Porto Alegre-RS: Das falsas democracias e ditaduras do terror: | De falsas democracias y dictaduras del terror: Caravana 43

Porto Alegre-RS: Das falsas democracias e ditaduras do terror: | De falsas democracias y dictaduras del terror: Caravana 43

Julho 07, 2015 - 00:00
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Em sua globalização contínua de lutas, a Caravana 43 pela América do Sul realizou uma visita a cidade de Porto Alegre no Estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, em que coletivos autônomos articularam a iniciativa de denúncia e solidariedade internacional pela exigência da aparição com vida dos 43 que faltam a todxs nós. Indivíduos, grupos e coletivos gaúchos fizeram um encontro para escutar as palavras simples que evidenciaram o processo sistemático da América Latina: a cruel guerra dos Estados contra sua própria população, aspecto que faz lembrar as ditaduras militares de ontem e hoje, particulamente no Brasil com sua simulada democracia, em que o nome de Ayotzinapa coube profundamente ao enunciar não a exceção, mas sim a regra dos maus governos do México e do mundo.

En su continuo globalizador de luchas, la Caravana 43 Sudamérica realizó una visita a la ciudad de Porto Alegre, estado de Río Grande del Sur, al extremo sur de Brasil, donde colectivos autónomos articularon la iniciativa de denuncia y solidaridad internacional por la exigencia de aparición con vida de los 43 que nos faltan a todxs. Individuos, grupos y colectivos gauchos se dieron cita para escuchar las palabras simples que evidencian el proceso sistemático en América Latina: la cruel guerra desde los estados contra su propia población, aspecto que recuerda a las dictaduras militares de ayer, y hoy particularmente en Brasil y su simulada democracia, donde el nombre de Ayotzinapa caló profundamente al enunciar no la excepción, sino la regla de los malos gobiernos de México y el mundo.

VERSIÓN ESPAÑOL

Pelo Coletivo de Cobertura da Caravana 43 Brasil*

Em sua globalização contínua de lutas, a Caravana 43 pela América do Sul realizou uma visita a cidade de Porto Alegre no Estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, em que coletivos autônomos articularam a iniciativa de denúncia e solidariedade internacional pela exigência da aparição com vida dos 43 que faltam a todxs nós. Indivíduos, grupos e coletivos gaúchos fizeram um encontro para escutar as palavras simples que evidenciaram o processo sistemático da América Latina: a cruel guerra dos Estados contra sua própria população, aspecto que faz lembrar as ditaduras militares de ontem e hoje, particulamente no Brasil com sua simulada democracia, em que o nome de Ayotzinapa coube profundamente ao enunciar não a exceção, mas sim a regra dos maus governos do México e do mundo.

O Assentamento Urbano Utopia e Luta foi testemunha da coletiva de imprensa que a Caravana 43 pela América do Sul realizou em sua chegada, em que o foco do discurso, para além das reivindicações de lutar e exigir justiça pelos crimes de Estado, deu o tom acerca da conjuntura eleitoral no México. O clima de militarização em Guerrero evoca a uma série de agressões que os estudantes, familiares dos normalistas e o movimento popular sofreram durante os primeiros dias de junho e que se intensificaram até a chegada do dia da farsa eleitoral, quando foi assassinado Antonio Vivar.

As ações de Rigoberta Menchú, sobrevivente do genocídio na Guatemala e prêmio Nobel da Paz, estavam na boca de todos. Como era possível que alguém com sua experiência traísse até seus próprios desaparecidos ao questionar a legitimidade da luta de Ayotzinapa? O dinheiro e o poder corrompem das formas mais dolorosas. As palavras de uma jovem indígena ao interromper uma cerimônia no México em que Menchú - paga pelo INE (Instituto Nacional Eleitoral) para contribuir e legitimar as eleições federais - havia convidado a um minuto de silêncio pelos desaparecidos, foi entoada com: “se fizéssemos um minuto de silêncio por cada desaparecido do México passaríamos a vida inteira calados”.

