Rio de Janeiro-RJ: Colégio Estadual é ocupado por estudantes na Ilha do Governador

Rio de Janeiro-RJ: Colégio Estadual é ocupado por estudantes na Ilha do Governador

Março 21, 2016 - 00:00
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Nesta segunda-feira, 21 de março, os alunos do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes na Ilha do Governador ocuparam a escola em protesto contra os cortes no orçamento da educação e o agravamento da precarização da escola pública. Desde então, eles seguem dentro da escola, gerindo e se organizando com atividades de greve e ocupação.

“A gente, com certeza, vai entregar esse colégio muito mais organizado do que estava antes quando estava a secretaria aqui!” (aluno do Mendes de Moraes)

Os aluno entraram na escola durante a tarde e lá permaneceram aguardando que as aulas que ainda ocorriam, ministradas pelos professores não grevistas, terminassem. Em seguida passaram a ter total controle de quem entra e sai do colégio. Definiram comissões de organização, como as comissões de segurança, estrutura, comunicação, alimentação e atividades.

Quando os estudantes efetivaram a ocupação, a direção do colégio tentou deslegitimar a ação direta autonoma. Logo após chegou o conselho tutelar que tentou argumentar que não era permitida a presença de menores de idade, que é a maioria. A secretaria de educação do estado (SEEDUC) também tentou convencer os estudantes a saírem.

“o conselho tutelar era para estar do nosso lado, mas não. A gente sabe isso quando uma secretária do conselho tutelar chega e dá dois beijinhos na bochecha do diretor Marcos e vai tomar cafezinho com ele, fica alguns minutos e depois sai. Isso a gente sabe que não está do nosso lado. [...] A SEEDUC também era para estar do nosso lado, não está! A gente sabe disso, quando novamente eles param para tomar um cafezinho com o diretor. A gente sabe disso, quando eles chegam aqui e querem que a gente deixe eles falarem mas não deixam a gente falar.” (aluno do Mendes de Moraes)

Os alunos reclamaram que fizeram diversas tentativas de diálogo mas não conseguiram e por isso resolveram agir. Somente após a ocupação que agentes do conselho tutelar e da secretaria de educação apareceram. A SEEDUC disse que se os alunos desocupassem ainda neste dia (segunda-feira) eles se reuniriam com os estudantes para conversar, no entanto, para os alunos já era tarde, pois uma reunião não dá garantias e pretendem ocupar até suas reivindicações serem atendidas.

“Eles sempre se negaram a conversar, ai quando estourou a ocupação ontem, surgiu um monte de gente do conselho tutelar, ai ele veio querendo conversar mas a nossa única resposta para eles foi: o tempo de conversa acabou, a gente começou agir agora […] eles achavam que a gente era fraco.” (aluno do Mendes de Moraes)

A ocupação seguiu. Salas foram transformadas em dormitórios e um calendário de atividades foi decidido em assembleia. Entre estas, está a manutenção do espaço e melhorar o que estava abandonado, entre estes estão um laboratório de ciências que virou depósito de livros e foi organizado por eles, um depósito de lixo que foi encontrado nos fundos do prédio e a limpeza em geral.

Os alunos denunciaram que a direção, junto com professores que não aderiram a greve, se empenharam para dividir o movimento. Na primeira e segunda manhãs de ocupação o diretor esteve presente e conversara com alunos e professores não grevistas na porta de escola. Alguns alunos contrários à ocupação ofendiam e ameaçavam estudantes, forçavam entrada mesmo sem estarem sendo impedidos, obrigando os ocupantes a fecharem os portões até acalmarem os ânimos. Na primeira manhã, um aluno tentou arrancar a faixa que dizia #ocupamendes exatamente no momento em que uma emissora de televisão filmava.

“Ele já conseguiu dividir uma galera, na maior parte das vezes eles estão repetindo o discurso do diretor que eles nem sabem o porque estão reproduzindo. Ele como uma imagem de autoridade diz isso e eles repente isso.” (aluno do Mendes de Moraes)

Durante a tarde do dia 22, quando jornalistas independentes chegavam no colégio, um grupo de aproximadamente sete adolescentes não uniformizados, desconhecidos dos alunos presentes e que estavam posicionados do outro lado da rua, soltaram uma bomba em frente ao colégio. O diretor, acompanhado por mais algumas pessoas, estava há alguns metros afastado na mesma calçada.

Alunos também denunciaram que o diretor teria ligado para pais espalhando boatos.

“Ele ligou para pais de alunos, muitos deles menores de idade […] por exemplo, no dia da ocupação tinham muitas pessoas que tomaram a iniciativa de ocupar o Mendes. O diretor Marcos falou para esses responsáveis que [alunos] queriam quebrar o patrimônio público, queriam bagunçar tudo e que os professores que estavam fazendo a cabeça deles.” (aluno do Mendes de Moraes)

Não apenas a direção com as instituições de estado se mostram contra a iniciativa dos estudantes, mas jornais e redes de televisão também decidiram propagar boatos sobre a ocupação. Redes de TV preferiram dar mais voz aos alunos não grevistas, mostrando uma imagem negativa da ocupação. Uma rede chegou a divulgar que livros e papéis abandonados nos fundos do colégio tinham sido destruídos pelos alunos e que teriam feito até mesmo uma fogueira com os livros. No entanto, mesmo outras redes mostraram que, na verdade, tal material estava abandonado há muito tempo nos fundos da escola e deteriorado pela ação do tempo.

