção inicial era de montar um palco e realizar uns shows no nove, pena que não rolou, mas de qualquer maneira, uma vez lá, o povo pulou para a areia, onde realizou uma roda gigante, que depois se muvucou em volta de um latão da COLURB que serviu de pódio para discursantes, desde babacas fantasiados até garotões de sunga tipoassim?

Os PMS de bermuda super a vontade lá longe, na pista do meio da Vieira Souto, enquanto alguns fotógrafos amontoavam-se no posto para pegar o povo lá de cima? A tal da foto que saiu no jornal. Uma galera esticou uma kanga onde vendiam chupschups de Mélzinho e edições da Hemp Family. Quando caiu a noite e não dava pra identificar mais ninguém o povo chapou no chão e pintaram vários ambulantes, queijinho coalho e cocada à la vonte e o povo lá, naquele meio papo, meio reflexão, meio mundinho? Lembrei que tinha impresso algumas cópias do ESPRESSO CUCARACHA, um zine de meia folha frente e verso com o I Ranking Nacional de Revistas, e uma matéria do herbifugo Tommy Tomaccio. É maneirissimo ver as pessoas rindo ou assustando-se com teu fanzine? Não tem nada igual. Zines me trouxeram amizades, contatos, tretas, risadas, paixões e AMORES, Zines me fazem feliz de estar vivo.

No dia seguinte, numa festa uma amiga jornalista ouvia meus relatos e indiginava-se quanto ao surrealismo dos meios de comunicação. Eles derrubaram a Roseana e tão começando a minar o Serra, e ao mesmo tempo em que o MINISTRO DA JUSTIÇA propõe um projeto federal de descriminação ao usuário de drogas, e o mundo todo mobiliza-se contra a ?guerra contra as drogas? a porra da novela das Oito faz um roteiro ?antidroga? pra lá de ultrapassado. Se já não bastasse classificar os usuários de droga da novela como pessoas à margem da sociedade (enquanto os narizes de platina da mesma emissora não são segredo de ninguém) eles ainda alimentam o preconceito pequeno-burguês através dos pais dos personagens, sempre preucupados no que ?todo mundo vai pensar?? E eles dizem que fazemos mal pra sociedade, enquanto filhos da puta de gravata no pescoço, úisque e tabaco nas veias desviam dinheiro público, usam laranjas e influência para realizar todo tipo de falcatrua e roubalheira possível. Dizem que nossa adicção sustenta o tráfico de armas que eles deixam entrar no país, escalando a violência que eles promovem em suas campanhas de repressão policial. Essa gente não é burra amigo, é simplesmente hipócrita, hipócrita, hipócrita e covarde. Mas não podem parar-nos todos, somos muitos, somos fortes e gente ligada, plugada e rude, rude, rude?