Dias antes do novo crime o pai de família, Mario González, reclamava “Agora a escola está rodeada de Tropas de Choque, Tixtla está rodeada de soldados, a repressão está forte em Guerrero e o presidente do PAN (Gustavo Madero) pede que sejam enviados mais elementos para reprimir... Não só acontece em Guerrero (o boicote eleitoral), é em todo país, mas é de tanta importância pra eles o poder, as eleições, que é preferível fazer as pessoas votarem a força do que encontrar nossos filhos...”, enquanto o estudante sobrevivente Francisco Sánchez completava: “em Ayotzinapa a repressão está acontecendo hoje e ontem sofreram outra, está tenso... tudo pelas eleições, porque não queremos isso em Guerrero, não podemos permitir que o INE eleja com a suposta democracia outro corrupto, outro assassino que não vai entregar nossos companheiros... se votamos, escolhemos nossos próprios repressores, assassinos.” As mães Hilda Legideño e Hilda Hernández fizeram na coletiva de imprensa local de Porto Alegre uma chamada de solidariedade e reafirmaram que não vão parar de lutar até encontrar seus filhos.

Negação da Humanidade

Um estandarte colorido diante de personagens vestidos de preto. “Levanta Favela” é o nome do grupo de teatro popular. Os sons de percusões marcam as palavras que entoam o clamor por justiça em uma canção que transmite festividade. “Tenho a certeza que os donos da terra estariam contentes se não escutassem minha voz”, grita um dxs personagens e a peça rompe em outro tom que se ecaminha a uma sátira direcionada aos meios de comunicação hegemônicos, às corrupções políticas e à polícia assassina. A peça retoma acontecimentos como o massacre em Eldorado dos Carajás em que foram assassinados 19 camponeses em 1996 no estado do Pará; de Elton Brum que levou um tiro pelas costas em 2009 no Rio Grande do Sul; de Claudia Silva que levou dois tiros e depois foi arrastada pela polícia militar e da desaparição forçada de Amarildo Dias, ambos casos ocorridos no Rio de Janeiro.

Com aquela ação o grupo de teatro popular recebeu a Caravana 43 em seu primeiro ato público em Porto Alegre, uma das cidades que desatou a onda de protestos massivos conhecidas como jornadas de junho de 2013, em que se conseguiu derrubar o arbitrário aumento da tarifa do transporte e incendiar a sociedade brasileira, apesar da resposta de uma feroz repressão governamental que buscava calar as próximas manifestações diante da Copa do Mundo que ocorreria no ano seguinte.

Diante de centenas de indivíduos, grupos e coletivos, a Caravana 43 pediu a quem assistia para levantar a voz pelos 43 estudantes desaparecidos de Ayotzinapa e globalizar a vida frente a morte que é imposta pelos Estados criminosos. “México é um Estado de criminosos, de seres sem dignidade, a quem importa mais o poder... pensei que isso só acontecia no meu país, mas para isso são as caravanas, para seguir lutando”, compartilhou Mario González que reafirmou sua preocupação pelas ações do Estado mexicano para impor a qualquer custo a farsa eleitoral: “Vão ser as eleições e Guerrero está militarizado, batem nos estudantes, nos professores, Atenco, Xochicuautla. Por que não queremos votar? Qual a liberdade? A liberdade é uma mentira, há repressão para que votemos.”

Da parte do público, uma das ouvintes compartilhou o sentimento dxs familiares e dxs presentes: “Vocês plantaram algo da sua luta aqui no Brasil, os coletivos não vão esquecer nem se calar. Nós temos que sair com nossos coletivos em nossas lutas para dizer: foi o Estado, o do México, o do Brasil, de toda América Latina como um todo que massacra e desaparece a todos que se levantam e lutam; estamos aqui para converter a dor em resistência. E não vamos nos calar.”

As palavras com as quais a peça teatral foi finalizada ainda ecoam na memória recente: Que se plante meu dizer com dor e fúria, o Estado é a negação da humanidade!

Boicotando à distância

A informação era um redemoinho que sacudia a atenção da Caravana 43 há uma semana, mas alcançou seu ápice naquele domingo, 7 de junho, que chegou com a urgência em que as notícias viajam na era digital. Desde os primeiros minutos da madrugada a situação de tensão no município de Tixtla, onde o apagão e a presença de contenções policiais e militares ao redor da Escola Normal de Ayotzinapa, aumentavam a angústia dxs estudantes e familiares frente à ameaça de uma possível repressão a seus companheiros mobilizados em Guerrero.

