Por que a favela grita que "a UPP também é ditadura"?

Por que a favela grita que "a UPP também é ditadura"?

Junho 30, 2014 - 00:00
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Nos últimos meses a população de várias favelas do Rio de Janeiro está se organizando contra a massiva repressão das Unidades da Polícia Pacificadora – UPP. Junto aos gritos de “UPP também é ditadura” e “UPP chegou para matar trabalhador”, os moradores têm protestado e denunciado uma falsa política de segurança que se restringe à mais opressão da população pobre e marginalizada.

Desde a década de 70 que os tráfico de drogas vêm dominando esses espaços abandonados pelo poder público, implantando uma ordem local pelo crime organizado. Essa situação vem, desde então, se agravando e transformando as favelas - onde moram mais de 50% da população Carioca e corresponde à aproximadamente 40% do território habitado da cidade – em verdadeiros campos de guerras. A chegada da UPP veio como uma promessa de cessar a violência do tráfico e as constantes brigas entre facções ou entre policiais e bandidos, no entanto, a presença da força militarizada do estado não contribuiu para uma melhora na qualidade de vida da população. Na verdade, as Unidades da Polícia ‘Pacificadora’ apenas intensificou o estado de opressão nas áreas "pacificadas".

 

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A presença do estado, que deveria representar uma inclusão desse espaço no ordenamento da cidade, apenas intensificou a diferença. A polícia trata toda população local como criminosa, reforçando o sentimento de exclusão e de inferioridade entre o morro e o asfalto. A UPP, ao invés de levar a paz, levou mais violência e opressão. O braço armado dos traficantes foi somado ao braço armado dos policiais e, ao contrário do que muitos acreditam, a polícia não retirou as facções de dentro da favela, o tráfico continua e, em muitos casos, em total harmonia com a polícia. Os únicos que não conseguem viver em harmonia são a população trabalhadora que é a esmagadora maioria.

“No Complexo do Alemão é muito mais violento, porque lá não tem as mídias, não tem as câmeras, não tem os holofotes que a Zona Sul tem. Nós vivemos também numa farsa, porque o Complexo do Alemão é uma área da Zona Norte, onde eles estão isolados de tudo e de todos, aonde os policiais se acham deus [...] para poder dizer quem vai viver ou quem vai morrer.”

Isso não significa que a presença do estado e da polícia seja indesejada e que a presença das facções organizadas seja desejada. Ao contrário, todos desejam viver em um ambiente pacífico e organizado, sem crimes e incluso no convívio ordinário da cidade. O que se critica é a presença corrompida do estado que se alia e intensifica as forças violentas nessas favelas. A UPP não representa a inclusão democrática, mas a militarização tirânica da ordem social. Não há paz, há apenas medo, ameaças e mortes, tornadas parte do cotidiano da população da favela. O estado não pretende o bem à essas pessoas, pretende apenas uma imagem ilusória de segurança para quem vive na Zona Sul e para o turismo. "A UPP não é para nós, mas para a FIFA e para as Olimpíadas". Essa ilusão é muito bem representada pelos muros construídos nas vias que conectam o aeroporto às regiões nobres, que escondem e separam as favelas dos carros de luxo que passam por ali, dos turistas que chegam e saem. É o muro para inglês ver, o muro da vergonha.

A polícia e a segurança na Maré, no Alemão, no Jacaré, tem que ser a mesma da Zona Sul, e o tratamento dado aos moradores do morro tem que ser o mesmo dado ao morador do condomínio luxuoso e ao turista. Um estado que causa tanta ou maior violência que o crime organizado é tão criminosa quanto, e um governo que exclui a maior parte da população não é democrático, é tirânico.

