A morte de um espião internacional

editorial do pravda, 1940, tradução de Erick Fishuk

O telégrafo nos trouxe a notícia da morte de Trotsky. Segundo os jornais norte-americanos, Trotsky, que passou seus últimos anos no México, foi vítima de um atentado. Seu executor, Jacques Mornard van den Dreschd, (1) um de seus colaboradores mais próximos.

Desce à sepultura um homem cujo nome os trabalhadores de todo o mundo pronunciam com desprezo e repulsa, e que por longos anos combateu as bandeiras da classe operária e de sua vanguarda, o Partido Bolchevique. (2) As classes dominantes dos países capitalistas perderam um servo fiel, e os serviços secretos estrangeiros foram privados de um velho agente encarniçado que não escolhia os meios para alcançar seus objetivos contrarrevolucionários.

Trotsky percorreu uma longa trajetória de traição e deslealdade, de duplicidade política e hipocrisia. Não foi à toa que Lênin, ainda em 1911, dera-lhe o apelido de ?Iúduchka?, (3) ao qual Trotsky (4) nunca deixou de fazer jus.

Trotsky iniciou sua atividade política como um menchevique antirrevolucionário. (5) Já em 1903, no Segundo Congresso do POSDR, (6) ele atacou Lênin furiosamente, defendendo e amparando as opiniões de Mártov e de outros líderes mencheviques antirrevolucionários. (7) Logo depois, no início da Guerra Russo-Japonesa, Trotsky escancarou ainda mais sua face renegada e antirrevolucionária (8) ao recair num defensismo inveterado, isto é, a defesa da ?pátria? do tsar, dos latifundiários e dos capitalistas.

Trotsky (9) recebeu a revolução de 1905 com a famigerada teoria da revolução ?permanente?, teoria que desarma o proletariado e desmobiliza suas forças. (10) Após a derrota da revolução de 1905, Trotsky passou a apoiar os mencheviques liquidacionistas. Vladímir Ilitch Lênin escreveu então estas palavras sobre Trotsky:

?Trotsky se comportou como o mais vil carreirista e fracionista... Ele fala muito no Partido, mas se comporta pior do que qualquer outro fracionista?. (11)

Como se sabe, Trotsky foi o organizador do ?bloco de agosto? antirrevolucionário, (12) reunindo todos os grupos e correntes (13) que combatiam Lênin.

Em agosto de 1914, iniciada a guerra imperialista, Trotsky, como era de se esperar, postou-se do outro lado das barricadas, nas hostes dos (14) defensores da guerra. Visando enganar a classe operária, mascarou sua traição ao proletariado com um palavreado ?esquerdista? de combate à guerra. Em tudo o que concernia às mais importantes questões sobre a guerra e o socialismo, Trotsky se opunha a Lênin e ao Partido Bolchevique.

O menchevique Trotsky julgou à sua maneira a enorme popularidade das divisas de Lênin junto às massas populares e o fortalecimento da influência dos bolcheviques sobre a classe operária e as massas de soldados após a revolução democrático-burguesa de fevereiro. Ele ingressou em nosso partido em julho de 1917, junto com um grupo de correligionários, declarando estar completamente ?desarmado?. (15)

Os fatos subsequentes mostraram, (16) porém, que o menchevique Trotsky não havia se desarmado, (17) nem por um minuto havia deixado de combater Lênin (18) e entrou em nosso partido para arrasá-lo a partir de dentro.

[Leon Trotsky em seus últimos momentos de vida, já com os ferimentos do atentado que o levaria à morte. Fonte:  http://mexfiles.files.wordpress.com/2008/08/trotsky840.jpg] Alguns meses após a Grande Revolução de Outubro, (19) já na primavera de 1918, Trotsky, junto com um grupo de comunistas ditos ?de esquerda? e de socialistas revolucionários de esquerda, organizou uma criminosa conspiração contra Lênin, Stálin e Sverdlov, líderes do proletariado, visando prendê-los e aniquilá-los fisicamente. E, como sempre, o próprio Trotsky ? o provocador, o organizador dos assassinos, o intrigante e aventureiro ? permaneceu nas sombras. Seu papel dirigente na preparação desse crime que felizmente fracassou só foi revelado em sua plenitude duas décadas depois, no processo do ?bloco direitista-trotskista? antissoviético, em março de 1938. Somente após vinte anos foi definitivamente desembaraçado o novelo sórdido dos crimes de Trotsky e de seus cúmplices.

Nos anos da guerra civil, enquanto o País dos Sovietes rechaçava a investida de numerosas hordas de guardas-brancos e invasores, Trotsky, com suas atitudes traiçoeiras e suas ordens sabotadoras, debilitava por todos os meios o poder de resistência do Exército Vermelho, o que fez Lênin proibi-lo de frequentar os fronts leste e sul. Todos sabem que Trotsky, por causa de suas relações hostis com os velhos quadros bolcheviques, tentou fuzilar toda uma fileira de importantes combatentes comunistas dos quais não gostava, agindo, assim, de modo favorável ao inimigo.