Milhares de kilometros ao sul, mas com a proximidade virtual que possibilitava a transmissão de informação através de redes sociais e meios livres, a Caravana 43 pela América do Sul montou um pequeno espaço de monitoração para seguir de perto os acontecimentos que marcaram a jornada e em que festejaram o cancelamento das eleições em Tixtla.

Pela tarde xs familiares e o estudante realizaram um ato no parque da Redenção no centro de Porto Alegre. A curiosidade de quem lá transitava no passeio de domingo atraiu mais ouvidos e corações para assistir as palavras de denúncia e o chamado de solidariedade que representavam milhares em Guerrero e milhões na ponte que se levanta entre México e Brasil.

No ato, Francisco tomou o microfone para informar os acontecimentos no México. “Ontem bateram, antes de ontem e hoje novamente na Normal. Porque não queremos eleições em Guerrero porque sabemos que seus candidatos não fazem nada. Queremos que o povo seja autônomo, queremos formar esses conselhos municipais que tanto fazem falta no México, que fazem justiça, não corruptos como Peña Nieto e Calderón que banharam nossa bandeira com sangue. Repudiamos o governo totalmente. Dizem que há 604 investigações e nenhum resultado, os especialistas em desaparecer pessoas são os militares, os federais ensinam isso para eles”, mencionou em referência às táticas contra-insurgentes que recebem os corpos de seguraça no México desde os anos 70, em especial o Batalhão 27 de Iguala conhecido como “aldeia vietnamita” pelos bombardeios que realizava contra as comunidades e pela infâmia que atualmente mostra em abundância na sua jurisdição com as narco-fossas e sua participação na agressão contra os normalistas.

“Não queremos que aconteça nem no México nem aqui... sintam a dor e a raiva que sentimos como pais e estudantes... viemos denunciar o governo assassino e corrupto de Peña Nieto... em Guerrero não queremos eleições porque queremos ser livres, queremos justiça por todos: Charco, Acteal, Aguas Blancas, Muertas de Juárez, Guardería ABC e a apresentação com vida dos nossos 43 companheiros... se deem conta que é só um inimigo, somos os de baixo que estamos sendo acabados pelo Estado, o sistema que ocorre em toda América Latina.”

A crítica é demolidora à insustentabilidade do sistema eleitoral e o fracasso de sua simulada representação. A militarização que sofria nesses momentos uma dezena de estados mexicanos e em dias anteriores à farsa eleitoral a Escola Normal de Aytozinapa encaram a magnitude do problema. A legitimidade não se obtém pelas armas, se não através daquela frase de Lucio Cabañas que no sangue dos estudantes de Guerrero ferve e grita: “Ser Povo, fazer Povo e estar com o Povo.”

De costas ao seu próprio povo

Na manhã do último dia de atividades, a Caravana 43 pela América do Sul fez parte de uma aula pública na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Jovens universitários escutaram as respostas de Francisco sobre o papel do narcotráfico no governo mexicano. “Não há guerra contra o narcotráfico, a guerra é contra o povo... no 26 de setembro o governo não pôde ocultar a guerra contra nós, contra os de baixo, não pôde ocultar essa guerra de extermínio...”, compartilhou em um auditório cheio após detalhar o pesadelo da noite em Iguala em que o Estado criminoso transbordou em seus mecanismos prediletos para tentar controlar a sociedade: o medo e o terror.

Depois de fazer a denúncia pelo assassinato de Antonio Vivar no dia anterior no município de Tixtla, Francisco resgatou a alternativa que se vislumbra no movimento: “O que acontece é dar processo aos municípios em que não houve eleições para que se tornem autônomos, para já não depender desse Estado corrupto, assassino, repressor... seguir o exemplo de Cherán, Michoacán, onde fizeram seus conselhos municipais em que participam os cidadãos do local, têm sua polícia comunitária, aí não se mete o governo... queremos isso em Guerrero... isso falta em todo o México... ótimo seria ter em toda América Latina conselhos municipais, que aqui no Brasil houvesse povoados autônomos, onde mandam e se defendem elxs mesmos... já vamos começando e temos que trabalhar duramente, não temos medo, temos que entrar com tudo.”