Não podemos esquecer também das remoções que já despejaram 250mil pessoas de suas casas e, quase sempre, contrariando o que diz a mídia corporativa, essas pessoas não são realocadas em lugar algum, tendo que se virar para arranjar outro lugar para morar. Esse é o caso da favela metro-mangueira em frente ao maracanã, onde 700 famílias perderam suas casas e apenas 20 foram incluídas em algum plano de moradia e que, segundo a Rede Globo, 20 é número total de famílias que ocupava a enorme área em frente ao maracanã. Suas casas estão sendo demolidas para dar lugar a um estacionamento para o estádio de futebol, para dar lugar à carros de luxo dos turistas e da “nobreza” nacional. Esse também é o caso da Aldeia Maracanã, prédio histórico, cedido pelo Marechal Rondon aos indígenas e que abrigou o museu do índio de Darcy Ribeiro. O prédio foi violentamente desocupado pela polícia, roubando dos indígenas esse espaço por também atrapalhar as obras do estádio. Imóvel que por pouco não foi demolido pela Odebrecht para também virar estacionamento, se não fossem as manifestações de junho e a enorme repercussão internacional que a desocupação gerou.

Podemos ainda citar dezenas de outras comunidades, apenas no Rio de Janeiro, que foram ou estão sendo removidas por um projeto de higienização da cidade para os turistas, expulsando a população pobre de áreas que estão sendo revitalizadas, como a Lapa e a Praça Mauá. Esses são os casos das ocupações sem teto ou quilombolas que se localizavam na Rua Mem de Sá, na Cruz Vermelha ou nos arredores do Porto. Prédios a décadas abandonados, descumprindo o Artigo 5º da constituição de 88 sobre a função social das propriedades, e que muitas vezes estavam há mais de uma década sendo ocupados por pessoas sem moradia.

Muitos outros casos podem ser citados aqui, como a Vila Autódromo, Vila Taboinha, Ocupação Guerreiros Urbanos, Ocupação Carlos Mariguela, Bairro 13, Favela da Telerj, comunidade do Horto. O objetivo dessas desapropriações é de servir à especulação imobiliária da cidade. Serão áreas ou imóveis que se transformarão em prédios ou condomínios de luxo.

“A maior arma que eles têm é a rede globo, você vê reportagens com chamadas na primeira página do Globo chamando a comunidade de invasores [...] saiu um editorial no Globo falando isso, que era um absurdo que ainda não tenham removido as famílias, como se elas não tivesses os direitos que elas têm.”

O poder público não tem interesse em cuidar do bem estar da população mais pobre, justamente os mais necessitados, o único interesse é servir ao capital, às grandes empreiteiras e às grandes corporações que faturam bilhões todos os anos com a exploração e opressão do povo. Corporações essas como a Rede Globo e toda a mídia corporativa, comprometida apenas com o lucro. O chamado 4º poder, se empenha em informar à população apenas com aquilo que lhes interessa e do modo que os convém, não há compromisso com a verdade ou com a ética. A informação é crucial para se entender a realidade e transformá-la, um povo desinformado, é um povo passivo e servo da tirania.

Por isso a polícia mata o pobre, expulsa o pobre e oprime o pobre, que ainda é obrigado a depender de um ardiloso projeto de sucateamento da Saúde e Educação pública, alienando as condições de revolta e transformação. Para o estado, a Copa vale mais que Escolas e Hospitais, bem traduzido na fala de Ronaldinho: “não se faz uma Copa com Hospitais”. A Copa é prioridade, os hospitais são secundários, e a televisão mostra os jogos como se fossem a fonte de toda a felicidade e mostra a chacina de crianças e adolescentes nas favelas como se fossem um problema deles, uma consequência de alguma espécie de doença ou imoralidade. Pois esta é a linguagem deturpadora da mídia corporativa, meramente moralista e moralizadora, cumprindo o papel ideológico do estado, ignorando os verdadeiros problemas políticos e sociais da jovem democracia brasileira. A melhor representante desse discurso é a Globo, que se empenha em manter o entretenimento e a desinformação, mas, apesar desse projeto macabro de alienação, a história mostra que a tirania nunca vence por muito tempo e o povo está cada dia mais nas ruas e seu levante acontecerá mais cedo ou mais tarde.

“Polícia que mata nunca mais! Não quero ver mais mães chorando e gritando pelos becos das vielas: ‘Mataram meu filho!’. O Maicon, filho do Zé, tinha 3 anos, que foi assassinado na favela de Acari por policial por bala perdida. Tudo é bala perdida! E eles querem generalizar que nós nas comunidades somos traficantes ou temos vínculo com o tráfico. A REVOLTA NÃO É DO TRAFICO NÃO, A REVOLTA É DA POPULAÇÃO!”

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