Boatos também têm sido veiculados pelas redes sociais acusando os alunos de estarem usando drogas, bebendo e usando o colégio como clube, fazendo churrasco e usando a piscina. Porém, a piscina encontra-se suja e imprópria para o banho, não há churrasqueiras ou qualquer vestígio de fogo e não foi registrado nenhum tipo de bebidas alcoólicas ou drogas no local. Ao contrário, os alunos têm cumprido um extenso calendário de atividades, como oficinas culturais, rodas de debates, assembleias, mutirão de limpezas e de alimentação. Professores grevistas, jornalistas independentes e mesmo pais de alunos têm estado presentes e dormido no local.

Na manhã do dia 22, policiais militares tentaram entrar na escola mas foram inicialmente impedidos pelos alunos, no entanto, após alguma insistência acabaram conseguindo entrar mesmo sem mandato judicial para tal e portando armamento pesado dentro de uma escola cheia. Segundo alunos, os policiais queriam convencê-los a sair da escola. Mais tarde, a Secretaria de Educação afirmou que os policiais haviam denunciado depredação dentro do colégio, o que foi comprovado como falso.

Na manhã do dia 23, mais policiais militares tentaram entrar na escola, mas desta vez foram impedidos pelos alunos. Mesmo impedidos, tentaram forçar a entrada e intimidar jornalistas e alunos que filmavam. Como em filmagem feita pelo CMI-Rio que colocamos abaixo, policiais ameaçaram jornalista de ação criminal caso sua imagem fosse veiculada na mídia, ferindo a liberdade de imprensa e em clara tentativa de coerção. Nenhum policial pode impedir qualquer pessoa de registrar sua atividade enquanto em serviço.

Em vídeo feito por estudante, policiais o ameaçaram se não parasse de filmar. Os PMs ainda exigiram a identidade de pessoas que estavam filmando, entre elas estudantes e jornalistas. Muitos se recusaram devido a ilegalidade da ação, no entanto alguns estudantes, intimidados pelos policiais acabaram entregando o documento cujo os dados foram anotados pelos policiais.

“Eu quero a sua identidade, por gentileza. Se a minha foto aparecer exposto em algum lugar eu vou te acionar criminalmente. Eu quero a sua identidade!” (policial militar Batista O-)

O Policial militar Carvalho O+ chegou a ameaçar um estudante que filmava do lado de fora. Primeiro exigiu que ele entregasse sua identidade: “Me da a identidade sua! Só está você filmando não está vendo?”, percebendo que o estudante resistia e argumentava o seu direito de filmar a ação policial, o PM ainda continuou: “Tu é o que? Tu é o que cara? É repórter tu? Eu moro aqui na Ilha imbecil! Eu sou polícia, está maluco, coé?”. Em seguida o estudante preferiu retornar para dentro do colégio com medo pela ameaça do policial.

ORGANIZAÇÃO DA OCUPAÇÃO

A ocupação está sendo autogerida pelos próprios alunos. A divisão em comissões facilita a distribuição de atividades. Alguns alunos são responsáveis por manter a limpeza e cuidar do patrimônio, outros se certificam de que haverá todas as refeições. A comissão de segurança mantém o controle de entrada e saída de pessoas, evita possíveis brigas e cuida da segurança notura com vigílias revesadas por alunos durante toda a madrugada.

A comissão de comunicação cuida do diálogo com a imprensa e com a divulgação das atividades e acontecimento nas redes sociais, e a comissão de atividades se preocupa com a construção do calendário de atividades da ocupação.

As decisões são feitas em assembleias horizontais e tudo é decidido coletivamente. Os delegados das comissões executam as decisões em assembleias e suas funções são sempre temporárias e substituíveis a todo instante, para garantir a horizontalidade. Outros movimentos de apoio, coletivos, professores, entre outros, podem ajudar e sugerir atividades, mas as assembleias são realizadas apenas com a presença dos alunos para que não haja influências de entidades externas ao movimento secundarista das escolas.

“Para o pessoal que está na organização… para a gente é tudo muito novo! É nossa primeira experiência não só com manifestação mas também com uma ocupação. É uma troca de experiências.” (aluno do Mendes de Moraes)

Sempre que possível os alunos frisam a importância de não existirem líderes entre eles, e da importância de se manter a independência de outras entidades e movimentos estudantis ou não estudantis. O objetivo é que o movimento de ocupação se mantenha autônomo e desenvolva o espírito de autonomia dos próprios estudantes, transformando a ocupação em uma forte e real experiência de emancipação.

“A gente precisou fazer isso tudo para poder ter voz, sabe? Para as pessoas poderem ouvir a gente. Antigamente era assim: os professores falava. Tinha um problema, a gente levava para a direção, e a direção que mandava na gente! Agora se a gente tem um problema, a gente que fala e resolve o problema! A gente sempre foi comandando […] Aí você chega aqui, […] você acaba respondendo por si mesmo.” (aluna do Mendes de Moraes)

APOIO

Estudantes de todo o país já demonstraram apoio a primeira ocupação do Rio de Janeiro. Estudantes de são publicaram um vídeo nas redes sociais em apoio ao C.E.P. Mendes de Moraes. Estudantes de Niterói e São Gonçalo também publicaram uma foto onde cada um segura uma letra do #ocupamendes. Muitas outras manifestações de apoio são encontradas nas redes sociais pela hash tag #ocupamendes.

 

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