Entre xs que assistiam houve a reflexão sobre os paralelismos, apesar das geografias; a ditadura militar no Brasil entre 1964 e 1985. A Comissão da Verdade em anos recentes foi um passo importante para o reconhecimento desse passado no Brasil, mas teve muitas limitações em seu alcance, metodologia, recurso e só reconhece uma fração dos assassinatos e desaparições dentro das milhares de vítimas que são parte de uma história ainda não contada. Pior ainda, das 377 pessoas responsáveis por essas atrocidades, nenhuma foi julgada devido a uma lei de anistia aprovada em 1979 pelos mesmos militares e que foi ratificada em 2010 já em “tempos democráticos”, em que continuam acontecendo crimes contra a população jovem, como o caso de Samuel Egger, jovem ambientalista, estudante de psicologia que participou dos protestos de 2013 em Porto Alegre e foiassassinado em um controverso caso de “roubo”.

Como em outros países da região “a anistia” continua encobrindo os torturadores, ainda que delitos como de genocídio e crime contra contra a humidade nos marcos internacionais de Direitos Humanos não alcançariam perdão.

“No Brasil não se noticia os desaparecimentos. A cada hora jovens das periferias desaparecem e sempre se coloca como culpado o narcotráfico, as famílias são silenciadas e não se tem dados nem informação. Conheço uma periferia de Porto Alegre, bairro da Rastinga, onde acompanho desaparecimentos de ex-alunos meus.... Como reflete isso na organização, no bairro? Como se mobilizar frente à violência?... o silenciamento é o que mais me comove... a geografia fala de uma resistência globalizada, que nos faz pensar em nosso lugar, nosso cotidiano e entender como se dão os movimentos e a parcialidade dessas ações... mas o que sabemos da Amazônia?” - reclama uma professora que acredita que apesar do pensamento externo de que Brasil está de costas para a América Latina, na realidade o Brasil está de costas para si mesmo.

Para não esquecer jamais

Como parte do encerramento da Caravana 43 pela América do Sul em Porto Alegre o grupo “Ói Nóis Aqui Traveiz” realizou uma peça de teatro na denominada Esquina Democrática no centro da cidade, onde uma multidão sempre apressada faz uma pausa para observar. A ação transmite a fala do poder que submete povos através de sua única linguagem: a violência. Se faz aterrador diante dos olhares dxs espectadores, não o corpo que jaz no chão, colorido e sem rosto nessa contradição de vida e morte, mas sim a paralisação produzida pelo medo que corrói como o fogo que cospe a agressão para o vento. Armas, dinheiro, poder. Diante do monstro naturalizado, existem lutas com o nome de Ayotzinapa que, com seus 43, nossos, de todos, representam o sem-rosto de tantas lutas do agora, do antes e do amanhã.

O ato encara múltiplas realidades. Tempo, espaço. O passado que se enuncia e se faz tangível através do ritual que enlaça nomes e rostos... Leonel Castro Abarca... Miguel, Benjamín, Saúl, Israel, Jorge Antonio, Luis... Os nomes proferidos se entrelaçam com o vento que move de um lado para outro os pequenos rostos que se fazem presentes, convertendo todos em uma só multidão que percebe o olhar dos companheiros que a todos fazem falta. Nas cadeiras vazias não estão mais. O presente em que a luta para encontrá-los mantém viva a memória de outras lutas, como o coletivo teatral realiza para denunciar as desaparições durante a ditadura no Brasil e que se converte em exigência pela vida, pela busca incasável dxs familiares, pela construção de uma justiça que não se espera de nenhuma outra parte.

Depois do ato tem início uma marcha em que as mães diante da luta quebram o silêncio. Dezenas de pessoas se unem ao contingente, onde as cadeiras da peça teatral que simbolizavam a ausência das pessoas é coberto pelo clamor e exigência das multidões.

Francisco pega o microfone de novo, pela última vez nessa cidade:

“Todo governo é corrupto, eles globalizam as injustiças, os crimes de Estado, o terrorismo de Estado, para nós resta globalizar a resistência, já estamos cansados e estamos nos organizando para derrotá-lo... os de cima tem que cair e nós vamos gozar de justiça... a América Latino tem que se libertar, pedimos uma mudança para todos... Queremos que sigam se organizando, manifestando, protestando por Ayotzinapa... a gente, de lá, vai pedir justiça pelo povo brasileiro... os 43 são meus irmãos e não vou parar até encontrá-los, seguirei levantando a voz para exigir a apresentação com vida dos 43 e, se necessário, dar a vida, daremos como Ayotzinapa, se é necessário morrer, o faremos... Nós levamos conosco o compromisso de pedir em cada manifestação lá em Ayozinapa justiça por tudo que vimos no Brasil... as autoridades atuam da mesma forma no México e no Brasil... organizemo-nos para derrotar quem nos pisoteia... estão em nossos corações, abraço da base estudantil da Normal Rural de Ayotzinapa, abraço dos 43 pais de família.”