No mesmo processo do ?bloco direitista-trotskista? antissoviético, foi revelada a trajetória traiçoeira e pérfida de Trotsky: julgados nesse processo, seus colaboradores mais próximos confessaram que, junto com seu chefe, já atuavam desde 1921 como agentes dos serviços secretos estrangeiros, como espiões internacionais. Com Trotsky à frente, serviam com zelo aos serviços secretos e aos estados-maiores da Inglaterra, França, Alemanha e Japão.

Em 1929, quando o governo soviético expulsou de nossa pátria o traidor e contrarrevolucionário Trotsky, os círculos capitalistas da Europa e da América tomaram-no em seus braços. Isso não foi casual, mas algo esperado, visto que Trotsky já havia passado há muitíssimo tempo a servir aos exploradores da classe operária. (20)

Trotsky caiu em sua própria rede, chegando ao cúmulo da degradação humana: seus próprios adeptos o mataram. Deram-lhe um fim aqueles a quem ensinou a matar pelas costas, (21) a trair e a atentar contra a classe operária e o País dos Sovietes. Tendo organizado o perverso assassinato de Kírov, de Kúibychev e de M. Górki, Trotsky foi vítima de suas próprias intrigas, traições, injúrias e crimes. (22)

Terminou, assim, de forma inglória a vida deste homem desprezível, que desce à sepultura com a marca de espião internacional e de assassino estampada na testa. (23)

________________________

Notas do tradutor (Erick Fishuk)
(Clique no número para voltar ao texto)

(1) N.T. ? Esta é a ocorrência mais frequente, nas línguas ocidentais, de um dos codinomes de Ramón Mercader, embora esteja escrito ?Jak Mortan Vandendraich? (??? ?????? ???????????) no documento, no qual essa forma parece ocorrer pela única vez.

(2) Stálin riscou do final da frase ?contra Lênin e Stálin? e uniu num mesmo parágrafo as duas frases, que estavam separadas.

(3) N.T. ? Ver o manuscrito nomeado, em suas Obras completas, como ?O kraske stydá u iúduchki Trótskogo? (em tradução livre, ?Sobre o enrubescimento do iúduchka Trotsky?). ?Iúduchka?, traduzido como ?pequeno Judas? ou simplesmente ?Judas?, era o epíteto dado, em polêmicas entre os séculos XIX e XX na Rússia, a pessoas consideradas mesquinhas, egoístas e traiçoeiras, em referência à personagem Porfíri Golovliov, ou ?Iúduchka Golovliov?, do romance A família Golovliov (1880), do escritor russo Mikhail Saltykov-Schedrin.

(4) No original: ?ao qual ele...?.

(5) ?Antirrevolucionário?: adicionado por Stálin.

(6) N.T. ? Partido Operário Social-Democrata da Rússia, de onde saíram os partidos bolchevique (futuro Partido Comunista) e menchevique. Sigla em russo: RSDRP.

(7) ?Antirrevolucionários?: adicionado por Stálin.

(8) ?Renegada e antirrevolucionária?: no original, ?oportunista?.

(9) Stálin riscou ?Não crendo nas forças do proletariado,? do início da frase.

(10) Stálin riscou ?e energias? do fim da frase.

(11) Stálin separou a citação de Lênin num novo parágrafo. [N.T. ? A tradução desse excerto foi feita independentemente, mas com consulta, da versão citada na tradução brasileira da história do PC(b) da URSS (Recife, Centro Cultural Manoel Lisboa, 1999), logo ao início da parte 4 do capítulo IV.]

(12) ?Antirrevolucionário?: adicionado por Stálin.

(13) Stálin riscou o adjetivo ?antibolcheviques? que vinha a seguir.

(14) Stálin riscou a expressão ?apologistas e? que vinha a seguir.

(15) Redação original da última frase: ?Ele entrou no partido dos bolcheviques em julho de 1917, junto com um grupo de correligionários, com o objetivo de arrasá-lo a partir de dentro.?

(16) No original: ?mostraram com toda clareza?.

(17) ?Não havia se desarmado?: adicionado por Stálin.

(18) O resto da frase foi adicionado por Stálin.

(19) No original: ?Grande Revolução Socialista de Outubro?.

(20) ?Aos exploradores da classe operária?: no original, ?no campo dos opressores e exploradores?.

(21) ?A matar pelas costas?: adicionado na redação final da Pravda.

(22) Esta última frase não está no original datilografado nem na correção manual de Stálin.

(23) Stálin substituiu com esse parágrafo o final que estava no original: ?Com a morte de Trotsky, desaparece da arena política do mundo capitalista mais um velho espião e agente, inimigo mortal dos trabalhadores.? A expressão ?e de assassino? foi adicionada na redação final da Pravda.