A mensagem continua.

*Com a participação do Centro de Medios Independentes da Guatemala e Agência Subversiones

 

VERSIÓN ESPAÑOL

En su continuo globalizador de luchas, la Caravana 43 Sudamérica realizó una visita a la ciudad de Porto Alegre, estado de Río Grande del Sur, al extremo sur de Brasil, donde colectivos autónomos articularon la iniciativa de denuncia y solidaridad internacional por la exigencia de aparición con vida de los 43 que nos faltan a todxs. Individuos, grupos y colectivos gauchos se dieron cita para escuchar las palabras simples que evidencian el proceso sistemático en América Latina: la cruel guerra desde los estados contra su propia población, aspecto que recuerda a las dictaduras militares de ayer, y hoy particularmente en Brasil y su simulada democracia, donde el nombre de Ayotzinapa caló profundamente al enunciar no la excepción, sino la regla de los malos gobiernos de México y el mundo.

El Asentamiento Urbano Utopía y Lucha fue testigo de la conferencia de prensa que la Caravana 43 Sudamérica realizó a su llegada, donde el eje del discurso, además de las reivindicaciones de luchar y exigir justicia por los crímenes de estado, dio el acento en la coyuntura electoral en México. Un clima de militarización en Guerrero está atrás de una serie de agresiones que los estudiantes, familiares de los normalistas y el movimiento popular sufrieron durante los primeros días de junio y que se intensificarían hasta llegar el día de la farsa electoral cuando fue asesinado Antonio Vivar.

Las acciones de Rigoberta Menchú, sobreviviente del genocidio en Guatemala, y premio Nobel de Paz estaban en la boca de todos. ¿Cómo era posible que alguien con su experiencia, traicionara hasta sus propios desaparecidos al cuestionar la legitimidad en la lucha de Ayotzinapa? El dinero y el poder corrompe de las formas más dolorosas. Las palabras de una joven indígena al interrumpir una ceremonia en México en el que Menchú, pagada por el Instituto Nacional Electoral (INE) para contribuir a legitimar las elecciones federales, había invitado a un minuto de silencio por los desaparecidos, a lo que respondió —«Si hiciéramos un minuto de silencio por cada desaparecido en México, pasaríamos la vida entera callados».

Días antes del nuevo crimen el padre de familia Mario González reclamaba —«Ahora la escuela está rodeada de Gendarmería; Tixtla está rodeada de soldados, la represión esta fuerte en Guerrero y el presidente del PAN [Gustavo Madero] pide que envíen más elementos para reprimir… No solo es en Guerrero [el boicot electoral], es en todo el país pero tanto es de importancia para ellos el poder, las elecciones, que es preferible que vote la gente a la fuerza que encontrar a nuestros hijos»— mientras el estudiante sobreviviente Francisco Sánchez completaba: «En Ayotzinapa la represión es hoy y ayer sufrieron otra, esta cabrón. Todo por las elecciones porque no queremos eso en Guerrero, no podemos permitir que el INE elija con la supuesta democracia a otro corrupto, otro asesino, que no va a entregar a nuestros compañeros. Si votamos elegimos a nuestros propios represores, asesinos».

Las madres Hilda Legideño e Hilda Hernández hicieron, ante la prensa local de Porto Alegre, una llamada a la solidaridad y reafirmaron que no van a parar de luchar hasta encontrar a sus hijos.

Negación de la humanidad

Un estandarte colorido precede a personajes vestidos de negro. Levanta Favela, es el nombre del grupo de teatro popular. Los sonidos de percusiones enmarcan las palabras que entonan clamor por justicia en un canto que transmite festividad. «Tengo la certeza que los dueños de la tierra estarían contentos si no escucharan mi voz» —grita uno de lxs personajes y la pieza rompe en otro tono que se traslada a una sátira a los medios de comunicación hegemónicos, las corrupciones políticas y la policía asesina. La pieza retoma acontecimientos como la masacre en Eldorado dos Carajás donde fueron asesinados 19 campesinos en 1996 en Pará; de Elton Brum quien recibió un disparo por la espalda en 2009 en Río Grande del Sur; de Claudia Silva quien recibió dos balazos y después fue arrastrada por la policía militar y de la desaparición forzada de Amarildo Dias, ambos casos ocurridos en Río de Janeiro.

Con aquella acción el grupo de teatro popular dio el recibimiento a la Caravana 43 en su primer acto público en Porto Alegre, una de las ciudades donde se desató la ola de protestas masivas recordadas como las jornadas de junio 2013 que consiguieron tumbar el arbitrario aumento en la tarifa del transporte y que incendiaron a la sociedad brasileña, las cuales fueron contestadas con una feroz represión gubernamental para acallar las manifestaciones próximas a la copa mundial el año siguiente.

Frente a centenas de individuos, grupos y colectivos, la Caravana 43 pidió a los asistentes levantar la voz por los 43 estudiantes desaparecidos de Ayotzinapa y globalizar la vida, frente a la muerte impuesta por los estados criminales. «México es un estado de criminales, de seres sin dignidad, a quienes les importa mas el poder…pensé que sólo pasaba en mi país pero por eso son las caravanas para seguir luchando» —compartió Mario González quien recalcó su preocupación por las acciones del estado mexicano para imponer a cualquier costo la farsa electoral. «Van a ser las elecciones y Guerrero está militarizado, le pegan a los estudiantes, a los maestros, Atenco, Xochicuautla ¿Porque no queremos votar? ¿Cuál libertad? La libertad es una mentira, hay represión para que votemos».

De parte del público una de las asistentes compartió el sentir de lxs familiares y de lxs presentes. «Ustedes sembraron algo de su lucha aquí en Brasil, los colectivos no van a olvidar ni tampoco a callar. Nosotros tenemos que salir con nuestros colectivos en nuestras luchas para decir: fue el estado, el de México, el de Brasil, de toda América Latina como un todo que masacra y desaparece a todos quienes se levantan y luchan; estamos aquí para convertir el dolor en resistencia. Y no nos vamos a callar».

Las palabras con las que finalizaron la pieza teatral retumban en la memoria fresca: ¡Que se siembre mi decir con dolor y furia, el estado es la negación de la humanidad!

Boicoteando a la distancia

La información era un torbellino que sacudía la atención de la Caravana 43 desde una semana atrás pero alcanzó el cenit en aquel domingo 7 de junio que arribó con la premura en que las noticias viajan en la era digital. Desde los primeros minutos de la madrugada la situación de tensión en el municipio de Tixtla, donde cortes del suministro eléctrico y la presencia de retenes policiacos y militares alrededor de la escuela Normal de Ayotzinapa, aumentaban la angustia de lxs estudiantes y familiares ante la amenaza de una posible represión a sus compañeros movilizados en guerrero.

A miles de kilómetros al sur, pero con la cercanía virtual que posibilitaba la transmisión de información a través de redes sociales y medios libres, la Caravana 43 Sudamérica montó un pequeño espacio de monitoreo para seguir de cerca los acontecimientos que marcaron la jornada donde festejaron la cancelación de las elecciones en Tixtla.

Por la tarde, lxs familiares y el estudiante se realizaron un acto en el parque de Redención en el centro de Porto Alegre. La curiosidad de transeúntes en paseo dominical atrajo más oídos y corazones para asistir las palabras de denuncia y el llamado a la solidaridad que representaban a miles en Guerrero y millones en el puente que se levanta entre México y Brasil.

En el acto, Francisco tomó el micrófono para informar de lo acontecido en México.

«Ayer golpearon, antier, hoy nuevamente en la normal. Porque no queremos elecciones en Guerrero porque sabemos que sus candidatos no hacen nada. Queremos que el pueblo sea autónomo, queremos formar esos concejos municipales que tanto hacen falta en México, que hacen justicia, no corruptos como Peña Nieto y Calderón que bañaron nuestra bandera de sangre. Repudiamos al gobierno totalmente. Dicen que van 604 investigaciones y ningún resultado, los expertos en desaparecer personas son los militares, federales a ellos les enseñan eso» —menciona en referencia a las tácticas contrainsurgentes que reciben cuerpos de seguridad en México desde los años setenta, en específico el batallón 27 de Iguala que de ser conocido como «aldea vietnamita» por los bombardeos que realizaba contra las comunidades pasó en la actualidad a la infamia por la abundancia en su jurisdicción de narco-fosas y su participación en la agresión contra los normalistas.

«No queremos que pase ni en México ni aquí… sientan el dolor y la rabia que sentimos como padres y estudiantes…venimos a denunciar al gobierno corrupto y asesino de Peña Nieto… en Guerrero no queremos elecciones porque queremos ser libres, queremos justicia por todos: Charco, Acteal, Aguas Blancas, Muertas de Juárez, Guardería ABC y la presentación con vida de nuestros 43 compañeros. Dense cuenta que es solo un enemigo, somos los de abajo que estamos siendo acabados por el estado, el sistema que ocurre en todo Latinoamerica».

La crítica es demoledora a la insostenibilidad del sistema-electoral y el fracaso de su simulada representación. La militarización que sufría en esos momentos una decena de estados mexicanos y desde días previos a la farsa electoral la escuela normal de Ayotzinapa encaran la magnitud del problema. La legitimidad no se obtiene mediante las armas, sino a través de aquella frase de Lucio Cabañas que en la sangre de los estudiantes de Guerrero hierve y grita: «Ser Pueblo, hacer Pueblo y estar con el Pueblo.»

De espaldas a su propio pueblo

Por la mañana del último día de actividades, la Caravana 43 Sudamérica hizo parte de una aula pública en la Universidad Federal de Rio Grande del Sur. Jóvenes universitarios escucharon las respuestas de Francisco sobre el papel del narcotráfico en el gobierno mexicano «No hay guerra contra el narcotráfico, la guerra es contra el pueblo. El 26 de septiembre el gobierno no pudo ocultar la guerra contra nosotros, contra los de abajo, no pudo ocultar esa guerra de exterminio» —compartió en un auditorio repleto tras detallar la pesadilla de la noche en Iguala donde el estado criminal se desbordó en sus mecanismos predilectos para intentar controlar la sociedad: el miedo y el terror.

Después de hacer la denuncia por el asesinato de Antonio Vivar el día anterior en el municipio de Tixtla, Francisco rescató la alternativa que se vislumbra en el movimiento: «Lo que pasa es darles proceso a los municipios donde no hubo elecciones para que se vuelvan autónomos para ya no depender de ese estado corrupto, asesino y represor; seguir el ejemplo de Cherán, Michoacán, donde hicieron sus concejos municipales, donde participan los ciudadanos del pueblo, tienen su policía comunitaria, hay no se mete el gobierno. Queremos eso en Guerrero, eso falta en todo México. Chingón sería tener en toda Latinoamérica concejos municipales, que aquí en Brasil hubiera pueblos autónomos, donde se mandan y defienden ellos mismos. Ya vamos empezando y tenemos que darle duro; no tenemos miedo hay que entrar con todo».

Entre lxs asistentes se reflexionó sobre los paralelismos pese a las geografías; la dictadura militar en Brasil de 1964 a 1985. La Comisión de la Verdad en años recientes fue un paso importante para el reconocimiento de este pasado en Brasil, pero tuvo muchas limitaciones, en cuanto a alcance, metodología, recursos y sólo reconoce una fracción de los asesinatos y desapariciones dentro de las millares de víctimas que son parte de una historia aún no contada. Peor aún, de las 377 personas responsables de estas atrocidades, ninguna fue juzgada por ello debido a una ley de amnistía aprobada en 1979 por los mismos militares que fue ratificada en 2010 ya en «tiempos democráticos» en los que continúan aconteciendo crímenes contra la población joven y reaccionaria como el caso de Samuel Eggers, joven ambientalista, estudiante de psicología quien participó en las protestas de 2013 en Porto Alegre y fue asesinado en un controvertido caso de «robo».

Como en otros países de la región «la aministía» sigue encubriendo a los torturadores, aunque delitos como genocidio y de lesa humanidad en los marcos internacionales de derechos humanos,no alcanzarían perdón.

«En Brasil no se notician los desaparecimientos. A cada hora jóvenes de las periferias desaparecen y siempre se coloca como culpable al narcotráfico, son silenciadas las familias y no se tienen datos ni información. Conozco una periferia de Porto Alegre, barrio de Rastinga donde acompaño desaparecimiento de ex-alumnos míos. ¿Cómo refleja eso en la organización, en el barrio? ¿Cómo se moviliza frente a la violencia? El silenciamiento es lo que más me toca. La geografía habla de una resistencia globalizada que nos hace pensar en nuestro lugar, nuestro cotidiano y entender como se dan los movimientos y la parcialidad de esas relaciones. Pero ¿qué sabemos de la Amazonia?» —reclama una profesora para quien pese al pensamiento externo que acredita que Brasil está de espaldas a América Latina, en realidad Brasil está de espaldas para sí mismo.

Para no olvidar jamás

Como parte del cierre de la Caravana 43 Sudamérica en Porto Alegre el grupo Ói Nóis Aqui Traveiz realizó una pieza de teatro en la denominada Esquina democrática en el centro de la ciudad donde una multitud siempre apresurada hace una pausa para observar. La acción transmite el habla del poder que somete pueblos a través de su único lenguaje: la violencia. Por ello resulta aterrador frente a las miradas de lxs espectadores, no el cuerpo que yace en el piso, colorido y sin rostro en esa contradicción de vida y muerte, sino la paralización producida por el miedo que corroe como el fuego que escupe la agresión hacia el viento. Armas, dinero, poder. Frente al monstruo naturalizado, existen luchas con el nombre de Ayotzinapa, que con sus 43, nuestros, de todos, representan a los sinrostro de tantas luchas del ahora, de antes y de mañana.

El acto encara múltiples realidades. Tiempo, espacio. El pasado que se enuncia y se hace tangible a través del ritual que enlaza nombres y rostros: Leonel Castro Abarca, Miguel, Benjamín, Saúl, Israel, Jorge, Antonio, Luis… Los nombres proferidos se entremezclan como el viento mece los pequeños rostros que los hacen presentes, convirtiéndolos todos en uno sólo con la multitud que percibe la mirada de los compañeros que a todos nos hacen falta. Las sillas vacías no lo están más. El presente en que la lucha por encontrarlos mantienen viva la memoria de otras peleas, como el colectivo teatral realiza para denunciar las desapariciones durante la dictadura en Brasil y que se convierte en la exigencia por la vida, por la búsqueda incansable de lxs familiares por la construcción de una justicia que no se espera de ninguna otra parte.

Después del acto, inicia una marcha donde las madres al frente de lucha quiebran el silencio. Decenas de personas se unen al contingente, donde las sillas de la pieza teatral que simbolizaban la ausencia de las personas es cobijado por el clamor y la exigencia de las multitudes.

Francisco toma el micrófono de nuevo, por última vez en esta ciudad:

«Todo gobierno es corrupto, ellos globalizan las injusticias, los crímenes de estado, el terrorismo de estado, a nosotros nos queda globalizar la resistencia, ya estamos cansados y nos estamos organizando para derrotarlo. Los de arriba tienen que caer y nosotros vamos a gozar de justicia. Tiene que liberarse América Latina, pedimos un cambio para todos. Queremos que se sigan organizando, manifestando, protestando por Ayotzinapa. Nosotros desde allá vamos a pedir justicia por el pueblo brasileño. Los 43 son mis hermanos y no voy a parar hasta encontrarlos, seguiré levantando la voz para exigir la presentación con vida de los 43 y si es necesario dar la vida, la daremos como Ayotzinapa, si es necesario morir, lo haremos. Nosotros nos llevamos el compromiso de pedir en cada manifestación allá en Ayotzinapa para pedir justicia por todo lo que vimos aquí en Brasil. Las autoridades actúan de la misma forma en México y Brasil por ello es una única lucha, organicémonos para derrotar a quien nos pisotea. Están en nuestros corazones, abrazo de la base estudiantil de la normal rural de Ayotzinapa, abrazo de los 43 padres de familia.»

El mensaje continua.

*Con la participación de los Centros de Medios Independientes de Guatemala, Rio de Janeiro y Agencia Subversiones

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